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Filme sobre Pablo Escobar é um roteiro para entender a banalidade do mal

Matheus Pichonelli

28/08/2018 04h00

Cena do filme 'Escobar - A Traição

Cena do filme 'Escobar – A Traição", com Javier Bardem e Penélope Cruz

"Amo Pablo, odeio Escobar", diz Virginia Vallejo, personagem interpretada por Penélope Cruz, no filme "Escobar – A traição", que estreou por aqui na quinta-feira, 23 de agosto.

A frase dá a falsa impressão de que, por trás de um grande psicopata, existe, quase sempre, um coração generoso na vida privada: bom pai, bom marido, bom amigo. Balela.

Dirigido por Fernando León de Aranoa, o filme, um dos tantos dedicados ao megatraficante colombiano, é um roteiro para entender com quantos Pablos se constrói uma guerra.

No caso da Colômbia dos anos 1980, um Pablo só foi capaz de emparedar governo, adversários e países vizinhos. Para isso, bastou mobilizar uma rede disposta a matar e morrer em um caldeirão de desesperança, descrença e revolta.

Fez tudo isso no grito? Não. Pelo convencimento, com doses de carisma, dinheiro para corromper grupos políticos e palavras que, à primeira vista, pareciam pílulas de sabedoria.

No filme, o que mais assusta é que em nenhum momento sentimos raiva do personagem interpretado por Javier Bardem. Da mesma forma que ele convence lideranças criminosas dispersas a unirem forças, formando em torno dele um poderoso cartel, o público parece se encantar com o tipo que, no círculo mais próximo, era chamado de "patrón", uma forma carinhosa de agradecer a proteção e os serviços prestados, como segurança e remuneração por pequenos serviços, um misto de assistencialismo e coação.

Não eram poucos os que se encantavam por aquela figura despojada, despenteada, com a camisa aberta e a pança à mostra. Entre Pablo e Escobar havia um "mito", e todos ao seu redor pareciam fascinados demais para perceber que aquelas ideias levariam um país inteiro a sangrar ainda mais.

Esse lado paizão do traficante é contado por Vallejo, jornalista e apresentadora de TV que o "patrón" usou como troféu para apresentar aos amigos e à alta sociedade colombiana. Ela dizia não querer saber de onde vinha o dinheiro do amante, mas, sim, como ele gastava a sua fortuna. Joias, roupas e viagens eram a argamassa daquele amor.

Em casa, o pai que ensinava o filho sobre os perigos da cocaína era o mesmo que se aproveitava da pobreza de seu reduto para convencer jovens a matar ou morrer em troca de droga, dinheiro ou arma. Era Pablo quando todos obedeciam seus caprichos; e Escobar, quando contrariado – o que significava a pena de morte, das mais cruéis, para quem desobedecia.

O país banhado em sangue que ele deixou aos filhos é só uma das muitas heranças que desmentem a falsa dicotomia entre ser um bom sujeito na vida privada e um psicopata de casa para fora.

Na plateia, ficamos na dúvida se o que nos choca mais é saber da veracidade das cenas de extermínio de uma guerra sem heróis ou saber que nada disso se encerrou, nem na Colômbia nem em lugar algum, quando o megatraficante foi finalmente eliminado.

Por aqui, lembramos de Marielle Franco, Anderson Gomes, Dorothy Stang, José Claudio Ribeiro da Silva, Maria do Espírito Santo da Silva, Chico Mendes e tantos outros que pagaram o preço por lutar do lado oposto da força da grana que ergue e destrói coisas belas.

E pensamos como é fácil, em tempos de raiva e descrença, cair no canto das sereias que prometem solucionar nossos medos mais primitivos unindo nossas revoltas contra um inimigo comum.

No fim da Segunda Guerra, ao acompanhar o julgamento de um burocrata alemão acusado de exterminar judeus, a filósofa Hannah Arendt ficou impressionada com a fisionomia do réu, Otto Eichmann. Ele não parecia um monstro, e, sim, um cidadão ordinário que tinha como justificativa para as atrocidades um único argumento: apenas cumpriu ordens. Nascia ali a expressão "banalidade do mal".

Esse mal é disperso e está presente nas melhores famílias. Na história da humanidade, há sempre alguém mais esperto tentando canalizar essa "banalidade" a seu favor. Se souber discursar em cima de um caixote, consegue até convencer uma multidão de que a terra é plana. Ou que a vida só vale a pena quando colocada em risco por alguém ou uma ideia.

Resistir é saber o que nos diferencia entre humanos ou meros cumpridores de ordens.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.