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Gregorio: mito do carioca malandro só compete com o do paulista gestor

Matheus Pichonelli

10/09/2020 04h00

(iStock)Caro Gregorio.

Li sua crônica sobre a ingenuidade vendida como malandragem pelo carioca e quase me senti indenizado por meus quase 38 anos vivendo em solo paulista. Quase. Involuntário, meu sorriso no canto da boca, notei logo, era pura inveja da grama do vizinho. No caso do Rio, não basta a grama ser mais verde. Tem que ter o Cristo, a lagoa, a Urca, o bondinho e o Chico Buarque. 

O Monumento às Bandeiras mandou lembranças.

Não tem SUV entalada na garagem que dê conta do recalque.

Como paulista, minha relação com as cidades dotadas de belezas naturais, como o Rio, é a mesma do sujeito frustrado no amor que associa a beleza alheia à superficialidade. No auge do autoengano, digo a mim mesmo que sou feio, mas tenho excelência em gestão. Como se Crivella, Witzel, Cabral e grande elenco só pudessem florescer por aí.

Ah, vá.

A conversa pra gado dormir nos faz suportar o choque térmico de sair de um aeroporto ao lado da Ilha Fiscal e pousar num lugar que, do alto, parece um banheiro de ladrilho estourado para reformas. Isso não é azar. É projeto.

Você diz que não tem brasileiro mais inocente do que o carioca, que acredita em esquemas de pirâmide e nos mercadores da fé incrustados na política. Jamais diria isso, pois me falta lugar de fala e me sobra congêneres tipicamente paulistas. 

Nosso orgulho paulista se esgarça no primeiro passeio pela Marginal Tietê, o cartão de visitas da capital. Quando cheguei por ali eu nada entendi da dura poesia concreta da propaganda antienchente vendida pelo bom-mocismo tucano. Na terra da garoa todo dia é dia de obras e alagamento, nem sempre nesta ordem.

Aqui acreditamos em qualquer um que vista terno, vá à missa aos domingos e fale pausadamente no nosso ouvido: dá-para-fazer, não-sou-po-lí-ti-co, sou-do-empreendedorismo. Sabe tara? 

Pois aqui já nascemos com esse fetiche gravado no DNA. Antes da primeira esgoelada, os médicos batem na nossa bunda com uma régua de metas a serem batidas e contam para nossas mães: "Parabéns, é um gestor".

E assim gerimos o tédio das vidas adultas confinadas olhando para prédios envidraçados, engolindo cerveja defumada no óleo diesel e dizendo: "Um dia chego lá em cima". 

Nossa felicidade é um patinete alugado na saída da Faria Lima e todos os sonhos cabem na mochila.

De patinete em patinete, atualizamos a mística dos ancestrais que nos diziam: "Conduzimos, não somos conduzidos". Pois somos a locomotiva do Brasil. E dos cartéis. E das linhas tortas do metrô. Da merenda. Da farinata. Dos fiscais do ISS. E dos amigos que não podem ser largados feridos no acostamento do Rodoanel.

Conduzindo, abrimos estradas pelo interior mostrando que somos capazes de fazer compras dentro do shopping sem precisar sair do carro.

Nosso orgulho paulista é o orgulho do povo eleito, que acelera e atropela.

Esse orgulho já elegeu excelências empreendedoras como Pitta, Maluf e Kassab para a prefeitura da capital. E, entre os dez representantes mais votados do estado para deputado, temos hoje um herdeiro chamado de 02, uma cosplay de jornalista, um dublê de defensor dos direitos do consumidor, um falso profeta e um ex-palhaço eleito dizendo que pior que tá não fica. Tá bom pra você?

Na última eleição, parte deste povo eleito ficou revoltado com a diferença do desempenho no Nordeste entre seu candidato favorito e o candidato opositor. "Depois vêm pedir emprego aqui", diziam aos montes, em suas redes, os autodeclarados empreendedores que até outro dia atribuíram a falência de seus negócios à cobiça dos outros estados e ao Bolsa Família, que tornou mais difícil encontrar quem queira trabalhar.

Não se culpem demais por vocês terem se tornado berço eleitoral de um deputado mediano que da ponte Barra-Rio das Pedras foi alçado à Presidência. Ele também é coisa nossa. Bolsonaro é bandeirante de corpo e espírito. Nasceu e se criou por aqui e só chegou onde chegou porque convenceu os herdeiros do baronato de que por trás de um coração brucutu havia um gestor capaz de ler Keynes no original, zerar o déficit público em 12 meses e privatizar até "Os Orixás" de Djanira.

Deu tão certo que agora, para controlar o preço dos alimentos, ele precisar pedir ao dono da venda que colocou bandeira do Brasil e do estado de São Paulo na fachada para abrir mão do lucro em nome do patriotismo.

Malandro é malandro, gestor é gestor. Mané é outra coisa, meu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.