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Meu filho descobriu os irmãos Luccas e Felipe Neto e não sei como lidar

Matheus Pichonelli

12/09/2018 04h00

Luccas Neto, no vídeo em que mergulhou em uma banheira de Nutella. Foto: Reprodução

Achei que esse dia não chegaria.

Foi difícil aceitar. A gente nunca pensa que essas coisas vão acontecer com a gente.

Mas acontecem.

Um dia, nossos filhos pegam nossos celulares, olham para o espelho e dizem: "Se você gostou desse vídeo, deixe seu comentário e inscreva-se no canal".

No outro, colocam o boné para trás e começam a berrar.

Quando você percebe, estão pedindo para irem ao SHOW do Luccas Neto, a versão infantil e histriônica do irmão Felipe Neto, fenômenos do YouTube que a ciência ainda tenta entender o segredo do sucesso.

No começo, até tentei assistir para saber como uma criança de cinco anos consegue ficar pirada naquela gritaria em loop infinito. Mas acreditem: os decibéis são ininteligíveis para pessoas com mais de 15 anos. Você tenta ouvir o que eles estão dizendo, mas é em vão.

Aparentemente o moço de barba na cara e boné para trás ganha a vida falando como criança numa versão sem filtro e aos berros das antigas Olimpíadas do Faustão. Num dia, ele promove uma luta de cotonete gigante na ponte da piscina. No outro, o cenário serve para a batalha de boias protetoras. No outro, enche uma banheira INTEIRA de Nutella e MERGULHA.

Se um dia me perguntarem o que é o inferno eu respondo de pronto: é um filho entediado no banco de trás do carro ouvindo Luccas Neto no celular.

O amigo internauta pode perguntar: mas por que você dá um celular para uma criança? Porque só tem algo pior do que o inferno: é uma criança insistindo para usar o celular.

Se você, pai e mãe da tradicional família brasileira, passa por problemas semelhantes, procure ajuda. Ou me abracem. Se os problemas persistirem, tenham em mente que:

1-) Como toda moda entre crianças, essa também será passageira;

2-) Nós já tivemos essa idade e já chocamos nossos pais com porcarias similares;

3-) É impossível criar filhos em uma redoma;

4-) Eles são seres independentes sobre os quais teremos cada vez menos controle, e isso não necessariamente é ruim.

Tento me apoiar nesses quatro pilares para não pegar a gola do especialista em criação do filho alheio que jurou ser tiro e queda ouvir música clássica durante a gestação e nos primeiros dias de nascimento.

Pois, apesar de todo o aparato montado ao redor do berço, e do esforço em falar baixo para transmitir calma e segurança, meu filho já nasceu dando pirueta. Encheu a casa de orgulho quando jurou amar os Beatles, os Rolling Stones e o nosso time do coração. Rendeu vídeos de pais corujas no Instagram quando cantava "I can't get no satisfaction" pela casa. Naquele ritmo, imaginava, com 8 anos ele estaria traduzindo o "Grande Sertão: Veredas" para mandarim.

Até então, o celular era um aliado. Com ele, fazíamos uma espécie de curadoria de boa música, melhores lances da rodada e programas infantis sofisticados, como a desconstruída Peppa Pig (sdds).

Mas nossa influência sobre eles vai até um limite. Até o amiguinho da escola começar a falar dos YouTubers da moda. Ou os vizinhos da rua começarem a cantar em coro no pula-pula: "Ooooooolha a explosão".

Um filho numa redoma é um filho sem amigos. Cortar o embalo é cortar o assunto em comum que eles terão daqui em diante. E, é bom ter sempre em mente, nós não temos o monopólio do bom gosto. Se sobrevivemos ao Xou da Xuxa, à Banheira do Gugu e aos Mamonas Assassinas, eles também podem – que eu saiba, ninguém depois dos 15 saiu pelas ruas vestidos de Dengue e Praga, e isso é um alento.

O fato é que, no auge da desolação, entendi um pouco mais os meus pais e avós quando viram um também histriônico Serginho Malandro, com o mesmo boné para trás, e diziam "essa juventude está perdida".

No fundo, nossa birra não é com este ou aquele YouTuber, mas com o fato de alguém fazer a vida e conversar com nossos filhos em uma linguagem que não dominamos. No caso, os meninos que gravam, falam, repercutem, editam e influenciam uma multidão com uma ferramenta que simplesmente não existia quando éramos crianças.

Em outras palavras: o que nos assusta é o "novo", e ele é um indício irrefreável de que o mundo como conhecemos é algo que se perdeu, algo se quebrou, está se quebrando – como diria Caetano Veloso, que terá nascido há 106 anos quando meu filho tiver a minha idade.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.