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Ela reuniu adotados no Twitter: "Tinha a sensação de que seria trocada"

Matheus Pichonelli

14/03/2019 04h00

A jornalista Larissa Alves. Foto: arquivo pessoal

 

"Alô, rede do Twitter: eu não tenho muito alcance, mas me ajudem com algo? Eu sou adotada e estou procurando outras pessoas adotadas para conversar. Se você é ou conhece alguém, pede para entrar em contato comigo".

Três dias, 140 comentários, 1,5 mil retuítes e muitas mensagens diretas depois, a jornalista e estudante de direito Larissa Alves, de 25 anos, finalmente pode conversar com quem entendia exatamente o que estava passando.

Tudo começou após enfrentar uma crise de pânico, no fim do ano passado. Pouco depois, ela conheceu a amiga de uma amiga que cursa psicologia, também é adotada e tem feito pesquisas sobre o tema. "Essa conversa juntou os pontinhos sobre mim e certos sentimentos meus", diz Larissa.

Até então, ela nunca tinha conversado com outra pessoa adotada. "Não profundamente", conta. "Geralmente a conversa era: 'você também? Eu também. Que legal'."

Larissa soube que havia sido adotada aos quatro anos e cresceu, segundo ela, bem resolvida em relação a isso, sem culpa ou mágoa aparentes, nem com os pais biológicos, nem com os adotivos.

"Quando as pessoas não aparentam ter nenhum problema, ninguém pensa em terapia. Estou sempre atrás de autoconhecimento, de espiritualidade. Mas de certa maneira tratava as coisas por cima, não ia na origem do negócio. Como fui adotada bebê, não sabia que tinha uma questão emocional relacionada a isso. Externamente, eu era muito bem resolvida com minha adoção."

A crise de ansiedade foi um estalo para entender melhor a questão — e algumas situações que a incomodavam, como a forma com que a adoção é representada pelo senso comum, mediada sempre por uma relação de "eterna caridade" e gratidão e nunca por conflitos normais entre pais e filhos.

Quando pesquisava sobre o assunto, porém, só encontrava informações sobre pais adotivos ou estudos que reforçavam o estereótipo do "adotado rebelde".

"Passei minha vida falando de adoção, fui entrevistada várias vezes, mas sempre falava com os pais que queriam adotar. Nunca tive uma troca com outros adotados."

Foi então que ela decidiu fazer terapia e criar uma rede de acolhimento e troca de experiências com outras pessoas adotadas.

Após o tuíte, Larissa percebeu que muitas pessoas vivenciam ou vivenciaram situações semelhantes às dela, como sentimento de abandono, problemas de relacionamento, distúrbio alimentar, perfeccionismo – e a permanente sensação de que em algum momento colocaria tudo a perder, ou seria trocada, pelas amigas da adolescência, por alguém "mais interessante". Ela, no entanto, tinha medo de falar sobre tudo isso.

"Foi a primeira vez na vida que tive a sensação de que alguém sabia o que eu sentia, sem me julgar como ingrata ou como mimimi de quem passa por um 'sofrimento privilegiado'", diz.

Como ela, a maioria das pessoas que a procuraram nunca tinha conversado com nenhuma outra pessoa adotada. Muitas relataram desejo de fazer alguma coisa e nunca fizeram. Algumas, inclusive, tinham vontade de criar um canal no YouTube ou reunir pessoas em grupos de WhatsApp.

Entre as pessoas que responderam ao post estava até mesmo o juiz de uma vara da infância e juventude que nunca havia pensado nas questões levantadas por ela.

"Em geral, adotados não falam com adotados, não são acolhidos, não sabem que sofrem e chegam à vida adulta sem entender que o que sentem é um reflexo emocional que eles não têm controle, que precisa ser tratado e vem desde muito novinho", diz. "Racionalmente você pode entender a adoção, mas emocionalmente existem memórias uterinas dos primeiros dias de vida. O bebê quer carinho, e fiquei uma semana sozinha no hospital. Achava que isso não tinha impactos na minha vida, mas tinha."

A ideia, agora, é expandir essa rede, e fazer com que pessoas que passam por situações parecidas tenham um canal de interação e possam também falar sobre si. "O simples fato de você crescer sabendo que você pode vir a ter um gatilho já é muito importante. Eu nunca soube. Agora sinto que posso finalmente reescrever minha história".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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