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Crise na seleção masculina dialoga com crise da masculinidade. E viva Marta

Matheus Pichonelli

23/06/2019 04h45

Stuart Franklin – FIFA/FIFA via Getty Images

 

O Brasil estava em campo, e eu precisava entregar um texto naquela tarde. Via tudo de soslaio, entre a tela da TV, do computador e do celular, minhas ferramentas de trabalho.

Zero a zero, resultado perigoso. Zero chance de me concentrar.

Pênalti para o Brasil. Deixo o trabalho para o dia seguinte, com uma certa culpa.

Marta parte para a bola.

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Uma hora dessas, na Copa do ano passado, a masculina, eu já estava num estágio pré-coma alcoólico, liberado de qualquer compromisso desde a véspera, com o ouvido no Galvão Bueno e o olho na churrasqueira.

Entre a marcação e a cobrança no jogo feminino, consigo lembrar de cada gol do Ronaldo Fenômeno; inclusive do primeiro dele, também num Mundial na França, e até da sua voz gaguejante, quando era comentarista da Globo, e se viu ultrapassado pelo alemão Klose, no fatídico 7 a 1.

Gol. Da vitória. O 17º dela em Copas, marca que ninguém jamais alcançou.

Só que, para mim, a maior jogadora de todos os tempos tinha apenas dois gols em Copas. Um contra a Austrália, na semana passada, e outro contra a Itália. Ambos de pênalti. Os dois que eu vi em tempo real. Os dois que torci e vibrei quando a bola entrou.

Onde eu estava nos 15 gols anteriores?

O gol me traz uma sensação diversa. Tenho certeza de que centenas de TVs estavam ligadas na vizinhança. Mas, dessa vez, não vou à janela gritar contra tudo e contra todos, botar para fora os meus demônios, as minhas broncas de tudo o que não posso xingar, a não ser em dia de jogo – a minha concessão quase semanal ao estágio pré-civilizatório, o qual nem eu mesmo me reconheço.

Dessa vez, sinto uma espécie de euforia contida; um nó na garganta que se desdobra em silêncio em um corpo que não abraça nem é abraçado. Comemoro em silêncio, como quem reza.

Horas mais tarde, minha amiga Josie Rodrigues, torcedora fanática do Inter de Porto Alegre, me escreve para contar, em uma crônica, que chorou na hora do gol, lembrando de quantas forças quase impediram a Marta de estar lá.

Em sintonia, ela também se perguntava onde estavam os outros gols da maior artilheira em Copas que não comemoramos.

Dias antes, Marta celebrou seu primeiro gol na Copa da França de forma peculiar. Não foi balançando o dedo indicador para cima, em alusão ao slogan da cerveja número 1, mas em direção à chuteira, onde um símbolo azul e rosa do movimento "Go Equal" lembrava da assimetria das relações (que deveriam ser)  igualitárias – no esporte, inclusive.

No jogo seguinte, o símbolo era um batom roxo. Que deu o que falar.

Aquele gol que enfim assistíamos era da Josie. E da Fhoutine, sua melhor amiga. E das tantas amigas que não se cansam de escrever e compartilhar reflexões sobre quanto precisamos mudar – e que outro jogo é possível, além dos que premiam os vencedores de sempre.

E os "meninos"?

Quis o destino que a Copa feminina acontecesse nas mesmas semanas em que o Brasil recebe a Copa América masculina, o segundo torneio mais importante depois do Mundial. Poucos parecem se empolgar com o time masculino dessa vez.

Não porque os jogadores sejam mais ricos, tenham mais visibilidade, mais patrocínios. Não porque o brasileiro esteja indiferente à "sua" seleção – que sempre teve gênero, o masculino.

Mas porque tudo o que se vê na equipe do técnico Tite tem cara de filme antigo. Um filme que muita gente tem preguiça de rever ou cultuar – independentemente do resultado em campo.

De alguma forma, a crise na seleção masculina parece dialogar com a crise da masculinidade na virada da década. Os homens antes bajulados por qualquer façanha, já não circulam pelo olimpo, já não falam sem ouvirem contrapontos, já não interrompem falas impunemente e não têm carta branca para serem pais ausentes, maus maridos ou parceiros agressivos.

Ninguém, em sã consciência, ainda acha normal chamar alguém de 27 anos de "menino", nem se encanta em saber que um dos maiores ícones de sua geração tenha as lágrimas, que não sabemos serem reais ou não, lambidas pelo pai-empresário-provedor; nem se inspira pelo seu temperamento de criança mimada, que se desculpa em propaganda de lâmina de barbear e não demonstra qualquer noção de responsabilidade afetiva ou social – e não estou falando de acusações mais graves, que deixo para o julgamento das instituições de fato, não para os juízos da opinião.

Faça o que fizer, o ídolo dos meninos cresceu para ter a compreensão, a solidariedade e o afago de todos, inclusive do presidente – o mesmo que não gastou nenhuma linha para parabenizar a maior artilheira em Copas em todos os tempos.

Isso é (era?) parte de um jogo antigo, que já não surpreende; um jogo que concentra prestígio e não quer dividir a bola.

Se o esporte é um microcosmo dos afetos políticos, e se estamos falando, celebrando e ASSISTINDO a um torneio de futebol feminino, uma arena/trincheira ainda predominantemente masculina, é porque algo irreversível está sendo gestado – por mais que a foto oficial do macho adulto branco sempre no comando indique que a velha ordem se reuniu para estancar qualquer concessão igualitária no campo político. Essa foto é só, e não apenas, reação.

A mudança, essa maior e mais demorada, tem tração nas conexões contemporâneas, onde Marta, antes um nome fora da agenda dos veículos tradicionais (a não ser quando aparecia, uma vez por ano, para buscar o troféu da Fifa de melhor do mundo), é agora um dos assuntos mais citados no Twitter.

Quando criança, achava que era um processo natural das espécies a solidão e o confinamento silencioso das mulheres ao meu redor, que não se conectavam, que ouviam ofensas em silêncio, sem qualquer talento reconhecido, a não ser dar algum sentido à vida dos filhos.

Sabemos, mesmo quem finge ignorar, o que passaram, e do que foram chamadas, as mulheres que se opuseram a esse destino naturalizado.

Não sei até onde vai a seleção brasileira capitaneada por Marta. Mas o que ela e as companheiras mostraram em campo foi algo muito maior do que qualquer euforia esportiva. O que elas mostraram foi a não-rendição.

Pode ser pouco, ou mesmo assustador, para quem cresceu entre louros. Para aquele time, o de um país inteiro que agora se reconhece, troca experiências, compartilha revoltas e se reivindica, essa conexão é um dos muitos sinais de uma mudança profunda prestes a explodir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.