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Autora de sucesso juvenil conta histórias LGBT com final feliz: "Merecemos"

Matheus Pichonelli

02/12/2019 04h00

 

Elayne Baeta, de 22 anos, se descreve como alguém que gosta de vinho tinto, não sabe dançar e escreve as coisas que queria ter lido

 

"Vai ter final feliz mesmo?", ouviu a escritora e ilustradora baiana Elayne Baeta quando anunciou, em 2017, que escreveria uma história de amor entre garotas.

"Aposto que alguém vai morrer uma hora ou terminar com homem", diziam as leitoras do Wattpad, aplicativo de autopublicação onde começou a ser gestado o livro "O Amor Não é Óbvio".

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"A representatividade é tão distorcida que pareceu uma piada", lembra a autora ao blog. "Infelizmente é o que comumente acontece nos enredos sobre garotas com garotas."

A ideia do livro, segundo ela, não era obter números, e sim alcançar  garotas e dar a elas um livro que dissesse: "Eu te vejo. Se você me ler, você vai se ler. Porque eu te vejo".

Mas os números vieram. Sua história sem final trágico, que começou a ser escrita quando ela tinha 19 anos, foi lida por 400 mil leitores e migrou para a versão impressa após uma campanha dos fãs nas redes sociais.

"Acho que escrever sobre algo com propriedade e falando o que tantas meninas queriam ouvir foi o ímã principal. O que ajudou também foi me conectar com essas garotas. Passei uma semana inteira convidando cada menina que eu via online para ler. Não parei de fazer os convites mesmo quando tinha uma quantidade de leituras consideráveis. Não fiz só um público ali, fiz amigas, amigos e aliados", descreve.

Com trechos inéditos, o livro sobre uma jovem de 17 anos, viciada em novela e que se apaixona por uma garota, foi lançado no dia 21 de novembro pela Galera Record, selo jovem do Grupo Editorial Record. Em pouco tempo, apareceu na 16ª posição na lista dos infantojuvenis mais vendidos da revista Veja –uma posição atrás da coleção "Harry Potter" e à frente de best-sellers como "A Culpa é das Estrelas", de John Green.

Uma das ilustrações de Elayne Baeta, que divulga seus textos e desenhos nas redes sociais

Elayne conta que, antes de ser uma escritora lésbica, era uma leitora se descobrindo sem nenhum livro pra ler. Os poucos conteúdos LGBT que encontrou eram quase sempre pesados e com final triste. Foi então que resolveu escrever sua própria obra.

"Eu já perdi a conta de quantas vezes eu li romances me perguntando 'e se fossem duas garotas?' e readaptando o enredo todo dentro da minha cabeça, trocando 'ele' por 'ela' e sentindo meu coração acelerar a troco de nada. No final, um romance heterossexual segue um caminho completamente diferente de um romance lésbico. O mundo é diferente pra gente. Eu queria um livro que falasse sobre esse mundo. Mas de uma forma divertida. Que me mostrasse a parte bonita desse mundo e não me aterrorizasse sobre ele."

Esse conteúdo estereotipado, com traições e triângulos amorosos em que a terceira ponta era um homem, estava nas prateleiras e também nas telas de cinema, onde muitas vezes prevalecia o olhar objetificante de diretores homens sobre corpos femininos. Um exemplo é "Azul é a Cor Mais Quente", filme de Abdellatif Kechiche, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2013, que ela considera decepcionante.  "Odeio", resume ela, lembrando que as atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux foram vítimas de abusos durante as gravações

"A gente também quer assistir àquele clichê com casamento no final e buquê voando", diz a autora. "As garotas que gostam de garotas merecem um final feliz. A eu de 14 anos merecia um romance lésbico com final feliz. Então eu escrevi um."

Elayne conta ter se divertido ao passar a história para a versão física. "Eu fiz tudo do meu livro no Wattpad. A capa, o design, um mapa pra cidade. A editora me deixou ter voz em absolutamente tudo. Me deixaram ilustrar como eu queria. Refiz as coisas como sempre sonhei que seriam na versão física. E a melhor parte de todas: pude sentar e pensar no que eu achava que estava faltando no enredo. E acrescentei cenas inéditas."

O buzz sobre o livro contrasta com o cenário persecutório do Brasil de 2019, marcado por cortes de financiamento e cancelamentos de peças e produções audiovisuais de temática LGBT, além da tentativa atabalhoada do prefeito Marcelo Crivella de recolher da Bienal do Rio uma HQ em que dois garotos se beijavam

Não são casos isolados, segundo a escritora. "Nós somos censurados o tempo todo: quando nossos livros não vendem muito porque o preconceito fala mais alto, quando não assinamos contratos, quando não estamos em destaque nas prateleiras das livrarias, pra não 'assustar' ninguém. São pequenas censuras diárias."

Apesar disso, a autora vê avanços. "É preciso dar oportunidade. Se atentar a esses escritores. A esses temas. A gente tá aqui. A gente existe. E a gente é muito bom escrevendo. É só deixar a gente mostrar. Eu quero ver todo mundo assinando contrato e virando best-seller."

Ela lembra que "não precisa ser LGBT pra ler um livro LGBT". "Você só precisa querer mudar o mundo. A gente passa a vida inteira lendo apenas livros com protagonismo hétero na literatura. A representatividade G na literatura é até considerável quando comparada com o resto de nós. Precisamos de mais livros que contem nossas histórias. Para todo escritor LGBT sonhador, todo dia podia ser o dia da resistência na Bienal do Rio. Tava todo mundo olhando pra gente pela primeira vez em muito tempo. Continuem olhando."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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