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Terapia e até aula de inglês: escambo virtual vira tendência na pandemia

Matheus Pichonelli

03/04/2020 04h00

A terapeuta Livia Deodato (à esq.), em foto de 2017, quando trocou aulas de tricô pela edição do conteúdo do portfólio de Cris Bertoluci: hoje ela incentiva as trocas virtuais

Desde o dia 16 de março, quando muitos brasileiros começaram a mudar os hábitos para conter o risco de contágio pelo coronavírus, cerca de 400 novas pessoas se inscreveram na página Escambo de Talentos no Facebook.

No grupo, que já tem mais de 20 mil participantes, é possível trocar, em condições normais, sessões de terapia por cortes de cabelo, conserto de liquidificador por massagem, consultoria de texto por jardinagem. "Neste grupo dinheiro não entra", diz a página já na descrição.

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Idealizadora da iniciativa, no ar desde janeiro de 2017, a terapeuta e jornalista (e minha amiga) Livia Deodato conta que, desde o anúncio da pandemia, feito pela Organização Mundial da Saúde, postou no grupo uma série de mensagens para quebrar o que chama de "vibração do medo".

A ideia era incentivar as pessoas a trocarem os talentos virtualmente, principalmente por meio de vídeos. Deu certo.

No último dia 20, por exemplo, um professor de inglês se ofereceu a dar aulas sem pedir nada em troca. O post teve um boom de engajamento – com cerca de 280 interessados, ele precisou ser reeditado. O professor, afinal, não daria conta de tanta demanda.

A postagem, porém, gerou uma série de anúncios de pessoas disponibilizando seus serviços sem também pedir nada em troca. Houve ofertas de todo tipo: de terapias holísticas, xamânicas e reikianas a consultoria em nutrição. "Nessa época, uma das grandes preocupações é manter a imunidade em alta", relata.

Houve também oferta de aulas de exercício em vídeo por professores de educação física. Uma médica ofereceu consultas em troca de aula de canto, flauta e inglês avançado. (Na página, há a possibilidade de a pessoa procurar no campo de busca a palavra-chave do serviço que precisa. Por meio da ferramenta é possível acessar posts antigos e se conectar com pessoas que ensinam, por exemplo, a fazer pão.)

"Vimos que era importante manter o fluxo da troca, do dar e receber. Para o equilíbrio do universo se manter, é preciso ter as duas vias. Não podemos só doar. Ou só receber. O escambo faz parte desse pressuposto", diz Livia, que "paga" a casa de brincar do filho fazendo a comunicação do lugar.

No auge das notícias sobre a pandemia, era perceptível que uma onda estava se formando. Uma onda que materializava algumas ideias que a terapeuta já trabalha há anos – e que muitas vezes a fazia ser chamada de "lunática". 

Em cidades como São Paulo, diz Livia, as pessoas estão começando a se abrir para os escambos em razão da pandemia. "Estamos sentindo este momento."

Junto com a designer e editora de vídeo Aline Nóbrega, também moderadora do grupo, ela disponibilizou na página um arquivo em PDF para incentivar as trocas analógicas. "A ideia é que a pessoa possa imprimir, colar no hall de entrada, no elevador, na entrada da vila. Hoje a gente só pode e deve pedir e oferecer ajuda para os vizinhos."

Ao fim da pandemia, ela aposta, iniciativas como estas podem indicar uma mudança de postura em relação a um mundo que está deixando de existir. "Acho que o valor atribuído ao dinheiro está muito deturpado. Graças ao Escambo de Talentos, fui convidada para dar algumas palestras sobre economia colaborativa e compartilhada. Falei sobre isso e volto a repetir: esse momento é um convite maravilhoso para repensar todos esses valores", diz. 

Livia dá como exemplo a discrepância da remuneração entre um jogador de futebol de grandes equipes e um gari. "Quanto vale o trabalho de cada um deles? Um jogador pode ganhar rios de dinheiro e um gari ganha, com  muito esforço, um salário mínimo. Eu sempre questionava: 'Se ambos parassem de trabalhar, de quem a gente sentiria mais falta?'. Os jogadores pararam nesta pandemia. Os garis, não. A partir deste lugar, a gente vai repensar toda uma estrutura econômica."

Para a terapeuta, essa desconstrução exigirá diversos questionamentos. "Neste momento, estamos vendo o medo pairar sobre todos, ou pelo menos grande parte das pessoas. Elas estão estocando papel higiênico, mas para quê? Porque estão bem desorientadas, só pode ser. Viram que na Inglaterra estava faltando e houve o efeito manada. Mas este vai ser o item de primeira necessidade? Qual o sentido disso?"

As mudanças nesta estrutura vão exigir uma revisão na ideia do excedente, de produtos aos alimentos. "Como a gente pode repartir isso com a nossa vizinhança? Isso vai exigir toda uma reestruturação. Vamos pensar em comunidade, viver com quem temos mais afinidade para trocar e repensar a forma como vamos lidar com as crianças. O que é mais importante para elas? Uma escola de R$ 3,5 mil que vai simular a natureza ou estar no meio do mato para brincar e experimentar?", questiona.

A resposta parece clara a cada novo dia de quarentena.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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