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"Garotas estão extremamente feministas", diz atriz de filme sobre bullying

Matheus Pichonelli

21/10/2019 04h00

Eduarda Fernandes e Ana Clara Ligeiro em cena do filme "Luna". Fotos: Gustavo Baxter

A atriz mineira Eduarda Fernandes comemorou seu aniversário de 18 anos, em 2016, durante as filmagens de "Luna", filme do conterrâneo Cris Azzi em que interpreta uma jovem execrada na escola após uma foto íntima ser compartilhada por um colega da escola.

De lá pra cá, muita coisa mudou no ambiente escolar que ela voltou a frequentar recentemente, com um trabalho de arte-educação desenvolvido com uma amiga pedagoga e focado em cinema e teatro para alunos do ensino médio e da educação básica em Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte.

O cyberbullying, um dos temas do filme, se tornou mais comum desde seu tempo de estudante. Mas não só. "Era uma questão mais polêmica que as redes sociais tornaram mais comum e que hoje foi naturalizada. A repercussão era maior, mas a nocividade e o machismo ainda são os mesmos", diz a atriz, hoje com 21 anos.

"Eu voltei na semana passada para dar aula de teatro onde me formei. Percebo que as informações e discussões sobre feminismo estão mais presentes do que há três anos. Ao mesmo tempo, existe um ambiente opressor, de censura política hoje no Brasil. É um paradoxo."

Durante a pesquisa para o filme, Duda, como é conhecida, teve participação ativa tanto na escolha do elenco quanto nas discussões dos temas que atravessariam o primeiro longa de ficção do diretor, que se baseou na história real de uma jovem de 17 anos que se matou após ter um vídeo de sexo viralizado nas redes sociais.

No lançamento, Azzi contou ter mergulhado no universo de meninas brasileiras, com muitas histórias de decepções com o universo masculino. "As reivindicações femininas ganharam luz no Brasil e indicam um caminho espinhoso, mas sem volta, na direção da igualdade de direitos em relação aos homens", disse o diretor.

Cena do filme "Luna"

"Luna", que garantiu à protagonista uma menção honrosa no Festival do Rio de 2018, é o filme mais recente de uma safra de elogiadas produções mineiras que conta com títulos como "Baronesa", (de Juliana Antunes), "Arábia" (Affonso Uchôa e João Dumans), "Baixo Centro" (Samuel Marotta e Ewerton Belico), "No Coração do Mundo" (Maurilio Martins e Gabriel Martins) e "Temporada" (André Novais), este último disponível na Netflix. 

Essas produções, que mergulham no universo periférico como poucas no Brasil, levaram ao primeiro plano atrizes de nomes ascendentes do cinema nacional, como Grace Passô e Bárbara Colen.

Eduarda Fernandes é a caçula delas -mas nem parece.

Estudante até pouco tempo, ela conta ter presenciado casos de exposição indevida em sua escola, mas nem ela nem as amigas mais próximas foram vítimas de cyberbullying. Na época, ela já tinha vivência em teatro. Hoje é uma das atrizes do coletivo de Belo Horizonte Quartatela.

O filme, no entanto, a levou a perceber a força de movimentos feministas que tomavam forma na época. Ela conta que, antes das filmagens, o elenco e os produtores foram até uma escola, em BH, para discutir questões geracionais. "A gente achou que não ia aparecer ninguém, e de repente havia 70 estudantes em uma sala."

Dessa reunião, lembra Fernandes, ficou evidente que a articulação das meninas para o debate possuía uma força maior que a dos rapazes, mesmo os mais politizados. "Foi um massacre. Um dos debates era justamente sobre uma exposição indevida e elas apontavam o dedo, mostrando como eles tinham agido naquele episódio", recorda. "De lá pra cá as coisas evoluíram mais rapidamente", diz a protagonista, que ficou impressionada com a fala de garotas de 15 anos "extremamente feministas" em um debate sobre o filme, dias atrás.

"A reação contrária que se tem é porque essas discussões estão mais presentes e as mulheres estão lutando por esse lugar. Fico feliz que o filme tenha contribuído para essa discussão", diz.

"Luna" entrou em cartaz no último dia 10, no auge do frisson de filmes com orçamento superior como a comédia romântica para adolescentes "Ela disse, ele disse", que soma quase 100 mil espectadores desde a estreia, em 3 de outubro.

Mas, enquanto a protagonista de "Ela Disse", a apresentadora do SBT Maisa Silva, se prepara para o primeiro beijo em um esquema high school, na produção mineira a personagem de Eduarda Fernandes atravessa muitos dos dilemas de uma jovem do chamado Brasil profundo. Ela mora sozinha com a mãe em uma área periférica, vende brigadeiro para ajudar nas contas, ensaia passos de funk com as amigas, precisa driblar o assédio dos adultos e é execrada após se envolver e trocar nudes com uma amiga da escola, interpretada por Ana Claudia Ligeiro, com quem descobre (e experimenta) a sua sexualidade.

O filme tem início com uma discussão, em sala de aula, sobre o impeachment de Dilma Rousseff, primeira mulher a ser eleita (e reeleita) presidenta no Brasil.

É nessa escola que, em uma cena aparentemente solta da história, as estudantes se reúnem para discutir a criação de um coletivo feminista para compartilhar experiências. Dessa articulação surge uma rede de solidariedade em torno da protagonista quando ela flerta com o suicídio após a exposição indevida.

O contexto político, embora presente, é sutil, em contraste com outras produções com alta voltagem militante, como "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, filme classificado por ela como "potente no discurso e na matéria artística". "Tem momentos em que este grito é necessário", diz ela.

Como professora, a atriz conta ter como desafio tirar da superficialidade as questões que atravessam o ambiente escolar, como depressão, ansiedade e tentativas de suicídio.

"Muitos pais procuram a escola para saber o que está acontecendo com os filhos", relata.

Eduarda atribui esses sintomas ao contraste com que as informações fluem no plano virtual e a "vagareza" do plano real. "Os dispositivos tecnológicos mudam a ideia da presença de corpo. Não temos educação para ter um distanciamento crítico em relação a coisas que chegam de maneira rápida e estimulante. O lugar da virtualidade inventa um protagonismo, um aqui e agora. Falta discernimento, falta corpo e presença", resume.

Em suas aulas, ela busca mostrar a esses adolescentes que as noções de imagem e som ajudam a reeducar o olhar sobre o corpo. Isso envolve uma discussão profunda sobre afirmação identitária e desconstrução de masculinidades.

Para ela, os sentimentos reprimidos, no ambiente familiar ou escolar, nem sempre é construído com abertura a essa diálogo. "Essa falta de compartilhamento dá lugar à solidão", ensina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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