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Mal da década? Talvez você seja nomofóbico e não saiba

Matheus Pichonelli

13/09/2017 04h00

Cena do episódio “Be Right Back”, da série Black Mirror

Até alguns dias atrás, se alguém me dissesse que eu sofro de nomofobia eu, de bate-pronto, retrucaria: nomofóbico é seu pai.

Mas depois do último feriado prolongado eu decidi aceitar que preciso de ajuda. Eu e todos os frequentadores do parque aquático onde, de longe, imaginava fruir a paz dos justos com a família em uma boia flutuante de ondas artificiais.

Ali, após mais de hora em uma fila em slow motion, mergulhava para tentar esquecer as agruras de uma semana tensa quando fui invadido por um sentido de urgência fora das águas. Olhava para o céu sem nuvens de uma tarde de setembro, quase primavera, e só pensava o que acontecia no mundo enquanto estava off-line. O presidente caiu? A bomba atômica foi detonada? Algum (outro) ídolo morreu? E se algum chefe ou cliente tentou falar comigo nos últimos 20 minutos para avisar que aquele post programado foi ao ar com algum erro de português?

(Faça todas essas perguntas num dia de sol e aprenda com o tio a estragar um feriado).

No mesmo instante, larguei a disputada e tão sonhada boia azul e corri para o armário do vestiário alugado, a contragosto, por 30 reais. Nem ia alugar, na verdade, mas fui convencido por um casal atrás de mim na fila que narrava todas as formas possíveis de se perder o celular nessa vida. As pessoas, explicava o marido, não querem levar toalhas, canga, boné, dinheiro, talão de cheque ou o tênis Nike. Querem o celular.

Imagina? Perder o celular, pensei comigo, não era SÓ perder um ativo pago em dez prestações. Era perder parte da nossa subjetividade, ter exposto a qualquer um nosso diário em forma de aplicativo, nossas fotos intimas, nossas conversas inconfessáveis inbox, nossas senhas gravadas num mesmo documento, nosso rastro de sites acessados recentemente, nossa trajetória percorrida no Waze ou pelo Uber, nossa piada mais infame e nosso comentário mais maldoso sobre terceiros no WhatsApp – nossa vida toda, enfim, que agora cabe em qualquer bolso.

Mas bolsos não são o problema, mesmo que a gente sinta que algo vibra e apita o tempo todo dentro deles. Eu sinto o bolso vibrar mesmo quando o celular está na mão ou a alguns metros, carregando. Andar sem ele é sentir uma fisgada de um membro que já perdi ou temo perder.

O nome disso é nomofobia, me explica um especialista num release, e já rende debates acadêmicos, terapia e até livros infantis. Recorro ao Wikipedia (pelo celular, claro): trata-se da fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores. Surge quando alguém se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incontactável. O termo, recente, é originado nos diminutivos inglês No-Mo, ou No-Mobile, que significa “Sem telemóvel”. (Obrigado português de Portugal).

O neologismo mostra como o medo define nossa sociedade, nossa literatura, nossos verbetes, nossos personagens emblemáticos e nosso tempo – e se tem algo que determina como vivemos é a forma como criamos novos medos e os alimentamos. É a contradição da tecnologia: esperamos que as invenções criem facilidades para problemas que não existiam antes deles, e na bagagem eles trazem não só velocidade e conexão, mas também novos pânicos (ninguém, afinal, tinha fobia de perder celular quando não existia celular). Meu, vocês dirão com razão, isso é muito Black Mirror.

No meu caso, pleno feriado, os medos mais inconfessáveis estavam em um armário guardado a uma única chave presa numa pulseira: perder aquela chave naquele mar artificial era perder a mim mesmo, meu histórico, minha capacidade de voltar para casa; sem os contatos registrados eu seria incapaz de digitar a combinação numérica para algum amigo ou qualquer parente em um orelhão e pedir socorro.

Temia virar estatística de Facebook e imitar alguns amigos que, mal perdem o aparelho, correm para a rede social do tio Zuckemberg (por onde, não se sabe) para dizer: meu celular foi furtado, mensagens por aqui – e ouvir palavras de conforto do tipo “força, amigo”, “o mundo está perdido”, “Deus é maior”.

O único medo maior que a perda física do meu portal para o mundo digital era o medo de ficar incomunicável, de perder alguma novidade, de chegar atrasado a alguma discussão na qual todos já teriam postado memes ou textão.
Bons eram os tempos em que tinha medo apenas das contingências, do envelhecimento, dos monstros do seriado ou da morte. Hoje minha fobia é perceber a iminência do fim e não ter um aparelho nas mãos para registrar o último selfie ou conferir as homenagens derradeiras.

No caminho até o vestiário, pensei se não seria mais racional, ao menos enquanto não inventam sungas com bolsos, comprar na lojinha estrategicamente localizada à entrada do paraíso artificial uma capa de proteção de celular à prova d’água, dessas que ficam presas ao pescoço de uma multidão disposta a perder a viagem mas não o registro – todos, curiosamente, tinham o celular do mesmo modelo, da mesma cor, que o meu, o que me deixou um pouco confuso quanto à questão da subjetividade contida no aparelho.

O medo, ali, nos tornava todos iguais, sem que uns fossem mais iguais que outros.

Topo com todos os previdentes com a coleira no pescoço no meu contrafluxo em direção ao armário. Rodo a chave, abro a gaveta e pronto: o celular segue ali, a salvo. Meu medo de que alguém de fora cavasse um túnel em direção a ele era mera miragem, como minha projeção de descanso no feriado.

Trago e bebo todas as notícias da última hora de uma vez, sem tempo de digerir, com a sensação reconfortante de que, dessa vez, ninguém morreu, caiu ou pediu para sair sem o meu testemunho ou supervisão. Lembro de todas as vezes em que acordo para beber água na madrugada, resolvo dar uma espiada no que está rolando no Facebook, a casa mais vigiada do planeta, e perco o sono. Sigo insone na madrugada e seco em pleno parque aquático – porém, em alerta.

Definitivamente preciso de ajuda.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e CartaCapital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e se mudou para Valinhos, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol enquanto molha as plantas, passeia com a cachorra e coloca Rolling Stones no celular para o filho de 4 anos se entreter. Além deste blog, é colaborador dos sites The Intercept Brasil, Nocaute e do Instituto CPFL.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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