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Professoras relatam medo e cuidado com 'patrulha ideológica' nas escolas

Matheus Pichonelli

13/05/2019 04h00

No fim de abril, Jair Bolsonaro compartilhou, em suas redes sociais, o vídeo de uma discussão entre uma estudante e uma professora em sala de aula. A jovem acusava a educadora de usar 25 minutos da lição para falar de política e tecer críticas a Olavo de Carvalho, espécie de oráculo do governo.

A estudante era filiada ao PSL, partido do presidente.

A exposição levantou uma série de debates sobre a tensão vivenciada por professores diante da possibilidade de serem gravados ou terem as falas distorcidas e divulgadas pelas redes.

Sabemos que a sala de aula é um ambiente de confronto de ideias. De um tempo pra cá, porém, virou um terreno minado, sobretudo em aulas de história, literatura, filosofia e sociologia, que visam a estimular o pensamento crítico – muitas vezes confundido com "doutrinação".

Na última semana, conversei com quatro amigas professoras*, de diferentes localidades, para sentir o clima no ambiente escolar após a execração pública de colegas intimidados por câmeras, discursos e, agora, pelo endosso do presidente.

A amostragem, claro, não tem valor científico, mas chama a atenção pela unanimidade: todas dizem ter passado por algum tipo de hostilidade, de pais ou alunos, nos últimos meses.

Uma delas, professora de história, conta que já teve sintomas como crises de choro e momentos de não querer sair da cama. "Já fiquei verde de nervoso, com ânsia", conta.

Ela já foi acusada de ensinar "ideologia de gênero" para a sexta série porque abordou a questão das mulheres na Grécia Antiga. Na apostila havia imagens dos gregos com os corpos nus.

"Nem entrei em detalhes, mas a escola recebeu o telefonema de uma mãe dizendo que eu estava falando de ideologia de gênero. Tenho dez anos nessa escola e foi a primeira vez que passei por algo assim. A escola me pressionou, mas ficou do meu lado. Até quando?"

A mesma professora relata que já recebeu mensagem no celular de uma mãe meia hora após o fim da aula. "Ela me questionava sobre o que eu falei de homofobia, machismo e racismo na época das eleições. Não eram temas da aula, mas todos me perguntavam, e não tenho como falar de atualidades sem falar em política", diz.

Ela precisou explicar para a mãe que aquela abordagem era inadequada e que era melhor formalizar um pedido de reunião na escola, mas foi ignorada.

No Rio, uma professora de sociologia da rede pública conta que ela e os colegas têm tomado medidas de precaução desde 2016, quando o movimento Escola Sem Partido começou a ganhar força. Um dos cuidados foi evitar adicionar alunos nas redes sociais.

Ela e os colegas ficaram acuados depois que os pais começaram a aparecer na escola com camisetas do tipo "eu sou contra a ideologia de gênero". Desde então, conta ela, os professores passaram a fazer reuniões sempre acompanhados, como forma de se resguardarem.

Além disso, eles construíram coletivamente um discurso diante da resistência de determinados conteúdos e abordagens –deixando claro, por exemplo, que para criticar determinados autores é preciso, antes de tudo, conhecê-los, e explicando que gênero e sexo não são a mesma coisa.

"Os alunos gostam de se sentir ouvidos. A contestação é um ato de rebeldia. Eu deixo claro que eles têm o direito de ter a opinião que quiserem, mas que vou cobrar na prova conteúdos objetivos."

Ela cita como exemplo o dia em que um aluno –"muito, muito inteligente", segundo ela– disse, em um debate sobre internação compulsória, que, por ele, mandava matar todo mundo. "A sala ficou indignada e eu falei que ele tinha o direito de falar. Aí fui contra-argumentando. No final ele falou 'professora, eu queria pedir desculpas, eu me equivoquei'. É um menino de 14 anos, sabe? Eles ainda estão abertos."

Segundo ela, muitos pais não conhecem os filhos, não param para ouvi-los e ficam "bolados" quando descobrem que na escola eles têm liberdade para ser quem eles realmente são. "Eu tenho 250 alunos eu vou ficar me preocupando quem o aluno tá beijando?", questiona.

Outra amiga, professora de redação em uma escola particular no interior paulista, diz que seus alunos não podem tirar o celular da mochila onde ela trabalha. "Mas eu confesso que penso um pouco na forma de falar, de fazer a crítica, para não ser mal interpretada. Tenho medo de que minha fala seja distorcida", diz.

Ela afirma que não chegou a desenvolver nenhum distúrbio psicológico grave, mas que pensa, às vezes, se vale a pena ser professora no Brasil. "É uma visão muito desumana que a sociedade e a escola têm do professor."

Exemplo do desprestígio aconteceu quando o pai de um aluno prometeu a ele uma super festa de aniversário desde que observasse uma condição: não chamar nenhum professor. "O clima é mais ou menos esse", define.

"A maioria dos alunos que eu tenho não se manifesta agressivamente, mas com brincadeira ou indireta em alusão a doutrinação, principalmente quando o assunto é direitos humanos. Isso é mais visível nos homens. É muito visível também a influência dos pais nesses discursos", relata.

"Em geral os mais fanáticos são os de menos leitura. Acham que tudo o que remete a filosofia e sociologia é coisa de comunista. Muitos não gostam de nada, só odeiam. Odeiam índio, negro, pobre, gay e mulheres, se forem feministas."

Também no interior paulista, uma amiga que dá aula de sociologia na rede pública conta que, do ano passado para cá, passou a ser hostilizada por um grupo específico de estudantes. "Eu entrava, começava a falar, e eles comentavam entre si, davam risada, tentavam me intimidar. Eu ficava mal. Pensava: 'É meu aluno, poxa, não um inimigo de quem devo me proteger'."

"Na aula, dou noção de cidadania, direitos civis. Numa discussão, um menino me falou um monte sobre Marx depois de assistir a um vídeo no YouTube. Eu perguntei: 'Cara, como você pode me acusar de doutrinação por causa de um livro que você nem leu? Vamos discutir o autor!'"

Ela disse que, em uma das aulas, precisou lembrar um estudante que ele estudava numa escola pública e que essa escolha sequer existiria se o discurso dele fosse levado ao limite.

"Mas meus embates são tranquilos perto do que ouço de outros colegas. Há casos de quem chegou a ser denunciada por usar 'Capitães de Areia' (livro de Jorge Amado) em sala de aula. É difícil não ficar tenso. Sociologia é uma disciplina que exige uma certa análise, um posicionamento. E eles estão sempre com o celular na mão. Isso pra virar um vídeo editado é um pulo."

Apesar da tensão, ela diz encontrar também muita gente indignada com a patrulha e aberta a discussão. "Principalmente as meninas. Isso nos motiva", diz.

*A pedido das entrevistadas, as identidades e nomes das escolas foram preservados

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.