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Salvava jornais do lixo antes de virar jornalista. Hoje temo pela profissão

Matheus Pichonelli

20/02/2020 04h00

Foto: iStock

No começo dos anos 2000, quando a crise bateu em casa, meus pais enxugaram algumas despesas e cancelaram, aos poucos, as assinaturas de jornais e revistas. Primeiro, passamos a receber apenas as edições dos finais de semana. Depois, nem isso.

Como estava na fase pré-vestibular, e ficar sem acesso a notícias equivalia a fazer uma prova vendado, minha mãe viu a lixeira da vizinha abarrotada e pediu que ela não jogasse mais os jornais do dia anterior, mas guardasse os exemplares para mim.

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Desde então, minha noção de tempo e espaço entrou num jet lag particular: quando chegava da escola, ao fim do dia, lia as notícias publicadas na véspera, escritas e apuradas na antevéspera, enquanto as novidades do dia já estavam, àquela hora, na diagramação para serem publicadas no dia seguinte.

Ainda assim, tudo era novo.

Mas não era na faculdade que eu pensava quando procurava (ou recuperava) aqueles jornais. Era na frase dita certa vez pela mãe de um amigo, segundo quem não havia nada mais vergonhoso do que estar numa roda de conversa e não saber o que as pessoas estavam falando.

Tive, então, uma espécie de epifania adolescente e, na profundidade do sono REM, fiz um trato comigo mesmo: o de não ser como alguns adultos que repetiam bovinamente as mesmas frases sobre tudo, se cercavam de chavões e atravessam a vida com a curiosidade e a volúpia de um bicho-preguiça em descobrir e revirar o mundo do avesso.

Em outras palavras, como na música, não queria me sentar no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.

Já na faculdade, quando smartphone ainda era objeto de ficção científica, não ia para lugar algum sem levar na mochila um jornal ou uma revista, mesmo que antigos. Eram minhas portas de entrada para cenários que meus olhos não acessavam, obras que não estavam no radar, efemérides históricas, resenhas de livro, análises de filmes – e, claro, notícias que não entravam nos resumos da televisão.

O pai de uma antiga namorada assim me descreveu para os amigos certa vez: "Ele é estranho. Você dá um jornal para ele e ele é capaz de passar o dia quieto, no canto, sem amolar ninguém".

E era verdade.

Com o jornal que antes ia para a lixeira, eu ficava horas, de boas, em companhia de autores como Carlos Heitor Cony, Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde, Rodrigo Fernandes, Elio Gaspari, Vinícius Torres Freire, Mônica Bergamo – ela talvez não saiba, mas, quando trabalhamos juntos num breve período, no fim daquela mesma década, não teve um dia que não senti frio na barriga quando a ouvia chegar de longe, falando com alguma personalidade ao telefone e revelando segredos de bastidores que poucos conseguiriam destravar; um frio de quem ainda se via salvando jornais da lixeira enquanto checava e rechecava cada linha que escrevia para a coluna que tanto lia.

Quem diz que jornal é igual salsicha, que se você vir como faz não compra, é porque nunca passou por uma bateria de perguntas e questionamentos entre uma reunião de pauta e a escolha do título.

Com meu primeiro salário, fiz minha primeira assinatura.

Não sou exatamente um veterano da profissão, menos ainda uma referência, mas entre dores, decepções e algumas (raras) alegrias – como ver seu ídolo da Copa de 94 ser eleito senador e propor um projeto de lei após ler um texto seu sobre a cultura da "carteirada", ou receber de uma mãe a mensagem de que passou a aceitar a orientação sexual de seu filho depois de uma coluna sua sobre preconceito –, não teve dia que não fui dormir sem colocar na testa um letreiro como esses de caminhões: como estou dirigindo? 

Ou melhor: como estou escrevendo? 

As perguntas se desdobravam em: estou sendo justo? Como minhas opiniões estão mudando os fatos e como os fatos estão mudando minhas opiniões? O que eu tenho a dizer é relevante? É só minha vaidade falando? Devo mesmo ocupar este espaço? E como ele está sendo ocupado? Estou sabendo ouvir? Estou entendo alguma coisa do que está acontecendo? Como buscar respostas? Como compartilhar o peso das perguntas sem fugir da responsabilidade?

As perguntas são tantas e tão constantes que meu filho de 6 anos precisa me chamar a atenção, ao me ver estressado em pleno domingo por não conseguir acessar o jornal pelo tablet: "Pai, para de ser jornalista o tempo todo".

Eu tento. 

Só não posso.

Por sorte, posso dizer que a grande maioria dos amigos que tenho feito graças à profissão repete essas perguntas todos os dias. Eles podem não admitir, mas sei que não tem um dia que não acordem e não se questionam onde estão aqueles meninos que um dia quiseram mudar o mundo – podemos ter mudado desde então, mas o mundo ainda segue vergonhosamente desigual, hostil, racista, misógino, atolado em preconceito e frases-feitas.

E mudar o mundo não é ir à guerra. É reeducar o olhar. É identificar e escancarar as injustiças, disparidades, agressões e hipocrisias das versões oficiais dos que não querem prestar contas dos próprios atos.

Dias atrás, um amigo lembrou que há exatos 18 anos éramos recebidos pelos veteranos da faculdade para o trote (sim, já problematizamos o trote, muitas vezes, desde então). 

O saldo dessa escolha profissional será sempre uma conta em aberto com um convite à desistência, mas até pouco tempo era possível ouvir dos meus pais um certo orgulho quando apresentavam os filhos (porque meu irmão mais novo foi pelo mesmo caminho) numa roda de amigos e diziam: eles estudaram jornalismo.

Hoje o que eles têm é preocupação, sobretudo quando milicianos virtuais entram em meu perfil nas redes para dizer que vão estourar minha mãe caso eu volte a criticar o presidente que ele ama e quer defender. 

E, para não expor as pessoas próximas, entre eles meu filho, hoje quem esconde a profissão quando chega numa roda de desconhecidos sou eu. 

Tem sido assim desde que fomos visitar uma casa para alugar e o corretor, ao inquirir sobre minha profissão, quis saber como eu poderia contribuir para livrar o Brasil da praga do comunismo e do jornalismo, não exatamente nesta ordem. Desde então, a hostilidade só aumentou, inclusive em grupos de antigos vizinhos no WhatsApp.

(Alô, Matheus de dez anos atrás: você poderia pelo menos ter deixado mais claro naqueles primeiros textos tomados de paixão que, quando você criticava as bolhas das redações, o que estava em jogo era a criação de um ambiente mais diverso e conectado com as ruas, não o reinado do tiozão do zap que desconstrói horas, dias ou meses de apuração com uma corrente fajuta. E que aquela empolgação toda com o acesso ilimitado à internet deveria desafiar os especialistas a reelaborar respostas e a forma como se comunicam com um público cada vez mais questionador, e não a explicar que vacina é vital, que a Terra é redonda, que a universidade é importante, que criticar não é jogar contra, que apenas uma câmera de celular ligada não basta para fazer bom jornalismo.)

Hoje, enquanto me pergunto onde foi que erramos, tenho uma sensação conflitante entre a alegria de ler as reportagens de colegas que eram ainda crianças quando eu pegava os jornais antigos da vizinha e o temor de que não sobre ninguém para contar história a cada nova estocada de um governo eleito para minar todas as instituições que representam os freios e contrapesos ao seu projeto de poder, entre eles a instituição Jornalismo.

Ver um presidente eleito mandar jornalista calar a boca, atiçar sua militância virtual contra repórteres e analistas e provocar risos de colegas ao fazer uma insinuação sexual contra Patrícia Campos Mello, uma das profissionais mais premiadas que esta geração já viu, é um teste para a saúde mental de todo mundo que ainda acredita que prestar honra ao insensato é como amarrar uma pedra na atiradeira (está em Provérbios, presidente, não nos editoriais).

Ninguém vai entender o que explica tanto ódio por alguém que revelou as entranhas do submundo das fake news se não se perguntar quem ganha, afinal, quando o jornalismo se torna objeto de desprezo e esculacho. Só então vamos entender que esta profissão de fé é também uma profissão de risco – e o sonho forjado nas sombras do autoritarismo é que nunca ninguém queira correr esse risco.

Nessas horas lembro das palavras da repórter fotográfica Marlene Bergamo, outra referência, ao vencer o Prêmio Comunique-se e dedicar aos colegas demitidos: "Jornalismo é resistência. Se a gente não conseguir ganhar dinheiro com jornalismo, vamos vender banana, mas não vamos deixar de fazer jornalismo".

Em tempo. No primeiro ano de governo Bolsonaro, o número de casos de violência contra veículos de comunicação e jornalistas subiu 54,07% em relação a 2018, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas. Dos 208 casos registrados, 114 foram de "descredibilização" da imprensa e 94 de agressões diretas a profissionais. Temperado pela artilharia do presidente aos veículos dos grandes centros, esse caldo legitima a violência e torna ainda mais perigosa a profissão nas franjas do país. A última vítima foi o jornalista Léo Veras, que no último dia 12 foi executado na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai com 12 tiros. Seu crime? "Ele sempre aprofundava suas investigações jornalísticas e isso incomodava os mafiosos", disse o amigo Santiago Benítez, também repórter na fronteira, ao site Campo Grande News.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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