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Beatles queriam implantar o comunismo. E acabaram conectando minha família

Matheus Pichonelli

05/12/2019 04h00

 

O novo presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes) não gosta de rock. Aluno do ideólogo de direita Olavo de Carvalho, guru do presidente Jair Bolsonaro, Dante Mantovani já defendeu que agentes comunistas infiltrados na CIA estavam por trás das confecções de discos para adolescentes com o objetivo de destruir a base do capitalismo: as famílias.

Os maiores aliados desse plano para solapar a cultura ocidental, segundo o maestro, eram os Beatles. O plano consistia consistia em ativar a droga, o sexo, a indústria do aborto e –por fim– alimentar o satanismo.

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O raciocínio me faz desconfiar de que o novo gestor cultural do governo não entenda nem de cultura ocidental, nem de música pop, menos ainda de famílias. 

A minha tem nos Beatles muito mais do que uma trilha sonora. Tem um componente de conexão.

Aos 37 anos, tenho a impressão de que eu ainda não conhecia meu pai até começar a fuçar os seus discos na sala de música durante a infância.

Os álbuns se acotovelavam em sacos plásticos e notas fiscais preservadas entre os totens do aparelho e as duas caixas de som. Ficavam guardados numa prateleira que eu só alcançava com a ajuda de uma cadeira.

Não era música para criança, mas eu tinha ficado tão vidrado com a chamada da TVS para o filme "Os Gritos do Silêncio", de Roland Joffé, que tudo o que queria na época era saber quem cantava aquela canção sobre um mundo sem conflitos, sem inferno e onde só o céu estaria sobre nós.

Ok, a música era da fase solo do John Lennon, mas uma coisa puxou a outra. E, naquela virada de 1989 para 1990, me esqueci de muita coisa, menos do Natal em que meu meu tio José Antonio chegou à casa da vó Italina com o disco "Imagine". Era meu presente de amigo secreto.

Ouvi tanto aquele álbum que queria morar nele. 

De lá, passei para drogas mais pesadas, e todas elas compunham o universo particular dos meus familiares, que me mostravam um a um os álbuns de sua coleção, do "Please Please" ao "Let it Be". 

Mas foi durante a fase solo de John Lennon que ele compôs "Beautiful Boy", uma das mais belas canções já escritas por um pai para o filho: "Mal posso esperar para ver você crescer. Mas acho que precisamos ser pacientes. Temos um longo caminho à frente. Muito o que remar. O caminho é longo. Por enquanto, para atravessar a rua, segure minha mão. A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos".

Lennon não viu o filho crescer. Foi assassinado, em 1980, por um covarde armado, sem tempo de reação

Na semana passada escrevi sobre como são travadas, quase guturais, as conversas entre meninos que não foram ensinados a colocar o que sentem para fora

As minhas com meu pai não eram diferentes.

Às vezes faltava paciência.

Faltava um pouco de noção do que pedem os adultos, do que precisa uma criança.

Faltavam, naquela linha paterna da família de cintura enrijecida, demonstrações mais claras de afeto.

Um jeito de compensar o silêncio era cantar as mesmas músicas em sintonia. E imediatamente aquelas carrancas se dissolviam quando alguém botava "Let it Be" para tocar. Ou "Long and Winding Road". Ou mesmo "Help", minha música favorita quando chegou a adolescência e também tive vontade de gritar, como todos os adultos do meu convívio, ao ver minha independência sumir na neblina.

Muitos anos depois, em 2010, eu encerrei mais cedo um plantão de domingo e corri para o estádio do Morumbi para encontrar meu pai –justo ele, que evita abrir a carteira por qualquer motivo, que morava a 300km dali e que já não frequentava estádio por nada.

Mas, naquele dia, ele abriu, para cantar com os dois filhos, os dois irmãos, a cunhada, três sobrinhos e duas sobrinhas as canções que a gente queria ouvir. A diferença é que, daquela vez, era o próprio Paul McCartney quem estava lá e, se uma bomba caísse naquele estádio, acabava a família Pichonelli.

Nunca vou me esquecer do abraço que todo mundo trocou, como uma corrente, quando chegou a vez de "Hey Jude" e eu me transportei para a banqueta da nossa velha casa, onde buscava refúgio ouvindo que ninguém é forte demais para carregar o mundo nas costas – e que era tolice fazer daquele mundo um lugar ainda mais frio.

Quase dez anos depois, meu pai e eu fungamos o nariz e nos seguramos para um não chorar na frente do outro assistindo ao filme "Yesterday", do Danny Boyle. Como os personagens do filme, sabíamos exatamente como seria o nosso mundo particular se não fossem aquelas canções. As nossas canções.

Por isso, desconfio seriamente da capacidade dos olavistas do governo de entenderem o que seja uma família de verdade, e não esse delírio que eles querem comprar na baixa para vender como espantalhos na alta.

Juro que adoraria investigar a relação entre taras, neuroses, ignorância e bloqueio de sensibilidade artística dessa turma, mas hoje estou ocupado demais explicando para o meu filho a tradução da música que acabamos de ouvir. A música? "All you need is love".

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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