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Damares transforma até Frozen em "coisa do cão" para ganhar conservadores

Universa

12/05/2019 14h33

"O cão está muito bem articulado e nós estamos alienados". Assim Damares Alves, titular do Ministério das Mulheres, Família e Direitos Humanos, demonstra seu talento como crítica de cinema ao falar sobre o filme "Frozen – Uma Aventura Congelante". Na cabeça da ministra, a protagonista da história "vai acordar a Bela Adormecida com um beijo gay".

Alguém que vive em 2019, com a cabeça nas grandes questões deste século, poderia se perguntar: "e daí?".

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Acontece que, de um tempo para cá, um vórtice nas ideias de espaço e tempo se abriu para as cabeças pensantes de todas as eras –a do gelo e da idade média entre elas.

Pai de uma criança de cinco anos, lembro quando ouvi outros pais falarem sobre a produção da Disney para apresentar ao meu filho.

A Areti, amiga do trabalho e mãe de um garoto cinco anos mais velho, me explicava a sinopse: era a história de uma princesa de um reino congelado que só consegue quebrar a maldição do gelo quando encontra o seu grande amor.

Naquele momento, ela cortava a fala com um engasgo e uma lágrima que escapava dos olhos: "Aí ela descobre que o grande amor dela é a irmã".

Ué, e o príncipe encantado? E a dependência da boa vontade do guerreiro que passaria por aquele reino levando a coragem e a salvação?

Nada disso.

Foi mais ou menos naquela época que comecei a me interessar pelos desenhos que faziam sucesso com as crianças do novo século. Até então, a última animação que havia assistido era, provavelmente, "A Bela e a Fera" ou "Bernardo e Bianca", sucessos dos anos 90.

Já adulto, com algumas resenhas de filmes para adultos nas costas, e sem saber exatamente que mundo apresentaria ao meu filho pelos desenhos ou histórias em quadrinhos, transitava com assombro entre clássicos da literatura infantil, como "A Princesa e a Ervilha", que algum parente nos presenteara.

Alguém conhece essa pérola? E a história de um príncipe mimado pela mamãe e orientado a descobrir quem é sua verdadeira princesa pelo grau de "sensibilidade" da pretendente. Um dia aparece uma candidata ao matrimônio em sua casa e dorme entre os melhores colchões e lençóis, sob os quais a rainha esconde uma ervilha.

No dia seguinte, a princesa acorda moída dizendo que havia dormido entre pedras, e só então a família real percebe que se tratava de uma princesa ideal ao filho, dada a sensibilidade em notar a presença de uma ervilha entre a roupa de cama.

Foi esse tipo de lição que mediou a moral dos enredos infantis durante séculos, e que só ajudava na manutenção de hierarquias historicamente consagradas. O prêmio dos finais felizes, nessas histórias, era quase sempre a tiraria do lar: "parabéns, seu príncipe te salvou; agora você está presa para sempre".

Daí meu interesse nas histórias que de alguma forma ajudavam a desvirtuar essa ideia torta de final feliz.

A originalidade de "Frozen" se baseava no fato de que as personagens femininas constroem a própria história sem precisar de príncipe algum –pelo contrário, eles só ajudavam na trama quando não atrapalhavam.

A independência da protagonista, cujo grande amor ao fim da história (desculpa pelo spoiler) é a irmã, levantou na época uma série de suposições sobre a sua sexualidade.

"E daí?", diria novamente os espectadores e espectadoras minimamente conectados com o mundo contemporâneo.

Para a ministra, para quem as cores azul e rosa definem não só uma identidade, mas um lugar no mundo, essa conversa não se refere apenas à representação de uma personagem dona de si, do próprio destino e do seu reino: é uma estratégia do demônio para conquistar corações e mentes.

A mesma paranoia da ministra já desenhou uma noção particular de prioridades ao denunciar a zoofilia que, segundo ela, seria marca registrada nos hotéis fazenda no país, e os hábitos pouco heterodoxos de holandeses que iniciam seus filhos a masturbação desde a primeira infância.

Damares, vale lembrar, representa metade da cota feminina de um ministério dominado por figuras masculinas: 22 homens e duas mulheres, para ser mais exato.

Apesar da sua posição, seu discurso é todo construído para o agrado do chefe que, em ato falho, já demonstrou todo seu apreço pelo seu ministério: nenhum.

Em sua defesa, Damares não é nem de longe a única autoridade deste governo a anunciar guerras particulares contra moinhos de vento, como fazia um certo Dom Quixote em sua luta contra uma realidade que já não reconhecia.

O próprio presidente Jair Bolsonaro, na semana passada, declarou guerra aos radares de rodovias federais para "devolver" ao brasileiro de bem o prazer de dirigir –decerto, a prioridade das prioridades de um país que em breve não terá dinheiro para pesquisa.

Em sua conta no Instagram, Damares diz que sua análise sobre o filme da Disney ocorreu há quatro anos, quando foi uma das convidadas a falar em uma "Palestra em Defesa da Família".

Quatro anos depois, ela reitera que sua crítica se refere à "tentativa de interferência dos ideólogos de gênero na identidade de nossas crianças".

No país onde oito em cada dez casos de feminicídio até o fim de abril deste ano ocorreram dentro de casa, e 26 dos 37 casos tinham autoria conhecida, a maior autoridade no assunto prefere atribuir todos os nossos males à suposta doutrinação. Para ela, a mensagem demoníaca está embutida em uma personagem de desenho animado com cabelos brancos cujo maior pecado é sair cantando "livre estou, livre estou".

A pergunta que fica é: será que a ministra, responsável por uma pasta tão sensível, realmente acredita no que pregava há quatro anos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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