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Cidade mais conservadora dos EUA é tema de documentário de brasileira

Matheus Pichonelli

28/10/2019 04h00

Morador de Mesa, no Arizona, entrevistado no documentário "Zona Árida", de Fernanda Pessoa (Foto: Rodrigo Levy)

A cineasta Fernanda Pessoa ficou impactada quando soube, em 2014, de um estudo da Universidade da Califórnia e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que apontava a cidade de Mesa, no Arizona, como a mais conservadora dos Estados Unidos. 

Foi lá que, em 2001, aos 15 anos, ela morou durante seu intercâmbio no país. E foi de lá que ela acompanhou os desdobramentos dos atentados às Torres Gêmeas de Nova York, ocorridos naquele ano, com o início da chamada guerra ao terror de George W. Bush.

Em 2016, já com 30 anos, ela decidiu voltar ao local para investigar a ascensão do conservadorismo americano por uma perspectiva peculiar: a dos amigos e da família que a acolheram na cidade. Foi um reencontro também com a garota de 15 anos que se encantou e se desencantou com o "sonho americano" durante a estadia. E um gatilho para entender uma onda que começava a tomar forma no Brasil.

O resultado está no filme "Zona Árida", que fará sua estreia mundial em uma mostra competitiva do tradicional Festival Dok Leipzig, na Alemanha, que começa nesta segunda-feira, dia 28.

No filme, para surpresa de muitos, os entrevistados não são os tipos alucinados que defendem o extermínio de tudo o que desorienta suas convicções. Pelo contrário: são gentis, sorridentes e solícitos.

A violência está nas entrelinhas, quando a conversa envereda sobre imigrantes, armamentos e, claro, o papel da mulher naquela sociedade.

No filme, a diretora recupera os recados escritos em seu caderno ao fim do ano letivo. "Tenha sempre essa bunda bonita" era uma das mensagens.

"Mesa tem uma igreja em cada esquina. É a quinta maior população mórmon dos EUA. Os comentários objetificantes têm mais a ver com a imagem que americanos e europeus no geral fazem das mulheres brasileiras. Esse estigma não é exclusivo dos religiosos, mas claro que, quando isso vai ao encontro de uma comunidade como essa, a coisa fica mais explícita", diz ela em entrevista ao blog. 

Em uma das cenas mais tensas, o pai da casa onde ela morou apresenta a sua coleção de armas. Neste dia, porém, ela conta não ter sentido medo, já que as armas estavam descarregadas. 

A diretora Fernanda Pessoa durante a gravação de "Zona Árida" (Foto: Mari Nagem)

Tensão mesmo ela vivenciou na fronteira com o México, onde filmou um campo de tiros com uma equipe enxuta composta por dois brasileiros e um americano, morador da cidade. 

 "Aqueles homens americanos com suas armas, muitos com metralhadoras AR-15, me deixaram bem apreensiva."

Houve tensão também em outra área de fronteira, no meio do deserto, quando eles estacionaram o carro e encontraram uma lata de spray de pimenta vazia. "O clima era muito calmo e ao mesmo tempo muito carregado. Nada acontecia, mas parecia que tudo poderia acontecer. Chegamos a ver de longe algumas pessoas atravessando a fronteira, entrando nos EUA, mas achamos melhor não filmar isso."

Em Mesa, segundo a diretora, existe um medo muito grande do que vem de fora. Esse medo é tomado de contradições, já que os americanos não são nativos daquela terra: até 1848 todo aquele território pertencia aos indígenas e aos mexicanos.  

A cidade foi fundada por mórmons no meio do deserto justamente para se manter longe das influências exteriores.

"O conservadorismo e o populismo de direita estão ligados a uma tentativa de proteger 'a comunidade'.  Logo depois de voltar do Arizona em 2016, vi uma palestra do cientista político alemão Wolfgang Merkel em que ele tentava entender a ascensão da extrema direita com uma oposição entre o que ele chama de cosmopolitas e comunitaristas. Os cosmopolitas da Califórnia e de Nova York estão acostumados com a presença do outro, mas na América profunda não há muito contato com o mundo exterior", conta.

Para ela, o medo do outro e o medo da mudança justificam tudo e servem para governos com propostas absurdas. "O medo é uma commodity recorrente na cultura americana, desde os faroestes, em que o outro era o indígena, passando pela guerra fria, em que os inimigos eram os russos e os comunistas, e chegando aos dias atuais, em que tanto os muçulmanos quanto os mexicanos servem a esse papel."

Fernanda Pessoa, que no ano passado lançou o elogiado "Histórias que nosso cinema (não) contava", sobre a relação entre política e pornochanchada durante a ditadura, conta ter deixado Mesa, após as filmagens, com a certeza de que Donald Trump seria eleito.

Até então, o ex-apresentador de TV era ainda uma piada, mais ou menos como Jair Bolsonaro a poucas semanas das eleições, em 2018. "Levei o perigo Bolsonaro mais a sério depois de filmar em Mesa", conta ela.

A montagem do documentário foi finalizada em 2019, e ao longo dos anos foi incorporando fenômenos ocorridos também no Brasil. "Hoje talvez o filme faça até mais sentido para nós, brasileiros."

A diretora, no entanto, toma cuidado ao definir o bolsonarismo como um movimento conservador no sentido tradicional da palavra. "Certamente tem elementos conservadores, mas me parece que há um teor de destruição e caos essencial tanto ao governo Bolsonaro quanto ao governo Trump. Nós não somos e não poderíamos ser um grande Arizona, mas acho que muita gente gostaria que fôssemos. Bolsonaro não é Trump, mas um capacho das vontades americanas. Acredito que isso que chamo de colonialismo cultural é um assunto importante do filme também."

No filme, nota-se uma preocupação da diretora em fugir de estereótipos relacionados ao americano médio. Ninguém ali posa de Homer Simpson, mas até mesmo o sorriso dos anfitriões é objeto de análise, como quando ela recorre ao livro "America", de Jean Baudrillard, para se debruçar sobre uma certa cordialidade que emana superioridade e indiferença aos estrangeiros. 

A diretora em meio ao deserto do Arizona (Foto: Mari Nagem)

"Eu me debruço e me interesso sobre eles e os Estados Unidos, mas eles não retribuem o interesse", resume a diretora, que optou por uma conversa em um tom não confrontativo nos questionamentos. 

"Quando eu perguntava coisas aparentemente óbvias, como o que significa ser americano ou o que é conservadorismo, muitos ficavam surpresos e diziam que nunca haviam pensado sobre aquilo. Seria fácil colocar afirmações completamente absurdas que só serviriam para nos fazer rir de forma confortável e julgadora, mas a ideia era tentar pegá-los nos seus pontos de contradições."

Hoje, apesar das discordâncias, ela diz sentir carinho por alguns dos entrevistados, principalmente os que a acolheram em 2001 no momento em que mais precisou (não vamos dar spoiler). "Muita gente vive nessa contradição de sentimentos: todo mundo tem uma tia, um parente, um amigo, pelo qual sentia afeição, mas que revelou ter pensamentos de extrema direita assustadores", diz.

Fernanda conta que os entrevistados viram o filme antes de todo mundo –"eles tinham o direito"– e que chegou a receber ao menos uma mensagem de agradecimento de quem olhou sua cidade e seu país pelos olhos de uma estrangeira. "Para as personagens, era um retrato do que elas realmente eram. Acho que foi isso que tentei: fazer um filme que obviamente mostre a minha visão e faça uma crítica, mas no qual eles se reconheçam."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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