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Em tempos de quarentena, “coronamacho” virou um perigo sanitário

Matheus Pichonelli

26/03/2020 04h00

Pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional. Foto: Isac Nóbrega/PR

A quarentena, para nós, começou na segunda-feira da semana passada. Diante da hesitação da escola, decidimos que era melhor ficarmos com nosso filho em casa. Parecia ser aquele tempo para ficar junto que a gente sempre reclama por não ter.

Nas primeiras horas, tudo correu bem. Até que fecharam as áreas comuns da vizinhança, com fitas amarelas proibindo a passagem para a quadra e o parquinho como se preservassem a cena de um crime. "Ok, vamos nos divertir em casa", você pensa.

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Uma semana depois, você olha para a esteira de corrida encostada num canto da sala, o cabide de roupas mais caro que já compramos, e avalia se seria uma boa ideia colocar uma criança de seis anos para correr a 10km/h durante seis horas.

A energia represada por uma criança em casa é capaz de alimentar uma turbina de Itaipu. No começo, até fazia piada/romantizava a nova rotina no Instagram, com músicas do tipo "Diário de um detento" ao fundo. Depois, com as notícias do lado de fora, a brincadeira perdeu a graça. 

Os filmes já não prendem a atenção. A trilha sonora da quarentena é um esquete do Felipe Neto mostrando uma sequência de tombos de quem acreditou estar pronto para esquiar, descer escadas de patinete e saltar de um balanço sem enterrar a cabeça na areia.

Por um amigo, descubro que existe uma empresa fitness chamada Les Mills que liberou o acesso ao seu site para exercícios sob demanda – e que existe uma aba para treinos com crianças, com direito a movimentos, música e cenário inspirados em "Os Vingadores". Não custa tentar. Com a camisa do Homem de Ferro no peito, meu filho se anima. Por três dos seis minutos de exercício. Depois ele começa a correr pela casa com o saco de tapetes descartáveis da cachorra – que está doente e amuada, como quem já se despede de nós.

No dia seguinte tentamos novamente, digo aos vingadores.

Na quarentena, fica evidente que a vida regular, cheia de entraves e contrições, não vai dar sossego. Meus avós, em luto pela perda do meu tio, vítima de um ataque cardíaco, estão isolados a 396 quilômetros daqui. Nosso contato, em dias de reserva financeira, é por áudio de WhatsApp.

Um familiar de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, voltou com febre de uma reunião na capital paulista. Os sintomas batiam com os do coronavírus e as notícias dos dias seguintes não são animadoras. Até que a capacidade respiratória se complicou e a internação se mostrou inevitável.

Uma corrente de apoio e orações, até de quem já não rezava, se forma. Meu filho, em abstinência de contato com outras crianças, quer participar da conversa entre adultos. Quer entender por que está de "férias" e por que não pode ver os amigos. Cada resposta nos obriga a vestir um pouco a fantasia de Roberto Benigni em "A Vida é Bela". 

Meu filho talvez não tenha percebido ainda, mas em casa temos mais dúvidas do que certezas – e até a conta fechar, e enquanto der, vamos manter a precaução. (Escrevo enquanto o app do jornal apita: as mortes ainda são contadas às centenas na Itália.)

O jeito é dormir e acordar cedo.

Antes de deitar, faço uma lista de filmes brasileiros que mereciam mais atenção do que tiveram quando estavam no cinema. E que, agora, podem ser vistos no tempo que sobrar da quarentena. Distribuidoras como a Vitrine Filmes, por exemplo, colocaram em "cartaz" por preços baixos, no streaming, pequenas pérolas que quase nunca chegam às grandes plataformas do tipo Netflix.

Minha lista tem "A Cidade Onde Envelheço", de Marília Rocha; "As Duas Irenes", de Fabio Meira; "Benzinho", de Gustavo Pizzi; "A Vida Privada dos Hipopótamos", de Maíra Bühler e Matias Mariani, "Corpo Elétrico", de Marcelo Caetano, "Todos os Paulos do Mundo", de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro e "Waiting For B.", meu favorito, de Abigail Spindel e Paulo Cesar Toledo.

Já na cama, começo a anotar ideias sobre como resumir cada um desses filmes para esta coluna quando percebo uma movimentação estranha nos grupos de WhatsApp. Motivo: Jair Bolsonaro se pronunciou em rede nacional.

Na mensagem, ele parece ler um texto encomendado pelos seus apoiadores empresários que passaram o dia atacando as medidas de contenção. Volta a desdenhar dos riscos do coronavírus, que chama de "resfriadinho", condena a suspensão das aulas e leva pessoas de outros grupos a se perguntarem se era ou não para mandar os filhos à escola no dia seguinte.

A confusão me faz olhar olhar para a TV e não encontrar um presidente.

Vejo um sujeito minúsculo, inseguro e amedrontado, pedindo para manter a calma e evitar a histeria enquanto veste a fantasia do "coronamacho", como resumiu a Flávia Boggio em uma coluna recente. Só faltou pedir para que o amigo eleitor patriota largasse de ser covarde, tomasse vergonha na cara e morresse como homem.

Bolsonaro é a personificação daquele parente teimoso, saturado de traumas e que chama terapia de frescura, que desdenha de orientação médica, nunca sente remorso, culpa todo mundo por tudo, não assume a responsabilidade por nada e se vitimiza quando se isola.

O deboche é a estratégia de quem disfarça o pânico da insignificância, mas ela se somatiza em transtornos, obsessões e palavras de ordem repetidas mecanicamente: homem não chora, não tem dúvida nem mostra sentimento. Quem conhece um desses de perto sabe como é difícil lidar com o tipo. Faltou quem calculasse o risco sanitário de ter alguém assim no posto mais alto da República.

Se alguém ainda leva o presidente a sério eu não sei, mas no auge da crise meus vizinhos coronamachos desdenharam a "gripezinha" e, como se seguissem a orientação do capitão, lotaram a casa de convidados para um churrascão da quarentena. Da janela, podia ouvir os adultos, bêbados, desafiarem as crianças que não pulavam na piscina: "Boiola, boiola!"

Parecia o último baile da Ilha Fiscal.

Tento deixar para pensar em tudo isso no dia seguinte, mas na quarentena ou você não dorme ou dorme mal. Isso mesmo sabendo que, pelas condições, sou um dos poucos privilegiados que já faz home office há alguns anos e pode manter boa parte da rotina profissional em segurança, diferentemente de quem ainda precisa cruzar todos os dias uma cidade deflagrada sem saber como voltar.

Quem leva o celular para a cama é capaz de passar a noite sonhando com aquele empresário sorrindo aquele riso franco e puro para um filme de terror, como dizia o Raul Seixas: "Ninguém gosta de lidar com pessoas morrendo, é muito triste, não tenho dúvidas". E taxação de fortunas, doutor? É triste ou é o que tem pra hoje?

Me pergunto onde estão os líderes motivacionais que até outro dia diziam para os colaboradores que crise é oportunidade, que é preciso sair da zona de conforto, pensar fora da caixa etc. Lamentar mortes e recolher corpos como se fossem inevitáveis é mesmo a saída mais criativa desses caras para a hecatombe que se desenha?

A única conclusão possível é que, na mão dos garotos envelhecidos que adoram guerra, o país seria destroçado numa batalha de verdade, dessas que pedem calma e estratégia enquanto as bombas explodem.

Pelo menos, graças a um ser microscópico, tudo agora está visível.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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