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Pais que querem vetar conteúdo escolar deveriam assistir a “Sex Education”

Matheus Pichonelli

17/02/2020 04h00

Cena da série "Sex Education", da Netflix

O repórter Rafael Balago escreveu, na Folha, que políticos de direita da Espanha estão lançando em campo a seguinte questão: se os pais podem vetar o que os filhos assistem na TV, por que não podem decidir o que eles aprendem na escola?

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Inspirada na ferramenta de bloqueio de TV, a ideia ganhou o apelido de "Pin Parental" e ganhou lastro com uma falsa questão. A começar pelo básico: a escola não é programa de TV da mesma forma que ensino não é sabonete. E, não, os pais nunca estiveram alienados das decisões. São eles, via de regra, quem decidem qual o modelo adequado para os filhos em escolas – que podem ser tradicionais, construtivistas, Waldorf etc.

Comparar o controle da TV ao controle do conteúdo escolar equivale a dizer que os pais podem frequentar estúdios das emissoras e dizer quais câmeras serão usadas, quais programas serão veiculados, quais as cores e qual o posicionamento ideal dos cinegrafistas – profissionais que estudaram e se prepararam para um tipo de trabalho que o espectador acha que entende até começar a fazer.

Não é o que acontece, aparentemente.

Mas o mundo tem sofrido de uma epidemia grave de ignorância, muito provavelmente porque a profundidade que algumas discussões merecem escorregam nos atalhos ensaboados de redes sociais que consagram a ideia de que, se alguma coisa está na internet, e eu acredito nela, logo ela existe.

No naufrágio de tanta informação, a desinformação foi também democratizada. Com ela veio um rastro de estupidez que políticos mais espertos, como os representantes do Vox, partido de ultradireita espanhol que abraçou a campanha "Pin Parental", transformaram em filão.

A legenda se tornou a terceira força na Espanha defendendo dar aos pais o direito de vetar a presença dos filhos em atividades escolares de temas dos quais suas famílias discordem. Como o apoio do partido está em disputa nos governos locais, a bandeira pode abrir caminho para que alguém se forme sem saber noções de darwinismo, vacinas, comunismo, islamismo, formato da Terra e, claro, educação sexual – o alvo preferencial de grupos que, segundo a reportagem, manejam as discussões no WhatsApp com vídeos falsos que acusam professores de mostrar pornografia nas aulas.

No Brasil, como se houvesse uma rede de embaixadas comandada pela dona Perpétua, personagem carola de Joana Fomm na novela "Tieta", argumentos parecidos têm sido apresentados como a solução de todos os males, da violência urbana à unha encravada. Funciona mais ou menos assim: se ninguém tratar de assuntos como sexualidade nas escolas, questões como gravidez indesejada e DSTs desaparecerão automaticamente. Como uma campanha de abstinência, o método equivale a dizer que todos estaremos a salvo de algum vírus transmissível pelo ar se ninguém mais respirar.

Quem sofre, como sempre, são as minorias, atacadas por todos os lados por promover uma suposta perversão ao afrontar o modelo de família tradicional.

A falácia de que, em nome dessa integridade, os pais podem controlar o que pode e o que não pode entrar na cabeça dos filhos com um controle remoto apontado para a escola e, assim, controlar corpos, desejos e autoconhecimento é a chave para obstruir com o véu do moralismo as discussões fundamentais que poderiam ser levantadas nesta idade — inclusive em sala de aula.

Na série "Sex Education", da Netflix, há um episódio, na segunda temporada, que mostra didaticamente como esse moralismo leva à ignorância e essa ignorância, à histeria coletiva diante de questões que todos desconhecem porque ninguém fala sobre elas.

No episódio, os estudantes estão em polvorosa com uma certa epidemia de clamídia, uma infecção sexualmente transmissível que afeta os olhos e a garganta. A panaceia leva um aluno mais espertalhão a vender máscaras de proteção, mesmo sabendo que a doença não era transmitida pelo ar.

"Não atrapalhe meus negócios", ele diz, ao ser confrontado pelo protagonista que tira dúvidas sobre sexo dos amigos em sessões clandestinas de terapia nos banheiros da escola. Era um modo de driblar a caretice de uma instituição comandada por um diretor que provoca todo tipo de sofrimento ao filho obrigado a disfarçar sua homossexualidade num papel de predador homofóbico e agressivo.

No meio do quiproquó, uma aluna é apontada como culpada pela epidemia e dela ninguém chega perto, a não ser para acusar e ofender. Os pais são, assim, convocados para uma reunião de emergência e lotam um auditório com máscaras e gritos do tipo: "Nossos filhos estão morrendo".

É quando a mãe do protagonista, que é sexóloga, pede a palavra para explicar que aquela doença só poderia ser transmitida por por fluidos trocados em relações sexuais sem proteção, e não pela respiração, como todos imaginavam.

O diálogo na sequência deveria ser colocado num quadro e espalhado nas escolas:

"A desinformação acerca da doença é que é problemática. Ela mistura vergonha e compreensão errônea. É assim que esse tipo de histeria se espalha. As aulas de educação sexual estão desatualizadas porque não têm ferramentas que ajudem os estudantes a se libertar desse estigma injustificado. Essas ferramentas são a confiança, o diálogo e a franqueza."

Na régua do bom senso, essa passagem de uma série ficcional deveria estar mais perto da realidade das escolas do que ideias nonsenses do tipo "Pin Parental". Não está. A ignorância é uma epidemia de escala global.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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