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Alvo de Frota e cia, "crime" de Judith Butler é desafiar preconceitos

Matheus Pichonelli

28/10/2017 12h53

A filósofa Judith Butler durante sua primeira vinda ao Brasil, em 2015. (Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress)

 

Uma campanha virtual organizada por Alexandre Frota (sim, o Alexandre Frota) dá o tom da tensão que deve marcar a presença no Brasil de Judith Butler, professora da Universidade Berkeley, na Califórnia, e uma das principais teóricas dos estudos de gênero no mundo. Ela participa do seminário internacional "Os Fins da Democracia", que será realizado no Sesc Pompeia, em São Paulo, entre os dias 7 e 9 de novembro.

"Essa mulher que idealizou a ideologia de gênero vai chegar ao Brasil para incentivar isso nas escolas e colégios. A vida dela não será fácil", ameaçou no Twitter o ex-ator pornô.

Logo na sequência a página do Sesc Pompeia recebeu uma enxurrada de avaliações negativas. Uma petição online foi organizada para pedir o cancelamento da visita – sob o argumento de que "a promotora dessa ideologia nefasta promova em nosso país suas ideias absurdas, que têm por objetivo acelerar o processo de corrupção e fragmentação da sociedade". Nos grupos familiares, pipocavam mensagens do tipo "Eu apoio a Ideologia de Gênesis – Deus criou o macho e a fêmea".

Antes que as ameaças virem caso de polícia, é preciso compreender o bug na cabeça dos grupos conservadores, que neste ano já provocaram rebuliço, com estratégias semelhantes, em razão de uma exposição do tema em Porto Alegre e também com uma performance artística no MAM-SP.

O que é a Teoria Queer

Butler é expoente e uma das precursoras intelectuais da chamada "Teoria Queer", uma perspectiva teórica e também um repertório de ativismos centrais no campo dos estudos de gênero e sexualidade, segundo o professor da Unifesp e ativista de direitos humanos Renan Quinalha.

"Ela mostra como nós somos constituídos, enquanto sujeitos, por instituições, discursos e práticas que determinam nosso sexo, nossa sexualidade e nosso gênero. A consequência radical dessa visão é a de que não a natureza, mas a cultura, é que define nosso lugar de sujeitos. Assim, nossas identidades sexuais e de gênero são construções sociais e performativas", explica.

De acordo com o ativista, Butler provoca e desafia certezas e preconceitos arraigados que escondem sob uma perspectiva "natural" o que, na verdade, é reflexo da história e da cultura. Isso, segundo Quinalha, "abre uma margem enorme para reinventar as possibilidades de ser e de desejar". "Ela é uma filosofa que se dedicou a pensar também outros temas que não a sexualidade e o gênero. Quem a toma só como uma representante da teoria queer ignora uma série de outras reflexões e trabalhos fundamentais dela".

Enquanto grupos conservadores organizam protestos, ativistas prometem uma reação "linda" na frente do Sesc no dia dos encontros. Até lá, as redes sociais concentram uma série de ataques e contra-ataques à presença da filósofa no debate.

Não é a primeira vez que Judith Butler vem ao Brasil

Em 2015, Butler participou do "Seminário Queer, cultura e subversões das identidades", também realizado pelo Sesc – e também foi alvo de reações iradas.

Na época ela afirmou que os grupos hostis a ela não entendiam que ela defendia apenas que a justiça social não vai ser construída sem o fim da discriminação de gênero. "Eu acho um grande erro censurar os estudos de gênero por um medo de que isso possa reduzir o sexo biológico", disse Butler na época em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo.

"Algumas pessoas conseguem entender isso, mas outras não e defendem que o seu modo de viver é universal e o único que pode existir. Isso é muito perigoso, você querer que as pessoas vivam dentro das suas regras. Algumas pessoas têm a noção de que ao ensinar sobre gênero nas escolas ou incluir informações sobre homo e transexualidade você pode seduzir os alunos. Eles seguem a lógica de que há um contágio, se você se informa sobre isso, você vai se tornar um deles. As pessoas que acreditam nisso devem achar a homossexualidade, bissexualidade ou a transexualidade muito atrativas", completou.

Na mesma entrevista ela afirmou que "precisamos relaxar, tratar esse assunto de forma mais leve para aprendermos mais sobre nós, nos entendermos melhor como pessoas". E completou: "As pessoas que estão raivosas não querem que o mundo mude, mas elas precisam aceitar que o mundo já mudou, independente do que elas acham".

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.