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Quem é que vive confinado? Nós ou os índios?

Matheus Pichonelli

02/09/2019 04h00

 

Integrantes da Comissão Guarani Yvyrupa fazem manifestação em defesa da demarcação das terras indígenas na Avenida Paulista (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Se um índio descesse de uma estrela colorida e brilhante e pousasse no coração do hemisfério sul, na América, no claro instante em que esperamos o metrô na área de embarque e desembarque ou invadimos as praças de alimentação na hora do almoço, certamente estranharia os modos pouco civilizados com que nos digladiamos nas grandes cidades por comida, território e prestígio.

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Na baldeação das linhas verde e amarela do metrô paulistano, ele veria uma galera correr alucinada ao ouvir a chegada do trem ao lado direito, na tentativa de chegar antes dos outros passageiros à área das escadas rolantes que levam todos a se atrasarem pontual e democraticamente na mesma plataforma. Todos ali correm de medo – inclusive da chuva.

Alguns metros acima, ele veria espécies notáveis de animais exóticos e endividados que suportam a rotina intensa de trabalho para poder comprar um carro novo e neste carro novo poder ficar duas horas parado no trânsito no deslocamento entre a casa e o trabalho.

Observaria ainda espécies nativas aprisionadas não em uma área demarcada em quilômetros, mas em centímetros manejados por polegares e dedos indicadores de uma tela de toque sensível. As telas confinariam por horas os afetos, a fé e a economia de atenção dos usuários que andam com as costas encurvadas e já não enxergam, sem embaçar a vista, qualquer letreiro fora do horizonte ao alcance dos dedos.

Essa espécie nativa da urbe tem como hábito correr para chegar antes de todo mundo em espaços diminutos mediados por muros, linhas de chegada, placas e metas estabelecidas em post its.

Nas esteiras de academias inteligentes, os povos exóticos calcificam as calorias extras dos corpos sedentários em áreas intensivas de abate com poucos metros e muitos equipamentos.

Na fila do fast food, compartilham um ritual sagrado que envolve depositar os crachás nas mesas e balcões vagos para poder chegar antes e comer mais rápido.

Nessa aldeia dita global, a neurose produtiva é celebrada e o surto, recorrente.

Sem tempo de elaboração, nem do luto nem da alegria, o desarranjo de emoções desses povos é corrigido por tecnologias medicamentosas que lembram a pílula da felicidade plena imaginada por uma espécie de pajé chamado Adous Huxley.

Em rituais diários, eles se entopem de café e/ou nicotina para se manterem acordados, e drogas, lícitas ou ilícitas, para pegar no sono.

O confinamento dessas áreas explica muitas das angústias de seus habitantes, mas também da esperança – uma esperança alimentada pela propaganda da viagem, parcelada em 12 vezes, para as áreas de céu aberto que ainda não deram lugar a concreto e asfalto nem entopem quando chove.

O sonho da geração Y, como são chamados os jovens adultos da tribo, é se desconectar de tudo um dia e se mudar para o mato no futuro – mesmo não tendo provas científicas de que haverá mato ou evidências científicas no futuro.

Como alertava um velho poema, essa tribo se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. ("E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz…").

Essa tribo de guerreiros que sonham com armas e acordam em sangue tenta a todo custo ver sentido para a vida dizendo como outros modos de vida devem se agregar e se incorporar à dele.

Seus habitantes sabem operar muitos equipamentos, mas não têm ideia do que fazer diante de uma árvore – principalmente quando ela está em chamas – a não ser expulsar quem há séculos consegue nascer, crescer, viver, se reproduzir e morrer sem precisar destruir nada ao redor.

O líder desses povos é um presidente que, pressionado a emitir uma resposta ao mundo sobre o ritmo da devastação de suas matas, consegue acusar a política ambiental e as terras ainda protegidas, como as áreas indígenas, de "inviabilizarem" a chegada do progresso. Para ele, quem vive recluso em reservas, "como animais em zoológicos", são os índios, e não seus auxiliares e comandados.

Não percebe que a gaiola produz delírios. A nossa não reconhece o próprio confinamento.

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Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.