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Felizes pra sempre não rola: princesa fugiu de Dubai em conto de fada real

Matheus Pichonelli

08/07/2019 04h00

(Getty Images)

Qual a sua história de princesa favorita?

A que é salva por um beijo do príncipe enquanto dorme inconsciente? A que lava, passa e cozinha para sete anões? A que foi aprisionada em uma torre por uma bruxa malvada? Ou a que se queixa de uma ervilha escondida entre colchões e lençóis para atestar a sensibilidade de sua pele ao futuro rei?

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Romantizados por desenhos e pela literatura, os contos de fadas escondem, quase sempre, uma história de horror, confinamento e abuso.

Nesta semana, a princesa de Dubai Haya Bint al-Hussein, de 45 anos, mostrou ao mundo como essas histórias terminam na vida real. A salvação, spoiler, não é o casamento.

Sexta esposa do xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum, de 69 anos, ela fugiu há cerca de dois meses com dois filhos a um destino até agora desconhecido – provavelmente, a Inglaterra, onde conta com a amizade do príncipe Charles e da duquesa Camilla Parker. A notícia só veio à tona agora.

Emir de Dubai, Al Maktoum é primeiro-ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos – além de poeta. Em seu site pessoal, ele publicizou sua dor: "Ó querida, não há mais nada a dizer / O seu silêncio mortal me deixou vazio / Você não está mais comigo. Não me importa se você está viva ou morta".

A fuga da companheira criou não apenas um incidente familiar, mas também diplomático, entre a Jordânia, os Emirados Árabes e o país onde se refugiou.

O caso virou assunto no mundo todo e ajuda a entender a engenharia real por trás romantização indevida de enredos que têm tudo para não prestar.

Até ontem, a filha do falecido rei Hussein da Jordânia parecia viver uma vida de encantos em Dubai, a luxuosa cidade de 3 milhões de habitantes com arranha-céus que chegam a 828 metros construídos no meio do nada.

O casal formava a típica família Doriana real. Posava entre sorrisos em ambientes glamorosos para capas de revistas como a Emirates Woman, que certa vez listou "Onze momentos em que o xeque Mohammed e a princesa Haya foram o casal perfeito". "Nunca nos cansamos desses dois", escreveu a publicação.

Em suas entrevistas, ela sempre mostrava um misto de admiração e subserviência ao marido. "Todos os dias fico impressionado com as coisas que ele faz. A cada dia agradeço a Deus que tenho a sorte de estar perto dele", disse ela, em 2016.

Parecia uma fala ensaiada ao estilo "O Conto da Aia" (sem trocadilho). E era.

O segredo da felicidade

Em outra ocasião, Haya fez questão de dizer que não era feminista e que havia "um lugar na sociedade para homens e mulheres e isso não deveria ser objeto de disputa". Ela jurava que as autoridades dos Emirados Árabes Unidos, especialmente em Dubai, proporcionavam "uma atmosfera que encorajava o empoderamento" – e citava uma frase do marido, segundo quem "um lugar sem mulheres é um lugar sem espírito".

Entre perguntas sobre o segredo da felicidade ("Ele é o segredo, estou longe de ser perfeita, mas ele me atura"), a revista dizia que Haya seria a candidata perfeita para o cargo de ministra da Felicidade. Afinal, "alegria e positividade parecem irradiar de cada fibra".

O que pouca gente se lembra é que a princesa Haya tinha uma vida antes de ser a "esposa perfeita" do príncipe bilionário. Em 2000, ela disputou a Olimpíada de Sidney na prova de hipismo e carregou a bandeira de seu país, a Jordânia, na abertura dos Jogos.

Seis anos depois, ela assumiu a Federação Equestre Internacional, fato que chamou a atenção em um ambiente ainda predominantemente masculino.

Na época, ela foi entrevistada por Adalberto Leister Filho, então repórter da Folha de S.Paulo. "Ela era um alento no ambiente de velhacos presidentes de federações internacionais de esportes ligados ao Comitê Olímpico Internacional. Foi apresentada na FEI como um símbolo de modernidade. Era jovem, bonita, rica, membro de realeza, tinha projetos para popularizar o hipismo no mundo", contou Leister Filho ao blog.

Ele diz que, na época, ninguém falou a ele que o marido tinha várias mulheres. "Pelo contrário, me apresentaram como uma pessoa vinda de um dos países mais modernos do Oriente Médio".

O jornalista recorda que, ao fim da entrevista, ela começou a falar do xeque. Do nada. A frase acabou não sendo publicada.

As prisioneiras no palácio

Fora do discurso oficial de revistas como a Emirates Woman, o que se conta agora é que a princesa vivia assombrada com o caso de Sheikha Latifa, uma das filhas do xeque com outra companheira, que tentou fugir do país.

Num vídeo divulgado mundo afora, ela se queixava de que sua família "não tinha liberdade de escolha" sobre suas vidas e era constantemente submetida a abusos. Ela se considerava uma prisioneira no palácio. Outra filha também tentou fugir do pai, mas, a exemplo da irmã, foi interceptada e forçada a voltar ao país.

O que aconteceu no palácio com as jovens e tanto assustou a companheira é ainda um mistério.

Conforme lembrou o jornal O Globo, nos Emirados Árabes Unidos, enquanto os homens podem facilmente se divorciar de suas mulheres sob a lei islâmica, as mulheres devem comparecer à Justiça e superar várias barreiras legais antes de terminar um casamento. As divorciadas podem manter a guarda dos filhos até uma certa idade, mas a tutela legal, o controle de sua educação e das finanças geralmente fica com o homem.

A batalha judicial promete ser longa e já move jornalistas do mundo todo sobre o destino da princesa que vivia num reino distante, muito longe daqui – onde o flerte entre autoridades masculinas e fundamentalismo religioso deveria fazer pensar sobre o futuro dos direitos fundamentais (para bom entendedor, vale conferir o filme "Divino Amor", de Gabriel Mascaro, em que, num Brasil futurista e distópico, o divórcio se torna um impeditivo para um projeto divino-populista-autoritário).

A moral da história dispensa legenda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.