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Carnaval do Facebook gerou um novo folião: o sommelier de peito alheio

Matheus Pichonelli

13/02/2018 12h14

Existe um Carnaval real, que durante quatro dias do ano invade as ruas, os salões, as praias. E existe o Carnaval do Facebook, que há pouco mais de uma década leva seus usuários a arremessar, do alto da janela dos algoritmos, baldes e baldes de água fria no chope de quem desfila logo abaixo.

Parece novidade, mas todo ano todo mundo faz tudo sempre igual, e as figuras carimbadas começam a ficar previsíveis.

Os tipos são variados. Tem a Unidos do Não Me Misturo, que descontentes em simplesmente não participar da festa passam os quatro dias, mais a Quarta de Cinzas, imaginando prestar contas da própria inteligência fazendo propaganda gratuita para a Netflix.

Tem o Patriota do Carnaval, que uma vez por ano, sempre na data festiva, recebe no corpo uma entidade cívica disposta a lembrar o povo pagão o quanto aquela energia gasta na folia poderia ser usada para lutar pela educação, pela saúde, contra a corrupção.

Têm também os integrantes da Escola de Samba sem Partido, que são exatamente os mesmos indignados da alienação alheia que colocam a metralhadora verbal para fora quando veem passar na avenida alguma manifestação mais politizada – ou que brinque com as fantasias das suas micaretas fora de época, como os abadás da CBF.

São comuns também os adeptos da Revolução Só Partirá da Avenida, que todo ano prometem fugir de polêmicas (dentro ou fora da folia) mas cuja mão do textão chega a coçar toda vez que algum adversário é achincalhado na fantasia ou alguma imagem fora de contexto parece dizer mais do que mil palavras sobre o governante que deplora.

É preciso destacar sobretudo os Sommeliers da Fantasia Alheia, que em outras épocas do ano são chamados simplesmente de Sommeliers da Vida Alheia. Estes, durante o Carnaval, se organizam basicamente em dois blocos: os que atacam a boa intenção de quem usa identidade alheia como fantasia e os que se queixam da opressão de não poder se fantasiar como quiser sem escapar da patrulha. Ambos estão convictos de que o Brasil só não vai pra frente porque seu lado do espectro político ou é festiva e transante ou gasta energia demais discutindo fantasia.

Mas quem se notabilizou em 2018 foram os Sommeliers do Peito Alheio. Estes costumam minimizar a miséria da própria existência procurando com lupas as rugas, estrias, celulites e até a inclinação gravitacional dos peitos das celebridades do desfile. As lupas, geralmente usadas nas novelas, atingem o topo da produção no feriado de Carnaval, como se encarassem uma maratona da série favorita.

Especialistas apontam uma correlação entre a chacota e a perda da realidade de quem passou os últimos 365 dias no Xvideos e, esquecidos de como é um corpo humano de verdade, já não sabem reconhecer nem o que fazer com um quando está fora da tela touch screen.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e CartaCapital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e se mudou para Valinhos, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol enquanto molha as plantas, passeia com a cachorra e coloca Rolling Stones no celular para o filho de 4 anos se entreter. Além deste blog, é colaborador dos sites The Intercept Brasil, Nocaute e do Instituto CPFL.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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