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"Silenciar" motorista do Uber mostra incapacidade de aturar o mundo real

Matheus Pichonelli

10/10/2019 04h00

iStock

O Uber acaba de anunciar que, a partir de novembro, todos vamos poder silenciar nossos motoristas por aplicativo. Para isso, é só apertar a opção de viajar no "modo silencioso" e pagar uma taxa a mais pelo serviço. A alternativa é parte de um novo plano oferecido pela empresa, chamado "Comfort".

O nome é sugestivo, além de adequado. Não tem nada mais desconfortável do que engatar uma conversa sob risco de se perder –não dos caminhos, estes certificados pelo GPS, mas pelas ideias, que podem entrar em choque e colocar em risco certezas inabaláveis sobre política, segurança ou deslocamentos.

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O anúncio da nova opção, que nos livra do constrangimento de quebrar nosso silêncio ensimesmado e pedir silêncio pessoalmente, me lembrou de que, na era pré-Uber, era comum ouvir amigos jornalistas se queixarem dos taxistas quando se deslocavam para alguma pauta.

O desconforto era resultado de uma experiência de falsa subtração: acostumada a viver nos minaretes de redações onde era decidido o que era importante para os cidadãos mais acostumados a andarem nas ruas, muita gente lidava mal com o contato efêmero com o Brasil real, representado por alguém com outras inserções e exposições nos espaços urbanos sobre os quais costumávamos escrever olhando de cima. 

As queixas atravessavam orientações políticas e resvalavam, muitas vezes, nos gostos musicais impudicos de quem sintonizava na rádio errada para nos lembrar de que, fora das bolhas, ninguém se importava com nossas bandas indies favoritas –o que era o mesmo que dizer que o que fazíamos não tinha tanta importância assim.

A incapacidade de "aturar" um trabalhador no deslocamento entre a redação e a pauta era, em si, um nó na capacidade dos comunicadores se comunicarem. 

Afinal, quem se importa com histórias de desconhecidos? (Em minha última viagem via aplicativo, conheci provavelmente o maior especialista na discografia solo do John Lennon com quem já tive contato –mas só porque não ti00ha dinheiro para silenciar qualquer conhecimento além do meu).

"Você me ouve?"

A opção "silenciar" dos apps tornou real o desejo daquele personagem do filme "Pequena Miss Sunshine" que fez voto de silêncio para evitar conflitos ou admitir, em palavras, que os sonhos de todo mundo naquela kombi estavam em ruínas (o pai não seria best-seller motivacional, a irmã não seria miss América, o tio especialista em "Em Busca do Tempo Perdido" não sabia lidar com a perda, a mãe não dava conta de gerenciar todas as neuroses em uma mesma casa, etc).

Os atores Debora Duboc e Leonardo Medeiros em cena do filme "Onde quer que você esteja" (Foto: Gilda Nomacce)

Dias atrás, escrevi por aqui sobre como nossa dependência de aparelhos eletrônicos dizia menos sobre nossa solidão do que sobre nosso tédio com o mundo real. Assumia que preferia ver memes a engatar qualquer conversa offline com parentes e conhecidos. Em tom de brincadeira, era meu atestado também de incompetência para conviver no mundo onde não temos (em tese) a opção "bloqueio" ou "silenciar".

Essa dificuldade de adaptação revela, sobretudo, uma dificuldade de comunicação. 

Deve ser por isso que saí tão tocado da sessão de "Onde Quer que Você Esteja", filme de Bel Bechara e Sandro Serpa que estreou no último dia 3. 

O longa acompanha a rotina de pessoas que tentam encontrar amigos e familiares desaparecidos com a ajuda de um programa de rádio chamado "Cidade Aberta" –uma homenagem, aparentemente, ao policialesco "Cidade Alerta".

Esperava encontrar uma história sobre sequestros de crianças desaparecidas, mas não. Com exceção de um dos casos, todos ali procuram pessoas que optaram por sair de casa. 

Entre o desejo de reencontrar e a vontade de desaparecer, os personagens mostram os ruídos e a dessintonia de frequências daquela cidade. 

Em uma das cenas, uma jovem que foge de casa joga no lixo, com toda a força, um aparelho celular e recorre ao orelhão para seguir viagem antes de sumir de vez. Era como se dissesse: o desencontro é digital, mas o encontro (ainda) é analógico. É ali que não sabemos caminhar.

Nas casas e nas salas de espera, como em um consultório onde todos aguardam sua vez para enviar a mensagem por uma rádio que ninguém (ninguém mesmo?) parece escutar, os signos de como nossas ferramentas de comunicação enferrujaram chegam a gritar.

As mensagens são escritas em pedaços de papel. A velha máquina de escrever ainda está em cena. O rádio com entrada para toca-fitas também.

É com essas ferramentas que os personagens insistem em um contato improvável, enquanto novos encontros acontecem, novos embates, novos conflitos e novos riscos de perda se oferecem, como se ecoassem uma música do Caetano Veloso observando "essas novas pessoas que nós engendramos em nós, e de nós". (Os nós, aqui, têm duplo sentido).

A diferença é que, entre ondas de alta ou baixa frequência, todos de alguma forma compartilham o desejo de também sumir. 

"Será que você está escutando a gente?", pergunta o apresentador a cada grito de socorro.

Não, não estamos. 

A opção "silenciar" é sempre a mais confortável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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