PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Categorias

Maeve Jinkings: “Brasileiro médio tem vergonha de assumir o que é”

Matheus Pichonelli

03/02/2020 04h00

Maeve Jinkings em cena do filme "Açúcar"

Nascida em Brasília e criada em Belém (PA), a atriz Maeve Jinkings tinha acabado de se formar em artes dramáticas na USP, em São Paulo, onde trabalhava como produtora cultural e morava havia cerca de 15 anos, quando foi passar as férias em Recife (PE) com a família em 2008.

Pretendia ficar 15 dias. Ficou três meses. 

Na capital pernambucana, onde encontraria uma série de pretextos para voltar outras vezes e há cinco anos decidiu se fixar, ela fez amizades profundas e botou os pés no terreno fértil de uma das cenas mais importantes do cinema brasileiro nesta década. Foi lá também que se deparou com um meio de caminho entre a natureza de Belém e a indústria cultural de São Paulo.

Veja também

Desde então, Maeve se tornou um rosto quase onipresente em filmes premiados como "O Som ao Redor", "Aquarius" e "Boi Neon".

Seu trabalho mais recente, "Açúcar", que entrou em cartaz na quinta-feira (30), investiga as origens das relações sociais do país em um casarão da zona da mata pernambucana, uma espécie de Ilhas Galápagos da formação nacional.

No filme dirigido por Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, com quem trabalhou em "Amor, Plástico e Barulho", ela interpreta Bethânia, uma mulher em conflito com suas origens e identidades.

Na casa onde foi criada, ela vive um entreposto entre os descendentes de escravos que não aceitam mais dobrar a espinha para a casa grande e os caprichos da família branca que a criou. Esse conflito se desdobra num terreno da fantasia e da alegoria, como o alisamento obsessivo dos cabelos da personagem e o nome da madrinha, Branca (Magali Biff), uma mulher que a abraça e humilha, sugerem. Ali, invertendo um verso famoso de Caetano, tudo já parece ruína e ainda é construção. Ou desconstrução.

As relações predatórias entre os grupos têm na cor da pele uma hierarquia que começa a ser contestada. 


Em uma das cenas, sua personagem questiona como uma mulher negra tem coragem de cobrar pela faxina depois de tudo o que sua família, dona das terras, fez por ela — um diálogo que move as relações de trabalho em qualquer apartamento das grandes cidades com elevador de serviço e quarto para empregados.

É neste mundo a ser dissolvido que sua personagem tenta se agarrar, entre a consciência e o delírio.

Filmado em 2014 em uma área que pertence à família da diretora, o filme chega aos cinemas mais atual do que nunca, segundo a atriz. 

Maeve conversou com o blog uma semana antes da estreia:

Como você define sua personagem? Como uma vilã?
A Bethânia tem, para mim, uma vilania que está no espectro de uma ignorância de si. É uma personagem representativa do brasileiro médio. O filme é muito simbólico desse Brasil que bate continência para o colonizador e tem vergonha de ser o que é. É uma personagem que vai de encontro à sua origem. Eu entendo que ela entre nesse espectro da vilania e da perversão quando entra em contato com a sombra que o filme investiga. Isso tem a ver com os fios soltos de um sistema deformado, baseado em coisas não ditas, que não fala sobre sua ditadura, seu racismo, suas feridas da escravidão. Nesse sentido, me agrada muito essa acidez que vem com essa personagem que, como o Brasil, não se olha de frente, que vive uma farsa e performa uma fantasia de cordialidade. Ao mesmo tempo, ela é vítima de si mesmo e vai se desconstruindo à medida que se encontra com sua origem e lida com o medo do que ela é. É como o brasileiro que elege um governo que massacra o próprio povo e que vê sua própria cultura como inimiga. 

Que outros paralelos é possível fazer com o Brasil atual?
No filme, a personagem se questiona que tipo de empregado é esse, que é altivo, que se atreve a falar de igual para igual com o patrão. Isso é representativo de um realocamento de estruturas de poder que não se dá por concessão, mas por conquistas. Da mesma forma como os personagens brancos desprezam a música dos descendentes de escravos, hoje vemos a criminalização do funk, que ocupa um lugar que o samba já ocupou. É um desprezo à cultura negra, popular, que vemos inclusive na fala de um certo diretor da Fundação Palmares. Quando fomos filmar ali, em 2014, já tinha um fenômeno acontecendo, uma reação das elites ao novo realocamento do poder. Víamos a decadência dos antigos engenhos em oposição às ascensão da cultura popular de origem africana, apoiadas por ONGs ou políticas públicas. Ingenuamente achei que estávamos progredindo, mas o filme não romantiza nada disso. Na época já tinha aquele discurso que até o atual presidente já repetiu, que é difícil ter empregados hoje em dia. É um discurso que conhecemos, e falamos disso como um fenômeno direto da estrutura do engenho que fundou a sociedade brasileira. Esse brasileiro explora os empregados fingindo ser legal, dizendo que o empregado comeu graças a ele, como se dissesse "eu te exploro e você tem que me agradecer por isso". Mas o brasileiro médio não se interessa por entender essa sua origem.

Foto: Divulgação

Como a sua personagem ecoa em você?
No processo de construção da Bethânia, eu olhei para muitas dessas coisas que a gente conversa agora, sobre a sociedade em que sou construída. Minha adolescência foi um período complicado, mesmo vindo de uma família progressista, que sempre problematizou muita coisa. Mas havia uma ideia coletiva que estava nas novelas, nas casas, nos lençóis subterrâneos e que cada um de nós reproduziu. Tem um debate racial no filme. Não sou uma mulher branca. Mas já fui questionada por não me assumir como uma mulher negra. Isso é confuso e doloroso para mim por sentir que ignora a complexidade da minha história. Minha mãe é paraense. Meu pai é nordestino e descendente de índios. Ele é tataraneto de uma índia capturada. Até 8, 9 anos, eu era uma indiazinha, com cabelo cuia. Na adolescência meus cabelos ficaram cacheados. Hoje entendo melhor meu sangue negro, e também a parte indígena da minha árvore genealógica. Minha cultura identitária é a Amazônia.

Recentemente houve uma polêmica no Twitter sobre como deveria ser a cara do cinema nordestino. Como você, que dá rosto a boa parte dessa produção sem ter nascido na região, acompanha isso?
Muita gente contestou o lugar do Kleber Mendonça Filho (diretor de "Aquarius" e "Bacurau") nessa produção. Isso é um absurdo. Sou membro de lutas de movimentos identitários, mas acho que tem uma cultura da lacração que se apressa em tirar algumas conclusões, age com frequência num impulso egoico e comete algumas violências, como se para aparecer tivesse de negar ou apagar o outro. Como se você precisasse se encaixar na ideia que eu tenho de você. As pessoas estão acuadas, e quanto mais a pressão social aperta, mais isso fica evidente. Mas essa raiva pode estar no lugar errado. Precisamos ter cuidado e ser responsáveis em como lidar com essa raiva. Cancelar alguém não me parece ser uma maneira responsável de lidar com a questão. 

Você já declarou que seu envolvimento com movimentos igualitários não permite ver alguns filmes da mesma forma que via antes. Como é isso?
É como aprender a ler. O último filme do Woody Allen ("Um dia de chuva em Nova York"), por exemplo, achei um desastre. A maneira como ele trata as personagens femininas… Se fosse há 30, 40 anos… Mas hoje, depois de tanto que já se falou? É patético. Eu não consigo engolir. Mesmo o último do Tarantino ("Era uma vez em Hollywood"). A personagem da Sharon Tate parece uma retardada. Ela fala pouco e, quando fala… Eu tenho vontade de perguntar: é sério que é assim que você vê as mulheres?

Em um entrevista antiga, em que você falava da Joana, sua personagem em "Onde nascem os fortes", você criticou o medo da erotização dos personagens. Como vê essa discussão hoje?
Quando fui gravar essa série, estava percebendo que parte dos movimentos identitários estava condenando alguns aspectos de erotização do corpo feminino no audiovisual com uma retórica problemática. É uma coisa que me inquieta muito. Essa representação é historicamente problemática, mas é um tema muito confuso e cheio de armadilhas. Pode cair no moralismo. Para mim não é um problema a mulher ficar pelada. O problema é que a gente cresce com a mulher vendo com frequência o interlocutor homem se interessar muito pouco pelo que a gente tem a dizer, e muito pela nossa aparência, nosso corpo. Entendo a geração que se preocupa em dizer: 'Preciso me desenvolver intelectualmente, e meu corpo é uma coisa menor'. Mas vivemos em uma sociedade que ainda reprime a sexualidade feminina. A questão não é tirar o erotismo de cena. Minha personagem, Joana, foi construída junto com os diretores com a preocupação em encontrar um equilíbrio, que eu via também nos meus parceiros. Ela é uma personagem para quem não economizei em erotismo, que eu fiz intensamente. O cuidado era pensar em que medida esse corpo é exposto em relação ao corpo masculino. Na série esse equilíbrio funcionou. O que eu acho problemático é expor uma personagem fisicamente sem espaço para sua subjetividade, enquanto nos personagens masculinos acontece o contrário. Entendo essa geração que prioriza o desenvolvimento intelectual e está tentando resolver essa questão. Mas tudo bem ser feminista e ser vaidosa, querer ir pra academia, gostar de decote e minissaia. 

Desde então ficamos mais conservadores? Enquanto conversamos a pauta do governo é a abstinência sexual para adolescentes e a tributação do "pecado" em produtos como açúcar e bebidas…
Não vejo brasileiro como conservador, mas com vergonha de assumir o que é. A gente tem essa relação com o corpo, e no fundo tem um julgamento. Não sei se vem da cultura religiosa. Outro dia vi um tuíte em que a mulher dizia que o "coito" depois de tanto tempo já não tinha fins reprodutivos, era safadeza. Sei que minha mãe sempre me deu muita liberdade desde pequena, e sempre fui muito responsável com isso. Amadureci rápido, e desde cedo eu soube administrar a liberdade que ela me dava. Isso me levou a ter menos parceiros do que uma porção de amigas que eram reprimidas em casa. Na menor oportunidade, elas aproveitavam. Quando não se pode escolher, a tendência é que as pessoas lidem de uma forma menos tranquila com algo que deveria ser natural.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

Blog do Pichonelli