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Por que sentimos culpa das pequenas alegrias, como ver um jogo da Copa? 

Matheus Pichonelli

20/06/2018 04h00

Cena do filme A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino. Foto: Divulgação

Acordei com uma alegria incomum na sexta-feira, segundo dia da Copa, com três jogos para ver na TV. A empolgação durou algumas horas: logo surgiram aos montes os fiscais da alegria alheia com índices insofismáveis do IDH debaixo do braço. “O Brasil é favorito, mas perde nos campos da saúde, da educação e blablabla”.

Era como estar prestes a devorar um chocolate suíço (sem trocadilhos) guardado por quatro anos e ouvir, na primeira mordida, uma invasão de tuiteiros com entonação pastoral: “sabe que isso engorda, mata e entope as veias, né?”. Não consegui engolir.

Nossas pequenas alegrias estão sempre na órbita das nossas culpas. Deve ser herança da nossa tradição religiosa baseada no ascetismo. Só valorizamos ou respeitamos os sacrifícios e a contrição; todo o resto é uma grande futilidade, um sentimento vazio e egoísta que preenche o corpo e jamais a alma. Como se apenas o jejum fosse capaz de parar as guerras diárias sobre as quais não temos o menor controle.

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Um país que não se permite 90 minutos de distração é um país condenado, garante um amigo, cansado de velhos memes que comparam alhos com bugalhos (desempenho esportivo x desempenho educacional; juízes do STF x juízes de vídeo arbitragem etc).

Repara como, em nossas horas de distração, tem sempre alguém disposto a nos apontar o dedo e lembrar que, no mundo lá fora, há coisas urgentes a serem feitas.

Ninguém em dia com a consciência há de discordar, mas o fato é que ainda somos capazes de nos alegrar com as coisas mais bobas: uma série, uma sessão de cinema, um livro, uma taça do vinho em promoção ao fim da tarde. Um gol. Seria indício de nossa falta de Projetos com P maiúsculo?

Estaríamos, como escreveu outra amiga, condenados a viver em uma sociedade orientada por pequenos projetos particulares? Trocamos a revolução pelas contas do mês, a reforma ou a decoração da casa? O que mais somos capazes de propor a nós mesmos como desafio a não ser correr, uma vez na vida, uma meia maratona?

“Onde queres um lar, revolução”

Nosso desafio de grandeza é quase uma herança maldita. Na segunda metade do século passado, os jovens da geração baby boom decidiram romper com os pais que, nas décadas anteriores, promoveram ou foram destroçados pelas duas grandes guerras. Ser rebelde era inventar um mundo novo.

Essa ideia moveu gerações dispostas a fazer deste pedaço de terra um lugar melhor, sem campo minado, baioneta ou bomba atômica.

Não foi exatamente um projeto fracassado, a começar pela revolução sexual. Mas muitos se perguntam agora, a certa altura da vida, se a criação dos filhos é a única atividade não-individual que faremos até o fim da vida.

E eu tento responder, ao menos para mim mesmo, que não adianta tomar a Bastilha se não nos ocupamos em ensinar as novas gerações a não reproduzir as estruturas e hierarquias de dominação e exclusão que já começam na linguagem. Nos pequenos gestos do nosso entorno, podemos ajudar a criar um campo gravitacional no qual ninguém precisa sofrer, por medo ou vergonha, por ser quem é nem amar como quiser. O nome disso é tolerância.

A ideia de revolução hoje parece associada a uma ideia de resistência, e isso não significa apenas se negar a fazer parte do mundo (“não como isso, não frequento aquilo, não uso aquele”); é fazer parte de um mundo de facilidades de transação, comunicação e deslocamento e não necessariamente se dobrar a discursos, interesses ou ao imperativo do consumo pelo consumo e da acumulação.

Não conheço ninguém que esteja isolado na selva tramando a implosão do sistema por fora, mas conheço quem está realmente disposto a transitar pelo mundo sem precisar agredir ninguém.

Os campos ficaram cinzentos, mas ainda é fácil saber quem é quem: se você está torcendo por seu time na Copa, você é só um torcedor na Copa, com outros interesses e objetivos fora dali. Se você está na Copa filmando e constrangendo uma mulher que não entende a sua língua, você é um babaca.

Não sei se, tendo isso em mente, teremos condições de mudar o mundo sem precisar abrir mão das pequenas grandes alegrias do dia-a-dia, como uma reunião entre amigos para comemorar um gol ou o nascimento de uma nova vida.

Em tempos de desalento, a alegria, volto a dizer, pode ser uma grande arma política. A censura aos pequenos prazeres, sobretudo às manifestações populares, como o Carnaval, é, por sua vez, um ode a tudo o que nos paralisa.

O que o mundo precisa é de movimento. É sair da letargia. E de inspiração. Ninguém vai construir uma potência para além do esporte enquanto nosso conceito de protesto, além da autodepreciação, se resumir a desligar a TV ou mudar de canal em dias de jogos.

Como resumiu o personagem Jep Gambardella, de “A Grande Beleza”, “estamos todos condenados, mas podemos ser mais generosos que isso”.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e CartaCapital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e se mudou para Valinhos, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol enquanto molha as plantas, passeia com a cachorra e coloca Rolling Stones no celular para o filho de 4 anos se entreter. Além deste blog, é colaborador dos sites The Intercept Brasil, Nocaute e do Instituto CPFL.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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