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Por que estamos rindo da ministra que viu Jesus na goiabeira?

Matheus Pichonelli

2020-12-20T18:04:00

20/12/2018 04h00

Foto: Rafael Carvalho/Divulgação/Governo de transição

Escolhida para comandar o Ministério das Mulheres, Família e Direitos Humanos do governo Bolsonaro, Damares Alves virou chacota em memes e textões de Facebook após viralizar um vídeo em que dizia ter visto Jesus em um pé de goiaba.

Fora de contexto, o vídeo serviu como munição à tese de que a equipe do futuro presidente é composta por gente despreparada para o posto. Eu fui um dos que fizeram coro à artilharia: o futuro governo, escrevi em tom de deboche, acabava de instituir a malucocracia como estratégia.

Motivos não faltam para chegar a essa conclusão (as teses do novo chanceler, por exemplo, são verdadeiras pérolas), mas a história de Jesus na goiabeira, ainda que para muita gente soe absurda, não é um deles.

No relato, feito pela futura ministra durante um culto, e não em uma fala oficial como ministra de Estado, ela contava como desistiu do suicídio após sofrer uma série de abusos na infância. A aparição, segundo seu testemunho, era o sinal para seguir a vida e se dedicar a atender vítimas de crimes como os sofridos por ela.

Aqui, um parêntesis: é possível contestar a forma como ela se dedica à causa. Desde o anúncio de sua escolha, não faltam razões para assombros com propostas rascunhadas até aqui sobre questões delicadas, como uma possível bolsa estupro para vítimas de abuso. Ou mesmo a declaração de que é hora de a igreja governar (o que leva à pergunta: qual igreja?).

Mas uma coisa é se posicionar em relação às ideias da ministra ou qualquer outra autoridade pública. Outra, bem diferente, é desqualificar alguém em razão de sua crença.

Como escreveu a jornalista e ativista Ana Claudia Mielke, não são poucos os casos de pessoas, especialmente mulheres, que transfiguram abusos sexuais sofridos na infância em experiências de ordem sobrenaturais –está na literatura psicanalítica e em relatos pela vida. "Tudo deixa de ser piada a partir daí", concluiu ela.

Pois, após ser bombardeada durante uma semana, a ministra decidiu se abrir e contar sua história em entrevista à repórter Camila Brandalise, da Universa.

"Era tanta dor e sofrimento que resolvi interromper minha vida. Peguei veneno de rato e subi no pé de goiaba, onde ia para chorar. Ia lá para não ser vista. Quando subi com o veneno, vi meu amigo imaginário, o personagem que é Jesus, de barba, roupa branca. O saquinho caiu da minha mão e desisti. Estão me ridicularizando por ter falado isso, mas se vocês não acreditam, problema é de vocês. Tem criança que vê duende, que fala com fadas. Eu vi Jesus", contou.

Fazer troça sobre o relato, depois de conhecer a história completa, não é só insensibilidade. É prova também de incapacidade de lidar com a fé e o drama de quem discordamos.

Neste terreno, todos temos uma opinião sobre crenças e religião, sobretudo quando elas escapam do que compreendemos como A razão.

Se há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia, imagina o que não há depois que a vista não alcança. Por isso, quando me questionam sobre se acredito ou não em coisas sobrenaturais, recorro a Glória Pires para dizer que NÃO SOU CAPAZ DE OPINAR.

Se valesse apenas a razão, as religiões não estavam aí para contar história há mais de 2000 anos –apenas no caso do cristianismo– e lugares sagrados como Fátima, em Portugal, não seriam destinos de tantos fieis por causa, veja só, do relato de três crianças sobre uma aparição.

A diferença na forma como legitimamos um fenômeno e outro pode ser explicada por um recorte de classe que ninguém suporta admitir.

O que não significa que não devamos, sempre que possível, questionar os responsáveis por manipular a nossa fé ou a maneira como nossas convicções religiosas interferem na nossa visão sobre fatos e ou as diferentes formas de interpretar o mundo. O Brasil de 2018, um país de gurus e autoridades notadamente masculinas (e abusivas), está aí para esfregar isso na nossa cara.

Desqualificar as vítimas que acreditaram demais e os dramas de quem encontrou, na fé, uma razão para viver, não é exatamente a melhor receita para tirar de cena o discurso de intolerância que tentamos combater.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.