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No ensino domiciliar, o que cai na prova: "Quem é o lindinho da mamãe?"

Matheus Pichonelli

09/02/2019 04h00

Foto: Getty Images

Com a possibilidade de serem filmados, processados, acusados de doutrinação e sem perspectiva de, um dia, ganharem um salário justo ou se aposentarem, os professores acabam de ganhar uma concorrência de peso e ofício: papai e mamãe.

Isso porque o governo Bolsonaro pretende editar, ainda em fevereiro, uma Medida Provisória que garantirá aos pais o poder de gerenciar o aprendizado dos filhos em casa – o chamado "homeschooling", ou ensino domiciliar.

Segundo a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, "o pai que senta com o aluno duas, três horas por dia pode estar aplicando mais conteúdo que a escola durante quatro, cinco horas por dia".

Não há motivos para desconfiar do embasamento científico no argumento de uma ministra que já denunciou os países nórdicos por iniciarem suas crianças à masturbação desde o berço e que alertou para a prática da zoofilia entre turistas em hotéis de fachada. Mas um exercício de imaginação é necessário. Afinal, como seria a aplicação de provas made in papai e mamãe?

Consultei as fontes (no caso, papai e mamãe) e realizamos um simulado sobre como seria a prova do jovem Matheus se a ministra estivesse dando ordens por aí em 1992. Vejamos:

-Quem é o lindinho da mamãe?

R: Eu.

-O que a gente ganha quando anda descalço no gelado?

R: Tosse.

-Que palavra devemos evitar em casa de modo a não atrair coisa ruim?

R: Desgraça.

-Por que não devemos fazer a barba depois do almoço?

R: Porque vira o olho.

-E por que não podemos correr ou nadar depois da feijoada?

R: Porque vira o bucho.

-O que acontece com o papai se você aparecer em casa com a camisa do Corinthians?

R: Morre.

-Por que não devemos abrir o armário secreto do quarto do papai e da mamãe?

R: Porque o monstro corta o braço de criança curiosa.

-Qual o único dia da semana que podemos comprar gibi?

R: Domingo depois da missa.

-Como tira verruga do corpo?

-Passa bacon na verruga e joga o bacon no formigueiro.

-Se papai tem duas laranjas e você e seus irmãos comeram as duas, quanto dinheiro sobrou para comprar brinquedos no Natal?

R: Nenhum.

-Qual a iguaria adequada para dar sustança a criança que não engorda?

R: Ovo de pata cru com leite condensado.

-De onde vêm os bebês?

R: Da plantação de repolho.

-Por que todo mundo vai à festa na chácara do Zezinho, menos você?

R: Porque não sou todo mundo.

-Qual o verdadeiro nome do demônio?

R: Funk.

Em casa, não seria difícil gabaritar as perguntas, seja para seguir o ano letivo, seja para ganhar gibi (ou sorvete) no fim de semana.

Difícil seria aplicar tanto conhecimento para acessar a universidade, um espaço onde o próprio ministro da Educação disse que deveria ser reservado a uma pequena elite.

E você, o que prefere para os seus filhos? O controle da porta ou a chave para o mundo?

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.