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Todos têm as férias perfeitas em janeiro. Menos você

Matheus Pichonelli

13/01/2020 04h00

iStock

 

"O que você está fazendo que ainda não viu essa série?"

A pergunta vem no tom de uma intimação judicial antes mesmo do terceiro dia útil do ano.

Tento elaborar alguma resposta de olhos fechados, enquanto meu filho se acopla como gosma sobre a minha cabeça, me pedindo para sair do computador e jogar futebol com ele na garagem. Caso contrário, vai permanecer com meu celular no cativeiro e devolver apenas mediante fiança (a bola, no caso). São oito horas da manhã.

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A ameaça vem naquele tom de voz de criança de férias entediada que não entendeu exatamente o conceito de home office.

Acho que ninguém entendeu.

Da mesa de jantar, que serve também como escritório e depósito, observo em perspectiva os livros enviados para análise pelas editoras se transformarem em uma pequena pilha.

O box de cinema iraniano que tirei da gaveta para falar sobre a guerra iminente dos persas com os Estados Unidos está mais distante dos meus braços do que uma oliveira no Teerã.

O trabalho se acumula, e isso me faz acordar cada vez mais cedo para iniciar uma maratona e terminar tudo o que consigo antes que a criança acorde. Maratona, aqui, não tem nada a ver com séries. Nem com os treinos instagramáveis de amigos adeptos de legendas do tipo "Tá pago".

Mãe e filho estão de férias e, com eles, eu levo um escritório na mochila para onde vamos. Férias, para quem trabalha "por conta", é um quarto de hotel com ar-condicionado quebrado e uma conexão ruim. Ao menos consigo dar um mergulho no fim do dia antes de apagar de estafa.

O cansaço não é físico.

Na virada de um ano e outro, deixamos para janeiro tudo o que não pudemos cumprir na temporada anterior, da visita aos amigos que mudaram e estão de passagem pela cidade à consulta com o médico para marcar aquela cirurgia para tirar a bolinha que cresce no canto do olho esquerdo. Tem também que passar no banco, pedir o novo cartão, gerar a nova senha do app que está bloqueado. 

Sim, nossa lista de resoluções já foi mais ambiciosa. Foi-se o tempo em que a rampa em U da virada do ano dava fôlego para encarar um clássico escrito por algum autor russo no século 19.

Um conselho para o jovem leitor: leia tudo antes dos 30. Não pense que com a maturidade virá o tempo que você achava que faltava quando não sabia escolher entre uma viagem com amigos e os cânones. Nada se compara ao tempo que você precisará manejar entre as páginas sobre São Petersburgo e os vídeos dos irmãos Luccas e Felipe Neto.

Conciliar papéis são outros 500 depois dos filhos, o que contribui para elevar a ansiedade para níveis preocupantes logo nos primeiros dias do ano, quando todos, sem exceção, parecem felizes, mas felizes de querer explodir, embaixo do pôr-do-sol, dos banhos de cachoeira, dos passeios de barco, dos chapéu voando em carros conversíveis, dos sorrisos que fundem bocas e orelhas num mesmo arco. Tudo isso enquanto você passou a virada do ano com febre por medo de não dar conta de tudo numa cama onde escondeu os restos a pagar da temporada anterior, inclusive aquele texto que você imaginava que seria tranquilo apurar enquanto seu filho deita em forma de estrela e promete não sair do chão enquanto ninguém colocar na TV pela undécima vez os sete maiores gols da carreira do Neymar.

É desse vídeo maldito que você lembra enquanto a Phoebe Waller-Bridge discursa no Globo de Ouro como melhor atriz de uma série imperdível que você não sabe o que estava fazendo enquanto perdia, mas que agora está na lista de tarefas a terminar em 2020 junto aos indicados a melhor filme disponíveis nas plataforma de streaming que você paga todo mês para não ter desculpas para não conferir. 

Ou temos?

Essa é a pergunta do milhão: se tudo está tão perto como um controle remoto, por que estamos sempre defasados correndo atrás de novidades e segundas temporadas e livros premiados e listas do que precisamos fazer e lugares para conhecer antes de morrer?

Talvez a receita para não se angustiar nessas horas é saber que o tempo é um recurso escasso desde que o mundo é mundo, que lidar com crianças de férias, apesar do que atestam os Sebastiões Salgados do Instagram, não é garantia de felicidade plena (inclusive para elas) e que viver será sempre uma grande queda-de-braço entre estar por dentro de tudo e estar minimamente são, sem sono interrompido nem cobranças de perfeição para além das inevitáveis.

Em outras palavras, janeiro uma hora acaba. O mundo, não.

É bom deixar algum gás para os outros 12 meses antes de o primeiro gritar "acaba, 2020".

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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