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Aventura bolsonarista de Sergio Moro é exemplo do que não fazer na carreira

Matheus Pichonelli

25/04/2020 04h00

Jair Bolsonaro e o agora ex-ministro Justiça Sergio Moro. Foto: Agência Brasil

Era Eduardo Cunha, e não Jair Bolsonaro, o grande adversário do PT durante o impeachment de Dilma Rousseff.

Isso o então juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, podia dizer até pouco tempo: que não olhava para colorações políticas quando condenava à prisão tanto o ex-deputado do PMDB, que abriu o processo contra a petista, quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Afinal, a lei é para todos e blablablá. Quem quisesse acreditar que acreditasse, mas esta é outra conversa.

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O fundamento das decisões e a proximidade com os "parças" do Ministério Público Federal revelada na Vaza Jato já foram suficientemente destrinchados por quem tem mais gabarito do que este reles escriba, mas o fato é que Moro, ao aceitar trabalhar para Jair Bolsonaro, amarrou seu destino em uma carroça que tinha tudo para desandar e desandou. 

Na união, ele emprestou ao governo recém-eleito seu prestígio de juiz "implacável contra tudo e contra todos" e ganhou absolutamente nada em troca – nem carta-branca para combater o crime, nem indicação ao Supremo Tribunal Federal nem vaga de vice na chapa presidencial de 2022, uma aposta caso a joint-venture entre o símbolo máximo da Lava Jato e o moralismo messiânico de Bolsonaro triunfasse.

Não triunfou.

Antes mesmo da posse, já eram conhecidos os cheques e as estranhas transações de Fabrício Queiroz, homem de confiança da família que sugou o hoje senador Flávio Bolsonaro para uma investigação sobre rachadinha e funcionários fantasmas no tempo em que era assessor parlamentar da Assembleia Legislativa do Rio.

Em público, Moro sempre evitou entrar em choque com o presidente. De profissional implacável, aos poucos foi ganhando a feição subalterna, entre omisso e obediente, e desaparecia enquanto o chefe passava vergonha furando as recomendações da Organização Mundial da Saúde e chamava a maior pandemia do século de "gripezinha". Foi um bom advogado do patrão durante um ano, três meses e 24 dias, a ponto de Rosângela Moro, sua "conge", dizer que olhava para os dois e via "uma coisa só".

Moro só resgatou a capa de heroi quando Bolsonaro decidiu mexer no comando da PF. Aí já era demais. Moro precisava manter a fama de mau – ao menos contra os criminosos que habitam longe de Rio das Pedras e dos gabinetes vizinhos, como o do agora ex-colega que pediu perdão a Deus por usar caixa 2 e ficou de bem com a consciência.

Moro era juiz de primeira instância havia mais de duas décadas quando viu uma mula encilhada passar na frente de casa e oferecer carona até Brasília. Por alguma razão, trocou a estabilidade e o que restava da fama, justa ou não, por uma aventura. Ou uma promessa de trampolim, como acusa agora o presidente. Moro nega. Garante queria apenas combater criminosos ao lado de um defensor do pior dos crimes, a tortura.

Bolsonaro já tinha uma coletânea de ofensas a opositores e flertes com o autoritarismo mais cruel quando o ex-juiz tomou um caminho irrevogável de aceitar trabalhar para o beneficiado de uma ordem sua. (Falo da prisão de Lula, não dos grampos e vazamentos selecionados de conversas da Presidência).

Faça o que fizer, tudo isso será levado em conta por onde for.

Alvo da ira da esquerda, dos professores de direito e, agora, dos bolsonaristas radicais, Moro pode até virar presidente ou ministro do STF em breve, mas para isso terá de ser incubado em alguma plataforma política que aceite concorrência — ou tope ver mensagem privada jogada no ventilador na primeira oportunidade.

Pode até ser, mas todo cálculo agora é delicado. Inclusive para a parte interessada.

Sabe aquele papo de mudar o mindset, respirar novos ares, aceitar novos desafios? Pois é. A aventura bolsonarista de Sergio Moro, tão inflável quanto a vaidade de figurar nas festas e capas de revistas, é hoje apenas um case a ser lembrado nos futuros cursos de gestão de carreira. Um case do que não fazer para subir na vida.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.