menu
Topo
Blog do Pichonelli

Blog do Pichonelli

Categorias

Histórico

'O Touro Ferdinando' ensina o adulto a desconfiar da 'lei do mais forte'

Matheus Pichonelli

2018-01-20T18:04:00

18/01/2018 04h00

 

Se tivessem assistido O Touro Ferdinando na infância, os combatentes das guerra aos longo das últimas décadas provocariam um desfalque considerável nos campos de batalha como os do Vietnã, onde pais e filhos foram destroçados lutando em nome de ninguém sabe o quê. É mais ou menos essa a impressão quando levamos nossos filhos para assistir à animação de Carlos Saldanha.

Entre tanta coisa que a gente lê, ouve e assiste, às vezes é necessária a alegoria de algum animal de feição humana para reconhecer o óbvio – não o ululante, mas o escondido entre tantas camadas, cascas, pó e tinta para a guerra adquiridos para enfrentar a vida adulta.

O filme conta a história de um pequeno touro que, diferentemente dos outros bichos da fazenda onde foi criado, não se interessa por brigas nem sonha em participar de touradas.

O interesse dele são flores. Sim: enquanto os bezerros pequenos se engalfinham para mostrar quem merece ser escolhido pelos donos para encarar o toureiro em Madri, o pequeno Ferdinando passa os dias cheirando e conversando com flores, evitando e mediando conflitos. Era basicamente o bicho grilo do rolê.

Naquele pátio o clima de rivalidade é alimento pela lei do mais forte: quem dá sinal de fraqueza, como compaixão e solidariedade e outros melindres, vai para o abate, ensinam os mais velhos.

Até que, ao ver o pai ser escolhido para o grande dia, o pequeno percebe que aquela lógica (podemos chamar de narrativa?) está cheia de furos. O pai, obviamente, nunca mais volta.

Na luta para fugir daquele destino, entre fugas e retornos, Ferdinando se torna o touro mais forte da parada, e é desafiado o tempo todo pelos colegas para usar a força a seu favor. O tourão, porém, tem um problema grave: ele vê além, desconfia dos louros guardados aos vencedores e percebe que se não se unir aos outros touros em breve estarão todos condenados a morrer no espeto ou na espada.

A essa altura, se o espectador não entendeu que o filme está falando de nós – das nossas relações fratricidas, da conversa furada sobre a lei do mais forte e da competitividade extrema no ambiente profissional, afetivo e social – é melhor se esforçar mesmo para segurar o choro na frente das crianças, outro sinal de fraqueza da sociedade taurina, digo, humana. (Falamos sobre essa lei do mais forte neste texto)

Embebidos por uma ideia descolada de coragem e valentia, os touros são a imagem do cidadão comum cantado certa vez por Belchior: caminham para a morte pensando em vencer na vida.

Como sempre, o mais curioso nessas animações infantis são as piscadelas para o público adulto. Uma delas é quando os touros são observados ao longe, na ponta de um planalto e debaixo de uma grande árvore, como se o diretor nos mostrasse que, por maiores e mais fortes que sejam, eles são praticamente pontinhos na paisagem tomada pelos vales desenhados pela natureza e as barragens erguidas pelos humanos. Ali está um pouco do destino e da contingência humana: não dá pra competir com aquela força. Tamanho e grandeza, portanto, são apenas questões de perspectiva.

Em outras palavras, é mais ou menos isso o que diz o personagem de Toni Servillo em A Grande Beleza, talvez o melhor filme adulto da nossa década, ao rebater, entediado e desiludido, uma roda de conversa em que os amigos fazem uma lista de suas conquistas pessoais: "estamos todos condenados, sejamos um pouco mais gentis".

A experiência humana, assim como os filmes, é a constatação quase óbvia, contada por bezerros, touros e ovelhas, de que viver é mais do que sobreviver. A lei do mais forte não é a lei da coragem. É só lógica do abatedouro.

Não sei em que momento as crianças daquela sessão começam a entender essas nuances. A bem dizer, talvez elas já saibam. Nós, adultos, é que crescemos feito os touros brigões e esquecemos a lição.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.