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Namoro entre Bolsonaro e centrão tem toda pinta de relação abusiva

Matheus Pichonelli

30/07/2020 04h00

Jair Bolsonaro e o ministro Fabio Faria ( Sergio Lima/AFP)

Oi centrão, tudo bem?

Tenho algo a falar sobre seu novo amor.

Recebi, pelos portais, a notificação de que os parlamentares do seu grupo e o presidente Jair Bolsonaro mudaram o status de "estamos nos conhecendo" para "relacionamento sério". Parabéns.

Não quero jogar água nessa calda de chocolate com morango. Sei que vocês não são exatamente um santuário do amor sincero e desinteressado, mas talvez valesse a pena dar um toque: esse namoro tem tudo para acabar em relacionamento abusivo. 

Veja o que aconteceu com quem caiu no conto da versão "paz e amor" do sujeito que é ódio puro, por dentro, por fora, por baixo e por cima.

A Regina, coitada, ainda se lembra daquela nota da Secretaria de Comunicação da Presidência, postada como um carro de som tocando Celine Dion e pedidos oficiais de casamento após "o avanço de uma nova fase do noivado". Ela jurava que o moço era bonzinho, não mordia, enquanto ele devorava seu braço, como resumiu a Laerte em uma charge.

A Joice foi outra. Sofreu horrores e não segura as lágrimas quando fala dos ataques que sofreu nas redes.

A Bia foi trocada de um dia para o outro. Soube do fim do namoro pela imprensa. "Poderia ter tido mais delicadeza comigo", lamentou ela, que ainda se nega a reconhecer a traição.

Quem também passou poucas e boas ali foi o Sergio, com quem o presidente desfilava até nos jogos do Flamengo. Quando descobriu que o ex-juiz não era seu brinquedo, ele saiu disparando: "uma coisa é admirar, outra é conhecer de perto".

Teve Carlos Alberto, o Maynard, o Vélez, o Levy e ainda o Marinho, que emprestou até a casa para o Jair fazer campanha em 2018 e foi chutado na sequência. Pergunta o que ele tem a dizer hoje sobre a experiência. A polícia também quer saber.

Quem também sofreu após o rompimento foi o Gustavo, um dos primeiros ministros a ser lançados ao mar, depois de tantas viagens, tantos sonhos, tantas promessas e uma prova viva de união construída em mensagens de celular. "É quase um casamento que, infelizmente, prematuramente se desfez", disse o presidente, que não deu um pio quando o ex-aliado morreu, de infarto, triste e esquecido.

Pois é, centrão.

No começo da semana, vi no jornal O Globo uma entrevista de um cara da sua turma, o Fábio Faria (PSD-RN), que ganhou um anel em forma de ministério das Comunicações, parafraseando João Gilberto em "Brigas, Nunca Mais". 

Ele jurava que o presidente, quando ama, não quer briga com ninguém. "Ninguém aguenta brigas todos os dias", jurou.

O Jair disse o mesmo para o Rodrigo Maia (DEM-RJ), de quem vocês todos querem a cadeira.

No primeiro desentendimento, Bolsonaro questionou: "Você nunca teve uma namorada? E quando ela quis ir embora, o que você fez para ela voltar, não conversou?"

Isso no começo. Vai ver agora o que ele fala dos quase-ex em público ou na roda de amigos. Para o abusador, todos os ex são loucos, malucos mesmo, indignos de seu amor.

Vai acontecer com vocês, que reúnem PP, PL, Republicanos, Solidariedade, PTB, PSD, ora PROS, PSC, Avante e Patriota –mas não mais MDB e DEM, que sentiram a encrenca e vazaram.

A vida política de Bolsonaro, que ele gosta de traduzir em metáfora amorosa, é uma vida de abuso.

Começa com excesso de amor e provas grandiloquentes de paixão e encantamento que colocam o par num pedestal cercado de todos os traços de superproteção.

Na fase seguinte, ele começa a exigir mudanças. Não pode dizer isso, não pode andar assim, não quero ver você conversando com fulano. 

As mudanças envolvem, inclusive, a fé e as convicções dos "conges". "Quem não aceitar as minhas bandeiras, família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado" está fora, lembra?

Quando menos se percebe, as agressões verbais e a violência psicológica passam a fazer parte do relacionamento. Sinais de paranoia, ciúmes e manias de perseguição viram rotina. 

O que dizer de alguém que já assumiu que dorme com uma arma debaixo do travesseiro e que tem uma rede de informantes paralela para saber dos passos de tudo e de todos? 

Quando chega essa fase, o roteiro é sempre o mesmo. 

O abusador começa a fazer pouco caso das suas conquistas ("o técnico sou eu, vocês são só jogadores!"), ridiculariza suas opiniões e gostos, destroça sua autoestima, jura que só ele é capaz de te suportar, culpa você pelas reações agressivas e intempestivas dele ("só me defendo"), pergunta se você prefere voltar com o ex, que ele não suporta, grita, depois pede desculpas alegando estresse, para depois gritar do mesmo jeito, seguir vigiando seus hábitos, conversas e postagens em redes sociais e controlando sua vida financeira, com cargos e nomeações.

No fim, vai sempre colocar os interesses dos filhos, de quem você terá de cuidar para não criar melindres, na frente de qualquer compromisso. Isso envolve dívidas, cheques, cartões, andanças com companhias estranhas, fugas, ameaças, xingamentos, bullying em redes sociais.

É um padrão que se repete desde muito antes da campanha, quando Bolsonaro flertava com o Patriota enquanto já namorava o Bivar, que depois disse estar "queimado pra caramba", só pra ficar com o partido e o fundo eleitoral do ex-parceiro. Ao todo foram oito partidos trocados e descartados como se fossem ministros da Educação.

Chega agora a ser comovente, não fosse uma tragédia anunciada, o esforço de nomes como Fábio Faria e Arthur Lira (PP-AL), líder informal do centrão, para mostrar que daqui pra frente tudo vai ser diferente, que o presidente aprendeu a ser gente, que o bom é ser feliz e mais nada, nada.

Dessa vez, no auge da rejeição popular, o Jair parece ter encontrado um par a altura, que inclusive já exige mudança de postura.

Posto que é chama num galão de gasolina, que este amor seja eterno enquanto não dure.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.