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“Imagina se fosse o contrário” virou um mantra da falsa equivalência

Matheus Pichonelli

2019-07-20T18:04:00

19/07/2018 04h00

Reprodução/Twitter

"Imagina se fosse o contrário" é o novo mantra de quem, em tempos de crise de empatia, acredita que basta inverter os papéis em uma frase para acusar uma espécie de preconceito às avessas do interlocutor.

Se você ainda não tropeçou por aí nesta expressão é porque não tem passado tempo suficiente nas redes sociais. Sorte sua.

Dias atrás, o jornalista Gilberto Porcidonio comemorou o resgate dos meninos do time de futebol da caverna na Tailândia e previu: outra vitória seria que o futuro filme sobre eles não fosse estrelado apenas por atores brancos.

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Não demorou para o jornalista, que é negro, ser acusado de preconceito. "Imagina se fosse o contrário", sugeriu um comentarista, convicto de que o exercício o levaria a identificar a discriminação na própria fala.

A resposta é antológica (ele escreveu a mesma frase ao contrário). Os adeptos do tal "imagina se fosse o contrário" são sempre os mesmos que costumam proferir sentenças parecidas sobre um tal "racismo reverso", uma aberração conceitual que só poderia fazer sentido nos debates eletrônicos onde proliferam terraplanistas e coisas do tipo. É uma multidão que se autonomeia doutorando em História através de memes.

O exercício é um clássico da falsa equivalência. Afinal, tudo o que todo mundo quer, ou diz querer, é tratamento igualitário, certo?

Pois o mundo real, longe dos slogans da rede, já é o contrário – e não só na imaginação.

Na Copa da Rússia, por exemplo, repórteres homens tiveram o trabalho interrompido por mulheres durante uma transmissão ou gravação de passagem para a TV, mas apenas quando acontecia o oposto (homens interrompendo ou assediando profissionais mulheres) havia revolta ou discussões. "Por que, se a importunação causava constrangimentos aos dois lados?", pergunta o leitor apressado.

A pressa joga um nevoeiro sobre uma análise básica, e atenta, sobre quem corre mais riscos de violência. Enquanto pesar apenas para um lado, haverá sempre duas medidas – eu, como homem, não sei o que é ter a vida em risco por assédio.

Da mesma forma, reclamar do déficit de representação de minorias em novelas, no cinema, nas direções de empresas ou mesmo na política não significa um "preconceito" contra grupos hegemônicos.

Quando criança, o pugilista Muhammad Ali costumava se perguntar onde estavam os negros nos postos de prestígio da sociedade americana, inclusive nas representações de anjos e santos do céu. "Na cozinha?", ele contou ter se questionado em uma entrevista memorável.

"Ah, mas imagina se fosse o contrário, se uma pessoa branca reclamasse da presença de negros em uma novela". Pareceria racismo, certo? E seria.

Porque ainda contamos nos dedos o espaço ocupado por pessoas negras nesses papeis (para ficar em um exemplo).

E sobretudo porque, quando esses espaços são ocupados por meio de sistemas como as cotas, a turma do "imagina se fosse o contrário" não faz o menor esforço para entender por que durante muito tempo apenas alguns tiveram acesso à universidade. Se fizesse, entenderia que "imaginar o contrário" era imaginar 300 anos de escravidão e outros tantos de exclusão e estatísticas sobre extermínio.

Recentemente, uma marca australiana especializada em xales e lenços de cabeça anunciou que só usaria atores negros em suas propagandas e causou alvoroço nas redes. A galera do "já pensou se fosse o contrário" se rebelou. Sem entrar no mérito sobre a decisão (a justificativa da empresa era alcançar pessoas não representadas pela indústria), a gritaria diz mais sobre o estágio em que estamos quando o tema é representação do que sobre onde deveríamos estar.

E isso só vai de fato mudar quando o exercício de escuta não for sabotado pela intransigência disfarçada de pegadinhas de falsa equivalência ou pelo deboche de quem, conforme o próprio Porcidonio resumiu, costuma chamar reclamação de não branco de "mimimi", humor de não branco de "ditadura do politicamente correto" e sofrimento de não branco de "vitimismo".

A linguagem é a primeira régua para medir nossa estrutura de exclusão e aversão ao diálogo.

Se você quer saber como pode minimizar essa situação, uma dica, talvez, seja evitar passar vergonha defendendo falsas equivalências. E limar do vocabulário expressões do tipo "imagine se fosse o contrário". Expressões como essa revelam antes o descontentamento de quem se agarra ao privilégio do que o suposto desejo de compartilhar ideias e ampliar direitos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.