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Coronavírus já nos obriga a viver no cenário de um filme pós-apocalíptico

Matheus Pichonelli

12/03/2020 04h00

Cena do filme "12 macacos", distopia futuristas para tempos de coronavírus

Bocas e narizes haviam desaparecido entre os passageiros que circulavam com máscaras de todo tipo no Aeroporto Internacional de Guarulhos na semana passada. Pelos olhos e roupas, dava para imaginar de onde vinham e para onde iam. Sem querer, os viajantes de sotaques abafados apontavam a tendência da moda outono e inverno de 2020, a época do ano em que os vírus da(s) gripe (s) costumam se espalhar mais facilmente por aqui.

A imagem do mundo impactado pelo coronavírus lembrava uma cena desses filmes pós-apocalípticos do tipo "Os 12 Macacos", em que um prisioneiro de 2035 precisa voltar no tempo e evitar a propagação de um vírus que praticamente devastou a vida na Terra, fazendo com que seus habitantes circulassem superprotegidos nos subsolos. Calma, é só ficção. Ainda.

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Enquanto esperava meu voo, lembrava das aulas sobre globalização, lááááááá nos anos 90, quando algum professor dizia, em linguagem figurada, que chegaria um tempo em que um espirro na China provocaria um resfriado terrível em Araraquara, onde morávamos.

Aquele saguão de aeroporto era a imagem atualizada da chamada aldeia global, uma previsão cinquentenária de que a tecnologia encurtaria distâncias e transformaria o mundo todo numa grande vila do interior.

Na virada de 2019 e 2020, um espirro na China de fato produziu gripes pelo mundo. Não só no sentido figurado.

Países que nos últimos anos receberam investimentos e ampliaram a parceria com a China precisaram fechar as fronteiras com a potência econômica para evitar a dispersão do vírus.

Os efeitos nos bolsos e nas máscaras de cada um são diversos. Na Nova Zelândia, por exemplo, conheci um professor brasileiro que está terminando o doutorado em uma universidade local e que tem complementado a renda trabalhando como Uber. Isso porque ele alugava parte da casa para um chinês que não pode viajar no início do ano letivo após o governo local proibir, por 14 dias, a entrada de estrangeiros provenientes da China. 

Perto dali, na Austrália, produtos vindos do mercado chinês começam a faltar nos supermercados. Papel higiênico entre eles. 

Em Nova York, até uma conferência para discutir os estragos do coronavírus precisou ser adiada em razão dos estragos do coronavírus. Pouco depois, Donald Trump suspendeu os voos da Europa para os EUA.

Na Itália as pessoas só podem se deslocar agora por questões de trabalho, extrema necessidades de saúde ou emergências. Quem viaja precisa preencher e carregar um documento com as devidas explicações. Escolas e universidades estão fechadas até abril. E eventos ao ar livre, como jogos e grandes reuniões, estão proibidos.

Medidas parecidas começam a ser estudadas também no Brasil, onde meus familiares evitaram até um abraço de boas-vindas com receio de que eu tivesse tivesse trazido algo a mais na bagagem. 

Na empresa onde um funcionário foi diagnosticado com o Covid-19, em São Paulo, os colegas foram liberados para fazer home office. A tendência é que as ruas se esvaziem aos poucos, como se tivessem sido bombardeadas. Dá para perceber o impacto econômico de tudo isso.

Como previsto há mais de 50 anos, o mundo de fato se converteu em uma aldeia conectada e com distâncias encurtadas pela velocidade das máquinas e pelos deslocamentos cada vez mais facilitados. 

Mas não deixa de ser irônico que o ápice desse encurtamento de fronteiras seja uma ordem de confinamento, com uma mensagem indireta: "Fiquem em suas casas, evitem contatos, aglomerações, multidões, não se toquem nem se peguem". A humanidade que estranha um abraço pode dormir tranquila: nesse ritmo, em breve até aperto de mão estará proibido.

O pânico não tem bases só na paranoia. A Organização Mundial da Saúde, e não o tiozão do WhatsApp, acaba de declarar que o coronavírus já é uma pandemia. Embora a letalidade da doença seja relativamente baixa, sua capacidade de propagação preocupa. Dois por cento de milhões, se chegar a milhões, é um estrago considerável, afinal.

Nas casas onde provavelmente vamos passar mais tempo nos próximos meses, nem mesmo a programação da TV sairá ilesa. As principais atrações já correm o risco de cancelamento, inclusive as Olimpíadas, o megaevento mais aguardado do ano.

Sabe o bom e velho DVD? É bom tirar da gaveta e limpar a poeira. Para quem não se preparou para o dilúvio, nas plataformas de streaming, há uma lista de filmes sobre distopias futuristas que parecerão documentários para quem não puder pisar fora de casa até segunda ordem. Nos próximos dias, como se o medo das multidões já não fosse uma realidade em rotinas cada vez mais fechadas entre muros e sistemas de vigilância, nosso contato com o mundo virá de jaqueta e capacete, apenas para entregar o lanche.

Estoque, fronteiras fechadas, risco de contaminação, medidas de proteção, ruas evacuadas, circulação restrita, refúgio nos bunkers de cada casa. Parece que estamos falando de uma guerra. E estamos.

O mundo hiperconectado é um mundo de habitantes cada vez mais isolados.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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