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Meus pais envelheceram. E não sei lidar com isso

Matheus Pichonelli

21/11/2017 08h00

Cena do filme Nebraska, sobre a relação entre pais e filhos

Cena do filme Nebraska, sobre a relação entre pais e filhos (Foto: Reprodução)

 

Eu já escrevi diversas vezes sobre a (dura) vida após o nascimento dos filhos. Também já li muito a respeito: as dores, os choros, as fases, as receitas infalíveis. Mas pouco sei, pouco li, pouco escrevi sobre a relação com os pais. Sabemos tudo sobre o terrible two, mas pouco falamos sobre o terrible sixty.

Dias atrás, dividi em casa (leia-se a casa dos meus pais, embora não more lá já muito tempo) uma angústia grave ocasionada por uma razão específica.

Ouvi um mantra do conformismo que não me causou nada além de revolta: “Ah, mas tem tanta coisa pior, tanta gente morrendo no hospital”.

Noves fora eu ainda não estar morrendo em um hospital, e aparentemente sem motivos para me angustiar, me angustiava pensando onde estava aquela figura do ancião do estilo Senhor Miyagi que me prometeram na infância; aqueles velhinhos sábios de barba branca que ouviriam nossos relatos, olhariam para o céu enquanto mexiam o chá e nos ensinariam a tirar ensinamentos da natureza e dos sinais do corpo, do tempo, da lua, dos livros.

“Ah, mas tem tanta coisa pior…”

Era como, a certa altura da vida, no limite dos esforços para unir vida afetiva, profissional e familiar no mesmo barco, com um déficit considerável na balança entre obrigações e prazeres, ouvir “se vira aí, estamos todos condenados”.

“Coisa de velho”, me disseram, como se a partir dali não houvesse nada mais a ser feito ou tentado.

Não, não deixamos de ser filhos quando nos tornamos pais, mas nossas demandas estão sempre em transformação. Se, na infância, bastavam a mamadeira, um abraço, uma palavra de conforto, um presente no Natal, hoje não existe nada na prateleira que funcione como um redutor do desamparo. Vai ver é porque, com a idade, a existência se torne complexa e ninguém mais disfarce que as respostas simplesmente não existem no meio do caos.

Pudera: como esperar conforto de quem já lida o tempo todo com as próprias questões, muitas delas relacionadas ao que Philip Roth escreveu no livro “O Animal Agonizante”: “Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido”.

Entre os 30 e 40, acumulamos papeis e dúvidas sobre estes papeis; deixamos de sermos cuidados e passamos a cuidar não de um, mas de vários seres frágeis que podem explodir em choro a qualquer movimento brusco.

Busco, então, notícias e relatos sobre esta mudança de patamar nos relacionamentos. Encontro, em muitos casos, notícias de pessoas com cabelos brancos e óculos escuros que viajam, andam de skate, passam parte do ano em cruzeiros, ouvem Lady Gaga e carregam já nos títulos um tal de “espírito jovem”.

Mas não é dessa velhice deslocada e descolada que preciso saber. Ela não me dá a menor pista sobre como lidar a velhice real, que há 20 anos sentou na frente do sofá para assistir (e xingar) o Faustão e nunca mais levantou, a não ser para ir à igreja ou ao supermercado, prometendo declarar a terceira guerra mundial numa discussão sobre a gasolina (e a necessidade de queimar gasolina até o mercado) e a quarta por causa da marca do molho de tomate.

Como quebrar essa rotina? Como expandir o convívio sem que alguém precise sair na foto com aquele olhar de desconforto toda vez que sai da rotina? Como explicar que não nos tornamos pessoas horríveis só porque não vamos mais à missa aos domingos? Como pertencer àquele convívio? Como ouvir todas as (mesmas) reclamações sobre as mesmas pessoas, personagens da novela e governos (qualquer um) sem bufar ou decretar que “tudo isso é bobagem”. Não é.

O que fazer quando os assuntos em comum são receitas para o almoço, para lembrar que estamos vivos, ou o boletim médico e obituários, para lembrar que o tempo é curto?

Como lidar, afinal, com quem não só passou a alimentar um medo constante da morte como testemunhou o próprio mundo morrer aos poucos? Meu avô, por exemplo, teve um susto quando voltou a ouvir na minha casa as músicas Francisco Alves, seu maior ídolo, depois de muitos anos, graças a algum fã e colecionador do YouTube. Com o fim dos vinis, dos toca-discos e dos consertos de aparelhos antigos, parte da sua identidade havia simplesmente desaparecido até aquele reencontro. Era como se uma parte dele também tivesse morrido. Um mundo que passamos a frequentar juntos por meio de uma trilha sonora até então esquecida.

Pois imagine ver todas as ferramentas que funcionavam no auge da forma física se tornarem peças obsoletas de museu: a máquina de escrever, a calculadora, os papeis, as anotações a lápis. Não deve ser fácil assistir e ser atropelado com a chegada de desktops, laptops, tablets, smartphones, tentar se conectar a uma rede virtual por insistência dos filhos e netos e depois se tornar memes fofinhos que viralizam entre os nativos digitais cada vez que alguém acusa, em uma conversa printada de WhatsApp, a falta de habilidade com a nova ferramenta.

Deve haver algum meio-termo entre este mundo que desaparece e outro que emerge; um meio-termo que permita um convívio sem achaques emocionais sobre deveres, presenças constantes, preenchimentos existenciais e sentidos.

Queria ler mais sobre isso, falar mais sobre isso, compartilhar dúvidas e anseios, mas percebo que a velhice, a velhice real, é simplesmente um assunto ignorado quando ela não finge ser jovem, não fala como jovem, não se veste como jovem — essa ideia de vitalidade inabalável que move todas as rebeldias, símbolos e monumentos ao consumo.

Falar sobre a velhice, sem eufemismos ou obrigações subliminares de felicidade constante, é uma forma de falar sobre acolhimento. É também uma forma de valorizar um mundo prestes a desaparecer. E lembrar que, entre todas as dificuldades de convívio, a longevidade dos pais é o maior presente que os filhos podem ter. Como diz a música, a lição sabemos de cor. Só nos resta aprender.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e CartaCapital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e se mudou para Valinhos, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol enquanto molha as plantas, passeia com a cachorra e coloca Rolling Stones no celular para o filho de 4 anos se entreter. Além deste blog, é colaborador dos sites The Intercept Brasil, Nocaute e do Instituto CPFL.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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