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Ensaio de fotos com celulares removidos flagra nossa solidão ou só o tédio?

Matheus Pichonelli

03/10/2019 04h00

Pinga há semanas na minha , na sua, na nossa timeline e na de meio mundo o ensaio "Removed", do fotógrafo americano Eric Pickersgill. Ele criou uma série de imagens com pessoas em situações cotidianas como se estivessem segurando seus celulares, mas com as mãos vazias, numa desconexão flagrante entre indivíduos do mundo atual.

Está lá o casal que não se fala porque, tecnicamente, os "conjes" estão ocupados demais olhando a palma da mão. O turista que olha para os dedos e não para a paisagem. As amigas em roda e em silêncio ensimesmado. O motorista que não presta atenção pra onde vai.

 

Sabe o que as fotos demonstram? Que estamos cada vez mais sozinhos e com o raio de observação limitado a uma tela de no máximo seis polegadas, certo? Pode ser. Prefiro acreditar que as fotos mostram como o mundo real, off-line e acinzentado, não consegue competir com os memes. (Mostram também que é preciso tomar cuidado com distrações para evitar acidentes, mas essa é outra história).

É quase unânime, em qualquer roda de boteco, o papo de que os smartphones e outras tecnologias inexistentes há pouco mais de uma década são os responsáveis pela solidão do mundo contemporâneo. Quando ouço isso na roda, corro para o celular na esperança de que lá no trópico da timeline a vida esteja a mil.

O celular, como qualquer tecnologia, não é culpado pelos nossos excessos, transtornos ou ansiedades, como me explicou recentemente a psicóloga e professora da UFRJ Anna Lucia Spear King.

A fuga para o celular pode esconder outro sintoma: o de que alguma coisa na relação entre indivíduos reais não vai bem.

Há até pouco tempo, ninguém poderia atravessar paredes, sumir na neblina ou ser pinçado com uma corda em um helicóptero quando a tia perguntava "E OS/AS NAMORADINHOS/AS?", o vizinho sondava quanto você pagava de aluguel, os antigos colegas de escola atualizavam a lista de separações entre conhecidos ou indagavam quanto estávamos faturando por mês e/ou resolviam contar as epopeias de suas vidas amorosas, sociais, financeiras, etc. 

Nada disso deixou de ser assunto nos encontros fortuitos ou organizados por WhatsApp. A diferença é que agora, quando alguém começa a observar a proporção entre cabelos brancos, ralos e resilientes em nossas cabeças numa roda de conversa, podemos pedir licença, um minuto, para conferir uma coisinha (no celular) e não voltar mais. É a tecnologia nos possibilitando atravessar paredes ou sumir na neblina.

O que para alguns é sintoma de solidão, para outros pode ser um refúgio. Tempos atrás, perguntei por aqui qual de nossos personagens era realmente real: o que cala na vida privada ou o que late na rede social? Provavelmente os dois são personagens condicionados a um determinado papel. Mas é difícil escapar da conclusão de que a vida online é mais interessante, e não só por causa dos filtros do Instagram.

Pelo contrário: pelo celular, podemos nos conectar a qualquer hora com outros desajustados e/ou desadaptados das etiquetas sociais em grupos de afinidades animados com figurinhas ou no Twitter, onde podemos confessar em voz alta e rir um pouco das nossas frustrações, nossos limites, dos nossos tédios e das nossas trombadas no poste enquanto caminhamos.

Assim, quando a reunião na firma se estende, e tudo o que seres humanos conseguem falar é sobre metas, índices e planilhas, já não é para a praia que sonhamos em correr para aliviar os dias sob o ar-condicionado. Com uma espiadela debaixo da mesa, transportamos corações e mentes para a orgia dos memes, provavelmente a última grande invenção da humanidade –até porque, pelo tempo que passamos produzindo ou consumindo memes, pouco sobrará para alguém construir os esperados carros do voadores ou escrever nosso próximo "Guerra e Paz".

Vamos combinar que não é fácil, para a realidade dos números, jobs e contas a pagar, competir com o nonsense de quem, no auge do choque ao saber que um procurador-geral queria matar um ministro do Supremo, resolveu reproduzir uma foto de Rodrigo Janot de óculos escuros atrás de um engradado de cervejas confidenciando a um amigo: "EU VO MATA O GILMAR MENES (sic)" . Ou quando um gênio da arte contemporânea cria um Dollynho reflexivo. É o alívio cômico de uma realidade que antes revela do que compete com nosso nonsense.

(As páginas de reunião de memes, aliás, deveriam vir com a inscrição: "Memes melhores que você". Ou "nós").

Enquanto pessoas entediadas seguirem reproduzindo assuntos entediantes em rodas de conversas entediadas, o meme seguirá exercendo o monopólio da nossa economia de atenção. Por que isso seria ruim?

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

Blog do Pichonelli