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Ao convocar ato contra o Congresso, Regina Duarte interpreta seu pior papel

Matheus Pichonelli

27/02/2020 04h00

É como resumiu uma amiga: está certo que todo Carnaval tem seu fim, mas precisava ser com coronavírus e ditadura?

Na Quarta-Feira de Cinzas, em meio ao crescente pânico de que o vírus se alastrasse por aqui, as fantasias dos foliões foram guardadas e substituídas por um devaneio – o de que, se todos forem às ruas no próximo dia 15, em protesto contra o Congresso, o Brasil de Jair Bolsonaro finalmente vai decolar e todos viveremos felizes e reprimidos para sempre.

O nome disso é delírio autoritário. Deriva da ideia de que a Presidência da República é uma repartição imperial, com poderes divinos e carta branca para agir como quer e tirar da reta quem estiver no caminho – mesmo que no caminho estejam 513 deputados e 81 senadores, parte deles (253) eleitos para um primeiro mandato pelas mesmas urnas que escolheram Bolsonaro para a chefia do Executivo.

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Acontece que as relações entre os poderes estão alteradas desde que o Congresso assumiu o controle de parte do orçamento e o general Augusto Heleno, ministro responsável pela inteligência do governo, resolveu soltar o verbo – aparentemente sem saber que o áudio estava sendo captado.

"Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo. Foda-se", disse o ministro na ocasião.

Desde então, como se esperassem uma ordem superior, grupos de extrema direita passaram a espalhar a ideia de que, se Bolsonaro quase morreu por nós na campanha de 2018, agora é hora de fazer algo por ele. Uma das mensageiras do caos foi Regina Duarte, que como futura secretária da Cultura decidiu protagonizar o pior papel de sua vida.

Sem ainda mostrar o que quer e a que veio – com exceção de um filme mudo gravado entre risos de deboche sob a sigla da Agência Nacional de Cinema no momento em que o cinema nacional é mais atacado –, Regina Duarte compartilhou, em sua página no Instagram, a mensagem/convocação com direito a um desenho em Paintbrush e uma ameaça: "15 de março. Gen Heleno/Cap Bolsonaro. O Brasil é nosso. Não dos políticos de sempre".

Reparem que a mensagem não diz que o Brasil é um país de todos, inclusive de quem não votou no presidente eleito e de quem votou apostando que as instituições seriam devolvidas, ao fim de quatro anos, sem arranhão. 

Faltou quem perguntasse: "'Nosso' quem, (futura) secretária?". É briga de gangue, agora, como defendeu Suzana Vieira? Quem venceu leva tudo? A rua toda?

Sem que ninguém respondesse, mensagens do tipo se espalharam como rastilho de pólvora pelas redes. Dava para engasgar com tanto chorume. 

Uma deles mostrava uma micareta em verde e amarelo com as inscrições: "Ou vamos para as ruas ou a velha política volta ao poder". 

Outra, com Bolsonaro ao fundo, sério, atribuía a ele a seguinte declaração: "Não querem acabar comigo. Querem acabar com o Brasil. Eu só estou no meio do caminho".

"Não adianta mimimi. O orgulho do Brasil são esses dois aqui" (montagem com Bolsonaro e Sergio Moro sensualizando e vestidos como super-heróis).

"Solta a onça. #SomosTodosGeneralHeleno". (legenda autoexplicativa: uma onça bebendo água).

Tempos atrás, correntes como essas eram oferecidas por aquele parente convicto de que sua vida amorosa, financeira, afetiva e social só não decolava por causa dos conchavos políticos em Brasília. Agora são referendadas pelo tiozão do Zap que se tornou presidente e endossa o ato contra outros Poderes com a ajuda dos seus pupilos.

Para quem tinha medo de isso daqui virar uma Venezuela, tem sido comovente o esforço de apoiadores radicalizados do governo em justificar a cooptação de grupos militares como elemento de dissuasão caso juízes, jornalistas e parlamentares, não exatamente opositores, se neguem a dobrar a espinha diante de qualquer ordem imperial.

No comando de Rodrigo Maia (DEM-SP), de quem a cabeça será pedida no protesto do dia 15, a Câmara já freou excessos do governo, como pontos do pacote anticrime e de projetos como o da mineração em terras indígenas, da liberação de armas e da MP que desobriga empresas de publicarem seus balanços em jornais de grande circulação.

Não sei se os patriotas sabem, mas é justamente esse sistema de pesos e contrapesos que impede a conversão do desejo presidencial, que ainda precisa ser negociado, detalhado e justificado, em ordem sumária, uma versão particular do que a jornalista Vera Magalhães chama de "bolsochavismo". Fosse assim, o Carnaval seria hoje um desfile de estátuas da Havan com tiros para o alto, membros da oposição amarrados em praça pública e concurso de poemas em homenagem ao messias de arma na mão. Adriano da Nóbrega seria nome de rua.

Só que agora Regina Duarte não tem medo. Deveria. Populismo, quando ataca, não tem lado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.