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Dirigente do DEM: "Se eu chamar Benedita de macaca e Jean de viado?"

Matheus Pichonelli

2029-01-20T19:17:12

29/01/2019 17h12

"Você, como jornalista, sabe interpretar texto?"

A pergunta foi feita a mim pelo presidente do diretório municipal do DEM em Niterói (RJ), Alexandre Raposo. Horas antes, em sua página no Facebook, ele provocou revolta pelas redes sociais ao escrever:

"Esquerdistas chamam o presidente de Bozo (palhaço). Se eu chamar Benedita de macaca? Jean Wyllys de viado? Serei o quê?".

Raposo, que em sua página se descreve como cristão, protestante, conservador, pró-vida e a favor da família, atribui o alvoroço à polarização política do país.

Como forma de combater essa polarização, usa sua página para atacar a "esquerda suja e baixa" especializada em "vitimismo e desonestidade intelectual" e espalhar notícias sobre um suposto elo entre células terroristas venezuelanas e o rompimento da barragem em Brumadinho. Em sua foto de capa, uma piscadela ao novo presidente: "Niterói acima de tudo, Deus acima de todos".

A ideia da postagem sobre Jean Wyllys e Benedita da Silva, explicou, era provocar uma reflexão sobre a intolerância – algo, segundo ele, alimentado toda vez que alguém faz alusão a um palhaço toda vez que fala sobre o presidente. "Isso só aumenta o ódio."

No Brasil, um negro tem 2,5 vezes mais chance de ser morto de forma violenta e intencional no Brasil do que um não negro. A população preta e parda responde por 71,5% das vítimas de homicídio do país. Em 2017, a cada 19 horas uma pessoa LGBT foi assassinada no país.

Em relação a palhaços, não há estatísticas confiáveis, mas a correlação, para o vereador, parece fazer sentido.

"Imagina se eu tivesse a irracionalidade de chamar alguém de macaco ou viado pejorativamente, como os militantes de esquerda costumam fazer? O post era sobre isso, um texto na condicional", explicou.

"Fizeram um alarde com uma postagem clara para quem sabe ler. Um barulho louco. Não sou racista. Sou cristão, tenho amigos negros. Se eu tivesse chamado alguém de macaco, aí sim teria cometido crime, uma injuria racial", disse.

Questionado, Raposo fez elogios a Benedita da Silva, ex-governadora do Rio e evangélica, como ele. "Não tenho nada contra ela, nada que desabone a conduta dela. Só exemplifiquei".

Segundo Raposo, sua denominação religiosa, a Assembleia de Deus, é uma das mais inclusivas que existe.

Sobre Jean Wyllys, que desistiu do mandato como deputado e deixou o país após sofrer ameaças de morte, defendeu que os agressores sejam investigados e intimados. "Sou contra violência contra quem quer que seja."

Afirma, porém, que recebe ameaças de todos os tipos em razão de sua militância política e nem por isso "fez estardalhaço".

Raposo diz ser vítima de uma "ditadura de opinião" promovida por especialistas em trampolim eleitoral. "Infelizmente tem gente que, na pátria educadora, não sabe interpretar texto."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.