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Terraplanismo ecológico de Paulo Guedes não resiste a uma volta pela cidade

Matheus Pichonelli

23/01/2020 04h00

Atire a primeira tora de madeira quem nunca passou por necessidades econômicas e, ao ouvir o ronco de uma barriga faminta, não saiu por aí derrubando árvores até se saciar.

Você não?

Pela lógica de Paulo Guedes, superministro da Economia, esse seria o programa cultural (como diria Jair Bolsonaro) nos grupos, digamos, menos favorecidos do país.

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Em sua participação em um painel do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Guedes foi contundente em afirmar que o pior "inimigo do meio ambiente é a pobreza".

Em novembro passado, o mesmo ministro já havia demonstrado tudo o que sabe sobre a dinâmica dos lugares onde possivelmente jamais colocou os sapatos ao dizer, numa entrevista, que "os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo". 

Neste país que Guedes parece desconhecer, 63 milhões de pessoas estão inadimplentes. Funciona assim: quem tem sobrenome renegocia ou ganha isenção; quem tem só o nome, e nem sempre tem emprego, prioriza despesas básicas, como alimentação e bebidas, geralmente os itens mais pressionados pela inflação na cesta básica.

Mas "essas pessoas", segundo Guedes, não só não poupam o que não sobra como "destroem o meio ambiente porque precisam comer". "Eles têm todas as preocupações que não são as preocupações das pessoas que já destruíram suas florestas, que já combateram suas minorias étnicas e todas essas coisas."

É provável que o ministro se referisse aos países ricos que já tratoraram suas florestas e seus povos nativos em nome do desenvolvimento – como se no Brasil devastação e genocídio não estivessem suficientemente misturados no cimento e na argamassa do progresso.

Enquanto tentam justificar a atividade predatória (e de alto impacto ambiental, como mineração) na Amazônia, uma volta às cidades que ainda sufocam as áreas remanescentes de cerrado e mata atlântica bastaria para mostrar quem são os patrocinadores da devastação neste mesmo país. Spoiler: eles têm dinheiro para comprar trator e motosserra.

Muitos têm dinheiro também para comprar licenciamento e erguer em áreas antes preservadas condomínios, edifícios de alto padrão, hotéis de luxo e shoppings centers onde os mais pobres só entram para servir.

O resultado do casamento entre poder público e as grandes construtoras que avançam e transformam as cidades em uma selva de concreto e asfalto pode ser visto todos os anos nas estações chuvosas, quando o descaso se converte em enxurrada nas áreas periféricas. Mas são as vítimas desse ciclo, claro, as culpadas pela devastação.

Longe dos nossos olhos, poucos se questionam também como se expandem as fronteiras agrícolas, ou que fim levaram investigações como a realizada pela Delegacia do Meio Ambiente e o Ministério Público de Mato Grosso sobre um esquema de fraudes na principal ferramenta de licenciamento de propriedades rurais no Estado – fraudes que abriram caminho para desmates ilegais, o equivalente a 22 parques do Ibirapuera em apenas um dos casos.

Cinco supostos beneficiários tiveram, na época, R$ 407 milhões em bens bloqueados.

Nenhum deles passava fome.

E como estamos combatendo esses e outros esquemas?

Sucateando, constrangendo ou patrulhando órgãos de defesa do meio ambiente acusados de promover a "indústria da multa" e prendendo, com base em investigações chinfrins, grupos voluntários de proteção das florestas, como aconteceu em Alter do Chão, no Pará.

A declaração do ministro Paulo Guedes não é só uma demonstração gratuita de terraplanismo econômico e ecológico, prontamente refutada por lideranças como o vice-presidente dos EUA Al Gore. É também um acinte quando se lembra que no mesmo dia o Ministério Público Federal denunciou 16 executivos da maior mineradora do país pelo crime de homicídio doloso após o rompimento, em janeiro de 2019, da barragem em Brumadinho (MG), a maior tragédia ambiental do país. 

O mar de lama, ministro, como tantas outras tragédias que ceifam vidas por onde passam, não foi provocado pela fome dos necessitados, mas pela ganância de quem não mede consequência para mudar o curso de rios, matas e o que mais estiver à frente para ampliar suas margens do lucro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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