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"No meu tempo tudo era melhor". Será mesmo?

Matheus Pichonelli

09/01/2018 04h00

Alex Ribeiro/Folha Imagem

 

Desde crianças aprendemos a ter vergonha do “nosso tempo”. Bastava se encantar com o refrão de uma música nova para ser prontamente contestado: “é porcaria”, “no meu tempo era rock raiz”, “isso é geração Nutella”, “tudo criado em prédio” – como se alguém tivesse culpa pelo adensamento urbano do século 20 pra cá.

O mesmo interlocutor provavelmente ouviu argumentos parecidos de pais, professores e até do padre quando descobriu, “no seu tempo”, as bandas brasileiras nos anos 80, o rock americano nos 70, os Beatles nos 60 e assim por diante. O “mau gosto” é literalmente uma questão de tempo: o tempo de quem não “viveu” aquilo.

Nunca entendi o que leva alguém com todas (ou boa parte das) funcionalidades biológicas em dia a dizer que o tempo presente não pertence a ele.

O mesmo acontecia no futebol. Nos anos 90, a gente se encantava com Romário, Ronaldinho, Edmundo – e enrolava envergonhados os pôsteres de nossos ídolos cada vez que alguém fazia troça da ignorância de quem não conheceu Rivellino, Tostão, Jairzinho (o Pelé não conta porque…bem, azar de quem não viu). A princípio, nascemos em um tempo em que ninguém mais sabe o que é, de fato, bom.

Mas crescer é tomar o poder e se apropriar das antigas expressões, agora aplicadas sobre os mais novos. “Neymar e do Philipe Coutinho? Edmundo sim era jogador”. “Sério que a referência musical dessa geração é a Anitta e o Pablo Vittar? Onde vamos parar?”.

Aos saudosos de plantão, a má notícia é que esse passado de glórias é ilusório. Não porque não houvesse muita gente boa atuando, cantando, escrevendo, jogando. Mas porque as lembranças são filtradas e traiçoeiras.

Quem tem boa memória deve se lembrar bem de como era o mundo até bem pouco tempo atrás. Este mundo tinha cheiro da nicotina impregnada no corpo, na roupa e na alma toda vez que a gente entrava em ambientes fechados como restaurantes, escritórios e casas noturnas. Contra a fumaça havia apenas os quebra-ventos dos automóveis. Não sei vocês, mas eu prefiro o ar-condicionado.

Só acha um horror essa geração que não sai da internet quem nunca teve o jornal destroçado na porta de casa pela chuva ou pelo cachorro. Quem aprendeu a se comunicar em máquinas de escrever – e já lotou cestas e cestas de lixo com páginas rasgadas – deveria criar um templo de louvor aos santos control Z, control X, control C, control V. A natureza, antiga beldade antes sujeita à nossa vontade, agradece.

Os saudosos deveriam também tentar localizar alguém sem os recursos das mensagens instantâneas do celular, antigamente mediadas por orelhões alimentados por fichas de latão ou cobre usadas para fazer contato com os bares da cidade em busca dos fujões. Hoje nosso conceito de sumiço é uma mensagem visualizada e não respondida.

“Ah, mas hoje em dia molecada não quer saber de nada, com nove anos eu já trabalhava”. É verdade que é difícil argumentar com quem vê o trabalho infantil como uma vantagem destroçada pelo mundo contemporâneo, mas lembrar dos antigos índices de fatalidade, escolaridade ou mesmo expectativa de vida podem ajudar a refrescar a memória.

Se não funcionar, vale fazer uma busca nos programas de TV de cada época. Eu até tenho saudade da infância, mas não sei como sobreviveria, hoje, sem TV a cabo (não mais um artigo de luxo) ou a internet (que não é mais discada). Provavelmente teria de me contentar com o cardápio da época: Banheira do Gugu, Tiazinha, ET e Rodolfo, Chupa Cabra, Xuxa, Dengue, Praga, a Boquinha da Garrafa e as propagandas da Berta Brasil Butik. A evolução natural das espécies determina que ninguém mais precisa assistir ao Faustão para conferir os gols da rodada.

Na semana passada, por causa da última coluna, fui acusado de tudo, menos de cheiroso, por demonstrar minha implicância com a profusão dos tradicionais (e obsoletos) rojões e fogos de artifício em datas festivas. Como nunca ganhei estilingue de presente, e me solidarizo com quem precisou ficar confinado com crianças e animais em pleno Réveillon, me tornei uma espécie de arquétipo dos tempos destroçados pela ditadura do politicamente correto.

Pior é saber que a (velha) moda agora é acompanhar protestos de artistas durante premiações como o Globo de Ouro para lamentar a mobilização contra hábitos arraigados, pouco discutidos e jamais punidos, mais ou menos nessa ordem, quando se fala sobre assédio. O mundo ficou chato, dizem aqueles que jamais tiveram o direito de trabalhar ou andar vias públicas com os corpos expostos e condicionados à violência ou a coação.

Até pouco tempo, tocava nas festas e até nas rádios, aparentemente sem grandes problemas, um exemplo do “rock raiz” em que a moça da música era chamada de piranha e o eu-lírico dizia que “todo homem que sabe o que quer pega o pau pra bater na mulher”.

O que era tema de canção engraçadinha, assunto que ninguém podia colocar a colher, hoje é crime, e um crime debatido, denunciado, vocalizado, inclusive pelas redes.

Cada época da História tem os seus impasses e suas demandas de compreensão. Os sofrimentos contemporâneos estão de alguma forma ligados à velocidade e à ansiedade comuns do mundo hoje, e ainda estamos tentando lidar com isso.

Só não dá para combater o novo com os paus, as pedras e os ressentimentos de quem jamais saiu das cavernas. O mundo mudou. Ninguém precisa ter vergonha disso.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e CartaCapital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e se mudou para Valinhos, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol enquanto molha as plantas, passeia com a cachorra e coloca Rolling Stones no celular para o filho de 4 anos se entreter. Além deste blog, é colaborador dos sites The Intercept Brasil, Nocaute e do Instituto CPFL.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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