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Carol Duarte: "Solidariedade masculina é orgânica. A feminina é boicotada"

Matheus Pichonelli

10/11/2019 04h00

Carol Durante em cena do filme "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão": Foto: Bruno Machado

Antes de estrear no circuito comercial, em 21 de novembro, "A Vida Invisível", filme de Karim Aïnouz pré-indicado do Brasil ao Oscar de melhor filme estrangeiro, tem percorrido (e acumulado prêmios em) diversos festivais pelo mundo. Ao fim de cada sessão, a atriz Carol Duarte, que interpreta Eurídice Gusmão, uma das protagonistas da história, é abordada por todo tipo de espectador. 

Os homens querem saber dos aspectos técnicos das filmagens. Já as mulheres fazem paralelos com a própria vida. Ou as de suas mães e avós.

"Isso não é uma boa notícia", diz a atriz paulista, de 27 anos, ao blog.

Melodrama assumido, o filme se passa nos anos 1950, uma década de modernização e crescimento econômico em que o Brasil venceu a Copa do Mundo e viu surgir a bossa nova. Essa é a história contada pelos vitoriosos.

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A outra história está escondida dentro das casas onde talentos, aptidões e desejos femininos eram estraçalhados. Ou ainda são, como percebe Carol Duarte ao ver tanta identificação entre aqueles (aparentemente) distantes anos 1950 e os dias atuais.

Um sinal de conexão entre o filme e o Brasil atual é que, durante as abordagens após as exibições, entre elas no Festival de Cannes, na França, onde ganhou o grande prêmio da mostra Um Certo Olhar, os homens quase nunca se reconhecem naquela história. Isso também não é uma boa notícia.

Uma exceção, lembra a atriz, aconteceu no Festival de Lima, no Peru, onde o público escolheu a trama como melhor filme. Emocionado, tremendo e fumando muito, o espectador perguntou: "Então, nós, homens, somos assim?"

Essa masculinidade confrontada no filme é retratada por duas figuras centrais na vida de Eurídice Gusmão: o pai e o marido, um típico homem médio interpretado por Gregorio Duvivier.

É nessas figuras masculinas que a personagem esbarra o tempo todo, como um muro de interdições. A maior delas é construída em torno da relação com a irmã, Guida (Julia Stokler), que certo dia aparece grávida e é expulsa pelo pai enquanto ele destroça um peixe nos fundos de casa –uma atividade que sequer é interrompida após a cena que vai mudar a vida de todo mundo na história. 

"Essa figura paterna é o homem que fica violento porque não lida com sua subjetividade também. Ele é reativo o tempo todo. A sociedade pressiona o homem a ser assim. E o objeto dessa violência é a mulher. A sociedade não admite uma mulher que entende seus desejos sexuais", analisa a atriz.

O diabo, no filme, mora nos detalhes. Antenor, o personagem de Duvivier, não é o machão clássico, que grita e agride. À primeira vista, ele é trabalhador, atencioso, calmo, como uma figura rodrigueana. Mas a relação entre eles é mediada por todo tipo de violência.

A noite de núpcias, filmada em detalhes, é um ato de violência.

Na pesquisa para o filme, diretor e elenco ouviram diversas histórias sobre "a primeira vez" das mulheres no casamento. 

"Aquela é uma cena de estupro. E as taxas de estupro dentro de casa ainda são altíssimas", afirma a atriz.

Há também violências sutis. Como quando Antenor questiona o talento de Eurídice como pianista com perguntas do tipo "agora quem vai cuidar da casa"? Ou quando ela explode em uma revolta justificada e ele manda que ela abaixe o tom.

"O machismo mata as mulheres por ciúmes e depois te pede calma"

"Essa revolta é sempre controlada, por mais que a mulher tenha razão. O que se espera dela é que se comporte", diz a atriz, lembrando os inúmeros casos de internação forçada de mulheres que, no século passado, se rebelavam contra aquele modelo familiar. Eram consideradas "loucas" e literalmente condenadas ao encarceramento psiquiátrico. "O machismo mata as mulheres por ciúmes e depois te pede calma."

A objetificação de corpos e o encarceramento das subjetividades femininas no filme contrastam com o que a atriz chama de "solidariedade orgânica" entre os homens da trama. Eles são responsáveis por delatar intimidades, administrar segredos e vigiar para que as irmãs separadas na adolescência não se encontrem.

Esse contato negado é a negação alegórica da solidariedade entre as mulheres da história –uma solidariedade minada pela expulsão, em um caso, e pelo confinamento, em outro. 

A impossibilidade de encontro é resultado também de um recorte social. Ao ser expulsa, a irmã precisa recomeçar a vida trabalhando como operária, vivendo em bairros pobres, compostos por cortiços, onde é acolhida por uma mulher negra e emancipada. "As classes médias altas não circulam por ali, e é bem possível que elas nunca se encontrassem, mesmo morando na mesma cidade."

Carol não conhecia Julia Stokler antes do filme e conta ter criado com ela uma relação profunda para dar conta do amor entre irmãs. "Isso foi muito bonito. No filme, o amor da vida da Eurídice é a Guida, e o amor da Guida é a Eurídice. Elas sobrevivem tentando buscar uma à outra."

A atriz lembra que o filme chega aos cinemas em um contexto inverso ao dos anos 1950, de modernização e desenvolvimento econômico. Hoje a economia patina, e a ascensão conservadora tenta limitar a mulher ao papel de reprodutora. "É como 'Handmaid's Tale'. Estamos dando muitos passos para trás. Muita coisa ainda não mudou. E isso fica claro quando você tem um presidente que se refere ao nascimento da filha como uma fraquejada."

No filme, Eurídice sonha em se reencontrar com Guida, (Julia Stockler), expulsa de casa pelo pai. Foto: Bruno Machado

Mesmo com todas as amarras, ela diz ver no cinema brasileiro atual uma resposta à altura. Um exemplo é o filme "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que também saiu consagrado em Cannes (levou o prêmio do júri). 

"São propostas diferentes, mas que se complementam. Estamos, no fundo, falando de um país ainda muito violento. E existem muitos pontos em comum."

Um desses pontos é o surgimento da imagem de uma escola em momentos-chave distintos nos dois filmes, como apontou uma espectadora durante uma das muitas sessões-debates de "A Vida Invisível". 

A pré-indicação ao Oscar é uma chance de mostrar ao mundo o que está acontecendo no país, segundo a atriz, que na novela "A Força do Querer" deu vida a Ivan, um personagem trans. 

"O Brasil é um dos países que mais mata pessoas LGBT no mundo. Até hoje as pessoas me param na rua dizendo que, até então, não sabiam o que era uma pessoa trans. Nossa carência educacional faz com que tudo vire tabu. Mas, na novela, as pessoas torciam pela felicidade do personagem. A novela não tem a pretensão de se aprofundar, mas essa discussão foi feita", diz.

Dessa vez é pelo cinema que ela leva ao grande público a memória das vidas invisíveis. "Quem sabe tantos bons filmes brasileiros produzidos hoje não sejam o anúncio de coisas boas?"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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