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Estamos testemunhando o fim do Facebook?

Matheus Pichonelli

27/03/2018 04h00

Foto: Getty Images

Ainda é cedo para dizer se estamos assistindo, desde o escândalo da Cambridge Analytica, ao declínio do Facebook. Embora tenha deletado a conta duas vezes (é só digitar a senha novamente e pronto, tudo volta como antes), eu, pelo menos, não pretendia sair tão cedo da rede social do tio Mark Zuckerberg. Através dela ainda divulgo trabalhos, me conecto com pessoas distantes, recebo notícia de amigos e visualizo as minhas próprias transformações no que chamamos, literalmente, de linha do tempo.

Mas uma coisa é certa: o encanto acabou. O que antes era uma rede que ampliaria as vozes nem sempre, ou quase nunca, ouvidas nas plataformas tradicionais se tornou, com o tempo, uma ilha de hostilidade cercada de bolhas algorítmicas por todos os lados.

Até pouco tempo, achava que o Facebook, ao criar dois botões simples para duas operações humanas básicas (curtir e compartilhar, o que fazemos desde que o mundo é mundo para indicar livros, filmes e receitas), provocaria uma revolução inadiável. Aproximaria diferenças e potencializaria relações horizontalizadas, em que todo mundo dividiria a mesma ferramenta para divulgar ideias, produzir teses, antíteses, sínteses. Não mesmo.

Há algumas semanas sofremos um golpe narcísico ao saber que éramos, na verdade, apenas um banco de dados com um imenso círculo vermelho escrito "público-alvo". Como lemmings, aqueles bichinhos estúpidos do jogo eletrônico facilmente manipuláveis pela seta do mouse, somos o tempo todo manuseados por uma plataforma que ajudou a alavancar medos, pavores, mentiras e a candidatura a presidente de um maluco nos EUA.

Por aqui, sabemos agora que qualquer grupelho de garotos imberbes mal intencionados, mal educados e bem financiados pode fazer o mesmo em vídeos e memes viralizantes. Aliás, já faz.

Mais do que isso, o uso excessivo da ferramenta ajudou a cristalizar uma era de estresse imenso e provavelmente inédito. Minha amiga Safira Lyra, psicóloga e psicanalista há 33 anos, conta que isso tem a ver com a nossa dificuldade de absorver o que introjetamos neste contato compulsivo com tantos fragmentos de informação.

No Facebook, diz ela, somos sucessivamente entupidos. Entupidos e obstruídos, perdemos a capacidade de apreciar nossos espaços vazios e nossos momentos internos de silêncio.

"O que tenho percebido na minha clínica é que existe uma queixa de muitos pacientes em relação ao Facebook como plataforma em que você acessa uma grande quantidade de informações em geral rasas, passionais, dirigidas a determinados públicos e tentando atrair outros de forma mascarada e distorcida", conta.

O resultado, diz a Safira, é a completa banalização da nossa experiência diante da toxidade das informações, falsas ou verdadeiras, a ponto de não saber mais o que é real.

Qual a saída?

Ela defende que precisamos nos tornar mais "andarilhos da realidade": viver mais do lado de fora da virtualidade, observar a temperatura, o trânsito na rua, os acontecimentos nas calçadas, os cafés na padaria. Precisamos de uma desaceleração, enfim, que nos tire a obrigação de ouvir o tempo todo as notificações, corresponder e compartilhar o que, no fundo, são apenas fragmentos de pensamento.

É difícil, lembra ela, já que os eventos, amigos e parceiros de trabalho se comunicam o tempo todo por lá. Mas o preço é muito alto: até chegar nas informações de fato relevantes, passamos por um grande corredor tóxico de Fake News, notícias rasas, passionais, pesquisas indutoras e testes psicológicos que servem para traçar e produzir mais informações sobre nós mesmos.

No fim das contas, o estresse que ela observa é resultado dessa dissociação entre a nossa subjetividade e o que realmente está acontecendo. Ficamos anestesiados, quase impotentes, e nosso corpo perde consistência e escopo porque já não consegue ficar em silêncio nem se conectar profundamente com nossos fluxos de afeto, pensamento ou mesmo nossos livros.

Para ela, existe uma compulsão em passar o olho, demorar um ou dois minutos e nos retirarmos achando que nos alimentamos de conteúdo quando, na verdade, estamos nos alimentando de restos. "Essa plataforma se torna, com o uso frequente, tóxica para a nossa existência."

Alguém ainda discorda?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.