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Você é um robô ou é um humano? Faça o teste e descubra

Matheus Pichonelli

24/01/2018 04h00

Episódio da série Black Mirror

Episódio da série Black Mirror

 

Até 2030, 15,7 milhões de pessoas serão afetadas pela automação do trabalho no Brasil, segundo reportagem publicada no domingo na Folha de S.Paulo.  Viveremos, em resumo, em um mundo coabitado por robôs.

Isso é muito Black Mirror, dirá o leitor, talvez mais preocupado com humanização dos robôs no futuro do que com a robotização dos humanos no presente.

Isso me lembra um pesadelo recorrente: ao acessar um site, sou reprovado no teste do tipo Captcha de identificação de usuários. "Você é um robô?", me pergunta a máquina, antes de me colocar diante de uma série de perguntas de cunho existencial que não sei responder.

Em cada questão, me pergunto, neste pesadelo, se eu seria, de fato, um robô. E o que me diferencia de um humano-raiz. A lista é mais ou menos assim:

 

Na mesa de jantar, alguém tece algum comentário sobre política. Qual a sua reação?

A – Você aciona os códigos binários para identificar se o conjunto de palavras implica um grande balaio de cores vermelha ou verde-amarelo-patriota. A depender do que determina o programador, sai roendo o pé da mesa com os caninos ou gritando MITO, MITO, MITO.

B – Você responde para a coxa de frango que político é tudo igual e mastiga o interlocutor.

C – Você ouve, reflete e avalia se vale ou não a pena manifestar alguma opinião que já não tenha sido replicada no piloto automático das redes sociais.

Final da Copa de 94. Galvão começa a gritar ACABOOOU, ACABOOOU. Os jogadores rolam pelo gramado e estendem uma faixa com a seguinte mensagem: "Senna, aceleramos juntos. O tetra é nosso". Diante dessas imagens você:

A – FUTEBOL ÓPIO DO POVO ACORDA BRAZEEEEEL.

B – ISSO A GLOBO NÃO MOSTRA.

C – Pode até não gostar de esporte, mas saberá para sempre que aquilo não é só um jogo.

 

Você leva as crianças para assistir "Viva – A Vida é uma Festa" no cinema e:

A – CRIANÇA NO CINEMA, QUE HORROR.

B – Perde a cena final porque precisava atender uma chamada urgente no celular.

C – Depois de cantar, rir, chorar e dançar, você chega em casa, procura fotos dos parentes e amigos esquecidos, dedica o pensamento a eles e se matricula no curso de violão.

O que você sente quando ouve Milton Nascimento cantando "Hello, Goodbye"?

A – Passa para a próxima faixa até encontrar uma batida 100% eletrônica.

B – "Não ouço música pois atrapalha minhas atividades produtivas".

C – Descobre que Deus é brasileiro, tem voz e atende por Bituca.

Se um cachorro te lambe, você:

A – Calcula a infinidade de germes na língua do canino e decide processar os donos e a prefeitura por danos morais e materiais.

B – Chama a polícia.

C – Lambe o cachorro também.

Ao final de Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa, você?

A – "Ai, textão de novo, que preguiça".

B – Reclama que a obra demora demais pra dizer alguma coisa e pede para algum subordinado resumir os highlights no Power Point.

C – Você definitivamente se convence que Deus é brasileiro e tem casa de temporada em Minas Gerais.

Você decide conferir uma exposição em São Paulo. Lá, se depara com os pedaços de roupas abandonadas por jovens e adultos em situação de rua nos arredores daquele prédio. Os fiapos estão espetados em torno de jornais noticiando a Operação Camanducaia, quando autoridades da cidade retiraram, espancaram e "jogaram" meninos de rua no meio da estrada em 1974. Você:

A – Acha exposição lugar de gente pervertida, considera aquela notícia deturpada, desconfia que alguma coisa os jovens fizeram para merecer a surra e passa a classificar o jornal de Foice de S.Paulo.

B – Profere um lamento protocolar e evita pensar no assunto se entupindo com o bolinho de café da lanchonete.

C – Reflete, a partir daqueles retalhos, sobre os padrões de violência vigentes em pleno 2018 e passa os próximos 40 minutos em choque na frente daquela imagem.

 

Respostas: Se você assinalou C em pelo menos uma das alternativas, ufa: você não é um robô. Caso contrário, é melhor falar com o seu programador. Eu falaria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.