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Exigência de 'masculinidade" para PM é monumento à fragilidade do homem

Matheus Pichonelli

15/08/2018 04h00

Foto: Getty Images

Um concurso da Polícia Militar no Paraná causou polêmica ao incluir o item "masculinidade" como um dos critérios para avaliação psicológica dos candidatos.

Segundo o edital, tal critério é resumido pela "capacidade de o indivíduo em não se impressionar com cenas violentas, suportar vulgaridades, não emocionar-se facilmente, tampouco demonstrar interesse em histórias românticas e de amor".

A "masculinidade", ainda de acordo com o edital, deve ser apresentada em um grau maior ou igual a "regular".

No país que acaba de ultrapassar a marca dos 63 mil assassinatos ao ano, uma média de sete mortes violentas por hora, ninguém a essa altura do campeonato imagina que a capacidade de se encantar por histórias românticas e de amor seja exatamente uma arma no combater ao crime.

Mas a associação automática da brutalidade como característica masculina e a fragilidade, como um dom não-masculino, diz muito sobre como chegamos até aqui.

Em lugar de "masculinidade", o que se exige dos candidatos pode ser facilmente trocado por "incapacidade de sentir". Um robô talvez não se impressione com cenas violentas, suporte vulgaridades e não se emocione facilmente.

Humanos, homens e mulheres, podem até representar indiferença diante de tudo isso. Mas uma coisa é representar; outra, engolir sem explodir. (Entre as características exigidas dos candidatos estava também a capacidade de aceitar a sociedade como ela é, como se ser humano não fosse também ser capaz de se indignar, mudar ou querer mudar.)

Essa ideia de "masculinidade" é tão frágil que se acredita preservada quando homens precisam dar entrevistas a repórteres mulheres em cima de um balde para não parecerem mais baixos; quando marcas de desodorante usam títulos como "cabra macho", "lenha" e "pegador" nos rótulos para atrair o público-alvo; quando motorista se gaba de andar sem air-bag no carro para "morrer que nem homem"; ou quando alguém precisa cortar o picolé na faca para não parecer estar fazendo outra coisa em público.

É tanto esforço para não demonstrar fragilidade ou capacidade de afeto que se perde a capacidade de se abrir, falar, elaborar, chorar; perde-se, pela atrofia, o que nos faz humanos.

Seria cômico, não fosse também trágico, e essa tragédia pode ser mensurada no alto índice de agressões de homens contra mulheres toda vez que sua "masculinidade" é supostamente colocada em perigo. Como, por exemplo, quando se é contrariado e é socialmente aceito usar a violência em nome da reputação.

Em nome dessa honra, foram construídas todas as guerras, as domésticas e as delineadoras de fronteiras entre países.

Vamos combinar que o problema do Brasil não é a ausência de brutalidade, nem de quem descumpre nem de quem deveria cuidar pela aplicação da lei.

A exigência no concurso da PM não é "só" uma aberração conceitual sobre o que é masculino e o que é feminino, e como esses conceitos são construídos. É, sobretudo, uma ofensa aos policiais que, não bastasse a missão de abraçar uma profissão com alto nível de estresse e violência, não podem sequer demonstrar estresse ou sofrimento em público.

Todos sabemos, ou deveríamos saber, o que acontece quando se tenta abafar esse nível de estresse e sofrimento para não demonstrar "fraqueza". Um dos maiores problemas hoje na corporação não é a capacidade de se emocionar com histórias românticas. É a depressão e o suicídio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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