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“Ensaio sobre a Cegueira” previu a pandemia de 2020?

Universa

04/05/2020 04h00

Em primeiro plano, Julianne Moore no filme "Ensaio sobre a Cegueira". Foto: Divulgação

Quando José Saramago publicou "Ensaio sobre a Cegueira", em 1995, a internet comercial ainda engatinhava em países como o Brasil.

Pelas ruas, ninguém andava curvado, olhando as pequenas janelas de cristal líquido na palma das mãos nem estava a um clique de saciar a dúvida sobre qualquer coisa googleável, da lista das maiores estátuas do mundo ao meme do caixão.

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A cada dois a três anos a quantidade de dados em determinada área do conhecimento, como a química, por exemplo, dobra. Foi o que lembrou o físico e curador do Museu do Amanhã, Luiz Alberto Oliveira, durante um "Café Filosófico" recente. Isso quer dizer que todo o conhecimento acumulado por alquimistas andaluzes do século IX até 2015 equivale ao que foi produzido entre 2015 e 2018. "Isso é uma curva extremamente acentuada", explicou Oliveira. "Hoje nós temos uma variedade enorme de áreas do conhecimento operando nesse regime exponencial. Ao contrário de épocas em que o conhecimento se capilarizava lentamente, hoje o conhecimento explode incessantemente. Ninguém será capaz de ter conhecimento sobre tudo o que é publicado em física, não é nem um ano, em um dia. É impossível", descreveu.

Essa explosão de informações parece cegar. Uma espécie de cegueira branca.

O branco é a junção de todas as cores. É a cor que reflete, não absorve, todos os raios luminosos.

Dias atrás, como num exercício de autoflagelo, tirei do plástico um DVD do filme homônimo de Fernando Meirelles inspirado da obra do autor português. Os paralelos com as notícias do dia ofuscam a vista como o sol.

"As duas epidemias, a do livro do Saramago e esta de agora, nos mostram o quão frágil é nossa civilização. Estamos apoiados em quase nada", resumiu o cineasta em entrevista para o TAB.

No filme, um motorista provoca um congestionamento em uma grande cidade ao perceber que está cego. Um homem se prontifica a ajudar. Acaba roubando o automóvel.

Em pouco tempo, a cegueira contamina todo mundo que teve contato com a primeira vítima – inclusive o ladrão. Para evitar uma epidemia, os cegos são confinados em um hospital, entre eles o oftalmologista interpretado por Mark Ruffalo, que realizou o primeiro atendimento, e sua mulher (Julianne Moore), que finge ter sido infectada para poder acompanhar o marido. Ela é a única que enxerga naquele local.

A cegueira é democrática. Pega do atendente da farmácia ao casal de investidores financeiros.

Como em 2020, os governantes da distopia falam precipitadamente de cura. As soluções de combate são improvisadas. A cidade vira um cenário fantasma.

Apesar de investimentos em pesquisa, a ignorância se espalha na velocidade da luz. A violência vem a reboque. Covas rasas são abertas para dar conta dos corpos que ninguém pode ver ou tocar.

No isolamento, um dos poucos intervalos na tensão é quando o personagem de Danny Glover divide um rádio de pilha com os pacientes de sua ala. "Estamos precisando mesmo de música", diz. Era a live possível da época.

A pandemia tira das pessoas o que elas têm de melhor e também o que têm de pior. "O pânico espalhou a cegueira ou a cegueira espalhou o pânico?", pergunta o narrador.

Em uma das cenas, o personagem de Ruffalo ensaia uma aproximação com os moradores das outras alas para criar um comitê gestor entre os sobreviventes. A proposta é rechaçada por um homem armado (Gael García Bernal) que se autoproclama rei. As saídas democráticas são, assim, obstruídas onde o que vale é a lei do mais forte – conhece alguma história real de quem no meio da pandemia dobrou a aposta para forjar o seu delírio autocrático? Pois é.

O grupo armado bota todos os outros prisioneiros em uma espécie de cativeiro dentro do cativeiro. Saqueia os mantimentos e condiciona a distribuição de alimentos à subserviências dos demais. Pilhagem e violência sexual passam a fazer parte da rotina dos confinados. Os milicianos só não agridem enfermeiros ou jornalistas porque, no ambiente fictício, o abandono do Estado é total. Não há médico nem imprensa acompanhando a rotina dos infectados. Ninguém, ali, pode ver.

O personagem de Rufallo é um entreposto entre a barbárie e a civilização em confinamento. Embora se oponha aos opressores, ele se revolta com a mulher que o limpa e alimenta. Diz sentir falta da vida em casal e, como se não pudesse ser visto, se envolve com uma prostituta de sua ala.

Fora, mas não longe, da ficção, a perversidade humana em meio à pandemia é noticiada diariamente. Do presidente que mostra desdém às vítimas aos relatos de violência doméstica, o coronavírus tem acentuado os nossos traços de caráter que já não podem ser confinados. Transbordam nas ruas em forma de carreatas em frente aos hospitais com caixões, pedidos de intervenção, músicas e ordens para que os empregados voltem para as trincheiras.

No começo de abril, a Polícia Civil de São Paulo passou a investigar disparos contra um prédio em Perdizes durante um panelaço.

No estado, os atendimentos da Polícia Militar a mulheres vítimas de violência saltou de 6.775 para 9.817 (aumento de 44,9%) em março em relação ao ano passado, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A quantidade de feminicídios subiu de 13 para 19 casos. Isso sem contar os casos de abuso psicológico fartamente demonstrados.

Há relatos também de mães que criam os filhos sozinhas e não conseguem sacar auxílio emergencial do governo porque os pais, ausentes, sacaram a verba antes e se mandaram.

A perversidade não é produto exclusivo nacional. Nos EUA, Donald Trump se aproveita da pandemia e bota para fora sua xenofobia e seu tino para os negócios (ele é sócio de uma empresa produtora de cloroquina, da qual virou garoto-propaganda). Na Colômbia, moradores de um condomínio, com medo da contaminação, ameaçaram matar a mulher e os filhos de um médico vizinho caso ele não se mudasse de lá.

Ao mesmo tempo, correntes de solidariedade, redes de escuta, ativismo maker para abastecer hospitais com equipamentos, mutirão de arrecadação de alimentos e campanhas de conscientização, com aplausos aos médicos na linha de frente, mostram que há mais Juliannes do que Gaels pelo mundo.

Antes eclipsados na cegueira branca das redes, cientistas e artistas voltam a ser ouvidos para apontar caminhos e sentidos para além das feitiçarias dos gurus eletrônicos.

A cegueira branca é a metáfora de um impasse do nosso tempo: a ignorância e o conhecimento dividem as alas do mesmo hospital onde tratamos as retinas feridas pela hiperinformação.

A cegueira branca do século 21 é a cegueira dos que optam por não ver.

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.