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Série brasileira da Netflix sobre vírus do beijo antecipou caos da pandemia

Matheus Pichonelli

13/07/2020 04h00

Os adolescentes protagonistas da série "Boca a Boca", da Netflix (Divulgação)

Transmitida pelo beijo, uma infecção misteriosa deixa uma pequena cidade do interior em polvorosa após uma festa de adolescentes. Além dos efeitos nos corpos e da rápida viralização, a epidemia revela os traços de uma sociedade marcada pela desigualdade e pela discriminação.

A sinopse de "Boca a Boca", série que estreia na Netflix no próximo dia 17, parece tirada do jornal de ontem, mas começou a ser pensada há cerca de dois anos pelo cineasta Esmir Filho.

Apesar da coincidência, a covid-19 não estava no radar dos realizadores quando os episódios foram gravados.

A série estava pronta quando a pandemia do coronavírus obrigou o planeta a entrar em quarentena. Faltava apenas aprovar a cor que seria aplicada nas cenas do último episódio. "Aprovei à distância e nem voltamos ao assunto. Revendo a série é que vamos perceber as relações que não foram pensadas [nas filmagens]", diz o cineasta em entrevista ao blog.

O diretor Esmir Filho. Foto: Facebook

O diretor diz observar paralelos entre as feridas discutidas na série e as que ficaram escancaradas no Brasil ao longo da pandemia do coronavírus, como o caso do menino Miguel, filho da empregada que deveria estar em quarentena e foi despachado pela dona de um apartamento de luxo em Recife. Ele se perdeu e caiu do prédio enquanto a mãe passeava com os cachorros da patroa. "A pandemia joga luz nesses problemas que já enfrentamos."

Esmir Filho é diretor do premiado "Os famosos e os duendes da morte", eleito melhor filme do Festival do Rio em 2009. 

Baseado numa pequena cidade do interior gaúcho, o longa retratava o impacto da internet nas conexões humanas numa era pré-Facebook. "A galera ainda usava MSN e estava descobrindo que estar perto não é físico. Essa é a frase que marcou o longa."

Mais de dez anos depois, as telas se multiplicaram. E o diretor passou a se questionar sobre como o contato físico e os afetos servem hoje como respostas a uma sociedade hiperconectada.

"Meu trabalho é muito voltado ao olhar sobre o adolescente e a sexualidade, as descobertas emocionais. São questões que eu gosto de retratar no cinema. E a série traz essa temática."

Na série, os adolescentes descobrem as consequências desse mundo de hipervigilância e monitoramento após a síndrome contagiosa se espalhar boca a boca.

Para embasar a produção, o diretor pesquisou e discutiu, durante a produção, os impactos de quadros epidêmicos e até contaminações radioativas ao longo da história. 


Apesar das referências, tudo ali é ficcional, garante Esmir Filho. Ele diz ser impressionante, no entanto, como os comportamentos são "assustadoramente parecidos" em um contexto de pandemia –como a que encaramos agora, em tempo real. 

"Todas as epidemias que a gente pesquisou são repletas de pensamentos de pânico, de medo, de preconceito, de discriminação. A gente vê quais são os corpos privilegiados, os que recebem tratamentos e os que não recebem. Estamos vivendo isso agora. Está muito latente." 

"Boca a Boca" se passa na pequena cidade de Progresso, que não tem esse nome à toa. "É uma cidade ultraconservadora onde os pais cultuam a tradição e os bons costumes, os filhos estudam numa escola modelo, rural, mas estão querendo experimentar e entender o que acontece no corpo deles. A síndrome acaba sendo um símbolo desse enfrentamento, da luta que a gente tem com nossos desejos para poder expressar os nossos corpos."

Esse embate estava inserido em trabalhos anteriores do diretor, como o drama "Alguma coisa assim" (2016) e o curta "Saliva" (2007), sobre o pavor de uma adolescente com os fluidos trocados em seu primeiro beijo. "Gosto de lançar o olhar sobre a complexidade desses relacionamentos e dizer que nada é fácil, mas tudo pode ser gostoso. As dores e as delícias de uma relação são enormes." 

Segundo ele, o boca a boca simbolizado na série tem a ver com a viralização do mundo atual. "Todo episódio tem uma viralização que ferra com alguém", adianta.

A epidemia, segundo ele, é o ponto de partida para discutir relacionamentos humanos, amorosos, conflitos de amizade e de pais e filhos. "Os pais também vão gostar", diz o diretor, que é fã de séries como "Dark", "Sex Education" e "Euphoria". "Em 'Boca a Boca', usamos o microcosmos dessa cidade pequena para discutir algumas questões problemáticas do Brasil. A série é pop, universal, vai ser lançada em muitos países, mas com questões inerentes a esse país." 

Cena do filme "Os Famosos e os Duendes da Morte", de 2009

Essas questões são expostas por meio de três personagens centrais. Alex (Caio Horowicz), filho do fazendeiro e coronel da cidade, é vegano e vive em conflito com a família. Fran (Iza Moreira), uma jovem negra, mora com a mãe (Grace Passô) na colônia dos empregados da fazenda. E Chico (Michel Joelsas — sim, a criança de "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" cresceu) é o aluno novo que chega à cidade e empresta o olhar de estrangeiro ao local. Ele é definido como um "cara mente aberta" e que gosta de se relacionar por app de sexo.

Apesar da amizade, muitos dilemas de gênero e de classe surgem do relacionamento entre eles. A pegada pop da série ganha ritmo através da trilha sonora, que conta com uma canção original feita por Letrux e tem músicas da Trupe Chá de Boldo e de Baco Exu do Blues, além de bandas indies estrangeiras.

Doença e tabu

Tendo como referência um conceito da socióloga Patricia Hill Collins, Esmir Filho afirma que somos bombardeados o tempo todo por imagens de controle –definidas pela estudiosa como a representação específica de gênero a partir de padrões estabelecidos no interior da cultural ocidental branca e eurocêntrica.

São essas imagens de controle que a produção tenta quebrar. A série faz referências ainda aos estudos do neurocientista António Damásio, segundo quem sentimento é interno e a emoção é uma paisagem corporal, e da ensaísta Susan Sontag, que trata das doenças como metáforas de punições a comportamentos sociais.

"Meu ponto aqui é que temos de inventar novas metáforas. Para entender a real problemática que é a forma como a gente se relaciona. A epidemia de HIV foi muito discutida. É um bom exemplo porque tem a ver com sexualidade. E como ela surgiu, como causou discriminação, boatos e uma rede de falsas notícias. Ainda hoje, muita gente que teve covid não se manifestou porque sentia a discriminação. É um silêncio que não colabora. As pessoas deveriam conversar mais para sair do lugar de tabu."

"Boca a Boca" marca o retorno do diretor paulistano ao chamado Brasil profundo, como em seu longa de estreia. Na época, Esmir conta ter tido contato com jovens que moravam ou haviam deixado o interior e sentiu uma espécie de nostalgia por algo que não viveu. "Era um sentimento que não tinha nome. Não era saudade porque não vivi. Mas eu queria ser aquele adolescente para ter uma ponte para atravessar. Me interessam esses personagens em trânsito, com trajetória de partida. O deslocamento físico dentro de uma jornada me encanta. Gosto do símbolo do interior e dessa metáfora do despertencimento e da saída de uma zona de conforto."

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.