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Blog do Pichonelli

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“Na volta eu compro” e outras frases dos pais que repetimos com os filhos

Matheus Pichonelli

2008-08-20T18:04:00

08/08/2018 04h00

Getty Images

Meu pai brigou com todos os motorista à frente do nosso carro da última vez que me visitou. "Olha que nó cego? E esse apressado, para onde será que vai?".

Na volta, repetiu, pela enésima vez, a conversa de que não enxerga à noite e precisava ir embora depois do almoço. Não sem antes demonstrar toda a sua habilidade em reclamar da programação da TV sem mudar de canal ou cumprir o roteiro das queixas familiares, futebolísticas e cornetar minha organização financeira (ele é contador, e eu só sei contar até dez). "Tudo isso uma cerveja? Tá vendo por que não sobra dinheiro para comprar sua casa?". "E aquele seu time podre?" "Já foi atrás do seu documento, estrupício?".

Encontrar meu pai é encontrar o menino que fui um dia, quando ele ainda me chamava de "zêle", uma derivação de "zêlefante", ou "Ludwig", referência a Ludwig van Beethoven – não por causa da minha aptidão ao piano, mas à minha dificuldade de audição. Ou quando berrava pela manhã: "Sete horas já, rapaz. Vai perder hora. Moleque mole".

A impressão é reforçada toda vez que ele nota, com um sorriso de orelha a orelha, a cratera que cresce em proporção geométrica sobre minha cabeça. "Tá ficando careca, hein ô!".

É uma prova de fogo à autoestima de qualquer um, mas não consigo mensurar a saudade que sinto dele nos demais dias da semana, quando estamos distantes cerca de 200 quilômetros.

No Dia dos Pais, dois filmes passam na cabeça de quem agora tem filho (s). Um é sobre o filho que ainda somos. Outro sobre os pais que nos tornamos. Com eles vêm as perguntas. Estamos mais pacientes? Mais confiantes?

Nos últimos cinco anos, eu aprendi que, diante dos filhos, é mais importante demonstrar segurança do que TER segurança. Se não tinha, meu pai, em 35 anos, soube fingir bem. Tenho sorte de contar com ele toda vez que atravesso o Rubicão.

E meu filho? Tem ou terá isso comigo? O filme corre, então, em flashback. Com ele, abri concessões à minha própria infância. Travamos discussões intensas sobre, por exemplo, "o que é melhor, chuva ou pastel?". E me reencontro também com o menino que fui um dia quando jogamos futebol, videogame ou assistimos desenho animado.

Ao mesmo tempo, a relação exige vigilância permanente – e a repetição, quem diria, das frases-feitas dos pais que jamais imaginamos repetir.

"Eu digo isso para o seu bem".

"Você não é todo mundo".

"Desce daí já".

"Não vou falar outra vez".

"Se eu for até aí você tá ferrado (a palavra não é bem essa)".

"Não pisa descalço no gelado"

"Dinheiro não nasce em árvore".

"Na volta a gente compra".

"Não me pede mais nada até o Natal".

Quando menos percebemos, nos tornamos aquela pessoa que acusa o nível de bronca quando chama o filho pelo segundo nome ou o nome completo. No meu caso, puxando as vogais até o limite. "Miiiiiiiiiiiiiiiiiiigueeeeeeeel"

As broncas são um simulado dos nossos conflitos para a vida adulta. Amar é também expelir atritos.

Já não falei pra não colocar a mão em inseto? "Eu não coloquei a mão. COLOQUEI A CARA".

Já não falei que não pode pular nas costas das pessoas quando elas dormem? "Eu não pulei, só subi".

Você só sabe falar "não"? "Não".

As perguntas podem ser as mesmas, mas as respostas, não – e é isso o que faz da brincadeira um negócio quase mágico, embora repetitivo, cansativo, sem previsão alguma de recompensa.

Nessas horas, lembro as palavras de John Lennon ao filho Sean: "A vida é o que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos".

É um baita de um clichê, entre tantos que agora usamos a nosso favor. Mas, como diria meu pai, "vai dizer que não é verdade"?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.