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Complexo de Lineu: a pandemia vai nos condenar a uma vida mais careta?

Matheus Pichonelli

25/06/2020 04h00

O bem-comportado personagem Lineu, de "A Grande Família". Foto: Divulgação / Rede Globo

Na sexta-feira à noite, quando zapeava pela TV à procura de um sonífero, caí num episódio antigo de "A Grande Família" no Canal Viva. Como quem desenterra uma lasanha congelada desde a era pré-pandemia, me contentei com o que tinha e por lá fiquei.

Queria dormir e caí numa insônia.

Isso porque, no episódio, o pai da família, Lineu (Marco Nanini), entra em surto ao descobrir que o genro usou seu carro para uma pescaria com direito a bebedeira com os amigos. O resultado da aventura era uma conversa animada em família em torno da grelha cheia de peixes no fundo de casa –uma ferida narcísica para Lineu, o protótipo do indivíduo regrado e cumpridor de tarefas, que não se conforma com os louros pelo que considera um ato de irresponsabilidade.

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Em sua defesa, Agostinho Carrara (Pedro Cardoso) filosofa: o ser humano, sem um ato de loucura, é um ser pouco interessante. Para ele, o sogro não entendia aquilo porque era muito certinho. Se você não tiver um ato de loucura na vida, perguntava o malandro, o que vai contar para os netos? Que acordou e pagou um boleto?

Lineu, então, entra em crise de identidade ao saber que a maior transgressão que cometera na vida tinha sido pegar uma vez o carro do sogro para um passeio com a namorada e voltar com o tanque cheio –o que fazia o velho (Rogério Cardoso) deixar as chaves do automóvel à vista de propósito para o genro caxias.

Típico conflito que faz a gente rir, mas de nervoso. Principalmente em tempos de pandemia.

Na hora me lembrei do meu sogro, uma espécie de Lineu versão araraquarense, que conta para o genro e o neto a história de quando viajou com o amigo até a praia, tomou uma garrafa de uísque na areia, acordou e voltou para trabalhar na manhã seguinte. Grande dia.

Insone, busquei na gaveta de memórias alguma história digna de ser narrada em tom de epopeia para os netos, daqui a uns anos, mas me dei conta de que estava de pijamas desde as quatro da tarde de um dia em que repeti uma dezena de vezes que a juventude estava perdida por causa de um churrasco na casa dos vizinhos e que, minutos antes de ferrar no sonho, meu filho ouviu da minha boca a sentença que meu pai costumava repetir para mim: "Tem medo, mas não tem vergonha nessa sua cara de pau, né?".

Isso porque ele se nega a sentar para jantar.

Em busca de alguma história que faria inveja aos navegadores do século 16, olhei para a coleção de pochetes pendurada no cabideiro e pronto: minha "linerização" estava consumada.

Numa sexta-feira comum, talvez eu abanasse os demônios trazidos pelo seriado com uma taça de vinho à janela cantando Chico Buarque em horário inapropriado. "Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar. Estou me guardando pra quando o Carnaval chegar". 

Verdade que, no último Carnaval, o que chegou foi uma gripe, depois de acompanhar dez minutos de um bloquinho na chuva com a família, mas essa é outra história. Pensar no Carnaval sempre foi um suspiro, mesmo que pela perspectiva do autoengano. 

Com a pandemia, até esse autoengano foi arrancado do horizonte. Sim, os amigos caretas de quem rimos a vida toda por jamais terem se aventurado, a não ser para atravessar o portão de casa e buscar a pizza, venceram. Não era o que parecia em 1999. A pandemia virou o placar.

Zygmunt Bauman, autor de "Modernidade Líquida", defendia que segurança sem liberdade é escravidão e que liberdade sem segurança era o caos. Estar vivo era permanecer num pêndulo entre dois valores inconciliáveis. De um lado Lineu, do outro, Agostinho.

Pré-pandemia, este pêndulo já somava 7 a 1 no placar orientado pelo medo, o afeto político central e organizador de nossas rotinas cada vez mais confinadas em bolhas, as zonas de conforto, para usar uma expressão já batida. Não por acaso, os serviços de entrega se tornaram os serviços mais promissores em um mundo em que ninguém se atreve a atravessar o portão com medo do desconhecido, inclusive o vizinho. (Antes da réplica, é preciso lembrar que viagem com roteiro da CVC e motorista esperando na porta do aeroporto não conta como ato de loucura. Mochilão bancado pelos pais, menos ainda).

"Todos os românticos encontram o mesmo destino algum dia", ensinava, em 1968, ano cabalístico, o aventureiro Richard da canção da Joni Mitchell. Pois até ele se dobrou ao "american way of life", comprou uma máquina de lavar, uma cafeteira, e passou a beber em casa todas as noites com a TV ligada e todas as luzes acesas.

Volto ao conflito Lineu x Agostinho.

Tirando o fato de ninguém saber ainda que mundo pós-pandemia virá quando tudo isso acabar, se é que um dia acaba, o protótipo do Lineu provavelmente está menos ansioso, a essa altura da quarentena, do que quem tinha outros planos na vida a não ser mofar.

O veneno antimonotonia sempre esteve naquele território do desconhecido que chamamos mundo. Nele, como os personagens do livro "On The Road", poderíamos acampar, dormir ao relento, pedalar até outro estado, parar na estrada, fugir de briga, encarar as iguarias mais estranhas, tomar chuva na fila para ver o show de um ídolo, encarar arquibancada para um jogo furreba ou simplesmente sair por aí sem plano e fazer o que der na telha.

Mas a contingência não é o ônus da vida adulta? É e não é.

Da peça que ainda não vimos em cena à amizade com anônimos num bar ou numa festa, passando por todas as formas de apimentar o relacionamento (sexo ao ar livre? Matar a curiosidade de saber como é uma casa de swing?), o risco envolve fechar os olhos e se jogar no desconhecido. É esse encontro que parece suspenso ou condenado a visitar as mesmas caras de sempre, tranquilas e infalíveis, em bolsões de segurança enquadradas em programas como o Zoom.

Vinícius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro.

Na pandemia, viver para contar histórias agora é risco de vida.

Pedi a pizza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.