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Esqueça os clichês do Dia dos Namorados: o mundo não tolera a vida a dois

Matheus Pichonelli

12/06/2018 04h00

Cena do filme “Revolutionary Road” (traduzido por aqui como “Foi apenas um sonho”), com os mesmos atores de “Titanic”

Se existisse Tinder em junho de 2004, provavelmente, não teríamos nos conhecido. Eu era de humanas e ela, de biológicas; eu não suportava festas e ela não perdia uma cervejada. Eu nem sequer bebia. Ainda.

Tínhamos poucos amigos em comum e não morávamos na mesma cidade. Não tínhamos a mesma religião e nossas referências não batiam. Ela gostava de música eletrônica e eu (era desses) só respeitava MPB; eu adorava cinema e ela, Carnaval; eu era do centro acadêmico, e ela não falava de política no Orkut, embora entendesse muito mais do que eu de todos os assuntos que eu gostava e fazia questão de exibir. Eu era puro marketing e ela não possuía um traço das minhas inseguranças.

Tinha tudo para dar errado. E, mesmo com tudo diferente, veio meio de repente uma vontade de se ver.

Naquela época, eu estudava, trabalhava e fazia inglês aos sábados de manhã. Chegava na aula com mala pronta, para risos de quem me listava quanta coisa eu desperdiçava num fim de semana enquanto corria para a rodoviária, comia um lanche no caminho, atravessava o estado e voltava, menos de 24 horas depois. Só para a gente se ver.

Com o tempo, eu aprendi a beber, deixei o cabelo crescer e decidi que a vida não era só trabalhar. Sem dinheiro para jantares e velas, os embalos de sábado à noite eram regados a cerveja barata, CDs antigos, DVDs, “Friends” e o olhar de desaprovação amplo, geral e irrestrito de muita gente ao redor.

Nos círculos familiares e de amizade, a pessoa nova, com quem corremos o risco de construir uma vida nova, é quase um corpo estranho que deve ser expelido, mais ou menos como o aspirante do Bope em “Tropa de Elite”.

Não corro risco de errar, acho, se disser que a pressão beira o insuportável se esse “corpo estranho” for mulher e, não, a coisa não melhora quando esta mulher se torna mãe. “Ela é independente demais”, diziam, em tom pejorativo. Falamos disso nos próximos capítulos.

Do namoro à distância até o casamento atravessamos um corredor polonês com camisetas de game over, referências a “dona onça”, intrigas, comentários maldosos e/ou desnecessários e oportunidades para fazer a vida ainda mais longe: experiências fora do país, bolsa para correspondente, voo solo em uma possível sucursal. E, claro, o velho papo de que somos jovens e especiais demais para nos “prender”. Eu estava perto dos 30 anos quando nos casamos.

“Ninguém quer nada com nada” é, provavelmente, a frase mais falada deste século. Em pleno 2018, conheço gente que, perto dos 40, resolveu interromper um relacionamento de anos porque tanta dedicação a outra pessoa estava atravancando seu crescimento profissional. O sujeito deve aguardar agora o convite para se tornar CEO do Google num quarto diariamente arrumado pela mãe.

A verdade é que o mundo que exige, e escamoteia, um ideal de romantismo no Dia dos Namorados é o mesmo que, no resto do ano, exige força, fé e foco nos projetos ligados à criação de super-indivíduos. Pautado por dias especiais, esse ideal é baseado em conquista, algo que pode ser colonizado e destruído depois que fincamos a bandeira e dizemos “meu”.

Veja bem 1: não estou falando de monogamia e exclusividade dos desejos, mas de relações em que um pode se importar e compreender os pesos e imposições históricas que atravessam o corpo e a trajetória do outro.

Veja bem 2: o Tinder é a invenção do século e funciona para diversas fases da vida. Sou a favor, inclusive.

O que estou dizendo é que não vale falar de romantismo para vender produto e constranger quem não vai ganhar presente no 12 de Junho se o conjunto de valores numa sociedade hiper-individualizada é uma trilha aberta para a suposta autonomia afetiva e a solidão. Nesse conjunto, investimos e nos apaixonamos o tempo todo por nós mesmos, e só mergulhamos naquilo que rende retorno. Sabemos de tudo, não cuidamos de ninguém.

“Amar não é um sentimento. É uma decisão”, disse um padre, certa vez, durante o casamento de dois grandes amigos.

Ouvir isso me ajudou a desobstruir uma nuvem de culpas, ansiedades, fantasmas e invejas (sim, dos amigos solteiros) após passar a vida ouvindo Raul Seixas com medo de ser também uma pedra imóvel na praia ao lado de alguém.

A vida a dois não é investimento. Nada ganhamos. Pelo contrário: nos subtraímos. Perdemos hábitos, convicções, crenças. E nos tornamos outra pessoa. Para muitos, isso é assustador – e inaceitável.

Longe do ideal romântico das histórias interrompidas por icebergs no navio, como no filme “Titanic”, a vida que interessa é a vida construída e reconstruída no dia seguinte, e no outro, e no outro. Essa rotina dispensa suspiros entre cabelos despenteados e a mão na testa quando temos febre.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e CartaCapital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e se mudou para Valinhos, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol enquanto molha as plantas, passeia com a cachorra e coloca Rolling Stones no celular para o filho de 4 anos se entreter. Além deste blog, é colaborador dos sites The Intercept Brasil, Nocaute e do Instituto CPFL.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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