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Covers de Roberto Carlos e de espiã nazista se unem por dublê de presidente

Matheus Pichonelli

18/06/2020 04h00

A extremista Sara Winter

Sarah Winter foi uma espiã inglesa a serviço do nazismo que só não foi punida pelos crimes de guerra porque sua família era próxima do rei George 6º e do primeiro-ministro Winston Churchill. 

Sua reencarnação à brasileira foi presa pela Polícia Federal na segunda-feira (15) após posar com armas, prometer sair no soco com um ministro do Supremo Tribunal Federal e liderar uma manifestação à la ku klux klan em frente à Corte, com direito a tochas, roupas escuras e máscaras brancas, como fazem os criminosos supremacistas nos Estados Unidos.

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No dia seguinte, a pedido da Procuradoria Geral da República, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, alvo preferencial da líder extremista, autorizou uma operação da PF para identificar quem financia os protestos anti-democráticos em Brasília, que no último fim de semana terminaram com uma rajada de fogos de artifício em direção ao prédio do Supremo. Era um atentado simbólico contra quem trabalha lá para proteger a Constituição.

Um dos incendiários que se tornou alvo da operação era Roberto Boni, também conhecido como cover do Roberto Carlos. Dublê também de comentarista político, Boni passou os últimos dias implorando para que os generais deixassem as ameaças e finalmente dessem um golpe militar no Brasil.

Não teve quem noticiou as medidas da PF que não se questionou em que momento o Brasil entrou num vórtice do realismo fantástico a ponto de juntar uma cover de espiã nazista e um cover do "Rei" em atos agora enquadrados na Lei de Segurança Nacional. 

O elemento catalisador é Jair Bolsonaro. 

Foto de capa do Facebook do Roberto Carlos cover alvo da operação da PF (Reprodução)

Desde que assumiu a Presidência, não teve um dia em que Bolsonaro não desmentiu parte de seus eleitores que apostaram que, uma vez eleito, ele aposentaria o figurino de galo brigão que marcou sua passagem pelo Exército e pela Câmara dos Deputados.

Sob seu governo, não teve um dia em que os bombeiros de Brasília não precisaram entrar em campo para apagar algum conflito. 

Primeiro, contra os adversários óbvios: partidos da oposição, ativistas, ambientalistas e tudo o mais que escolheu como inimigos da pátria.

Depois, contra todo tipo de aliado que não se curvasse para seus desejos.

Por fim, contra médicos, cientistas, organismos multilaterais, ministros do Supremo, governadores e parlamentares que, de vez em quando, vêm a público mostrar os limites do desejo do presidente — alguns bem perigosos, como armar os brasileiros para que pudessem desobedecer à bala as ordens de prefeitos, governadores e suas forças de segurança em meio à pandemia do coronavírus.

Parte desses eleitores chegou a acreditar que o governo Bolsonaro seria um encontro de técnicos avessos a ideologias ou fisiologismo político e dispostos a recriar um novo Brasil.

Na vida real, o que ocorreu foi o contrário, e o Planalto se transformou, assim, numa grande porta de entrada e saída por onde passaram gente como Sergio Moro, Regina Duarte, Carlos Alberto dos Santos Cruz, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich –ex-ministros que tinham feito carreira em suas respectivas áreas e emprestavam uma certa credibilidade, inflacionada ou não, a um ministério tomado por ineptos de toda ordem.

Hoje, a chamada ala ideológica não é mais ala: é um governo inteiro. Quem não era da turma se converteu.

Entre os dublês de ministros desfilam figuras como Damares Alves, Ricardo Salles e Abraham Weintraub. Até serem nomeados, nenhum deles era referência nas áreas para as quais se tornaram autoridades. Quase todos são apenas seguidores fanáticos e obedientes de um autoproclamado filósofo que nunca foi referência em filosofia.

O governo, que virou uma reunião de ressentidos e nulidades em suas áreas, conta ainda assim com o apoio restrito de quem atribui ao comunismo, à esquerda, ao sistema e ao diabo a ausência de prestígio e reconhecimento que nunca tiveram ou deixaram de ter. Puxam a fila figuras obscuras ou justificadamente esquecidas como Paulo Cintura, Guilherme de Pádua, Mário Frias, Carioca do Pânico e Mara Maravilha.

E quem se importa com esses caras?

O mito se importa e promete dar a eles abrigo, carinho, razão de viver e até, em alguns casos, espaço no governo.

Alguns, inclusive empresários dispostos a bancar a seita, viraram caso de política. Muitos já eram, e encontraram no conservadorismo supostamente cristão uma forma de se purificar diante da sociedade.

Só isso pode explicar como uma pessoa "sociopata", totalmente desequilibrada", que "só quer aparecer na mídia", como resumiu o próprio irmão de Sara Winter, tenha se tornado símbolo entre os apoiadores de um governo de extremistas. 

Se de fato existir, só Deus sabe quais misérias humanas e existenciais levam uma cover de espiã nazista e um cover de Roberto Carlos a se unir na mesma trincheira para matar ou morrer em defesa de um cover de presidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.