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Louco rasga dinheiro? No país que despreza milhões do Fundo Amazônia, sim

Matheus Pichonelli

19/08/2019 04h00

Vista aérea da floresta amazônica (Foto: EBC)

Millôr Fernandes duvidava da máxima de que só louco rasga dinheiro. "Experimente jogar uma nota de cinquenta (ou mesmo de um!) num pátio de insanos. Vai ter briga pra pegar", dizia.

A aposta podia fazer sentido até pouco tempo atrás, mas não no Brasil atual. Em 2019, chegamos a tal estágio de insanidade que rasgar não uma nota de 50, mas milhões de reais, se transformou em "afirmação de soberania". Isso em plena crise.

A condução a esse estágio de loucura tem as mãos de um capitão. Dias atrás, irritado com a divulgação dos dados recentes sobre desmatamento no país, Jair Bolsonaro decidiu quebrar a régua e demitir o diretor do instituto que auferia os índices. Como resposta, jogou o país em suspeição e conseguiu que a Alemanha suspendesse as contribuições ao Fundo Amazônia no dia 10 de agosto.

Criado há dez anos, o Fundo já recebeu, até hoje, R$ 3,4 bilhões em doações. O volume de repasses é condicionado ao índice de desmatamento. No pain, no gain.

"Apoiamos a região amazônica para que haja muito menos desmatamento. Se o presidente não quer isso no momento, então precisamos conversar. Eu não posso simplesmente ficar dando dinheiro enquanto continuam desmatando", disse a ministra alemã do Meio Ambiente, Svenja Schulze, em entrevista à agência alemã Deutsche Welle.

Bolsonaro respondeu muito abaixo da altura: "Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok?".

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Pouco depois, quem congelou os repasses foi a Noruega – aquele país, segundo o presidente, que "mata baleia lá em cima, no polo Norte, não?".

Duas declarações, e R$ 287 milhões a menos para a gestão de programas como o Projeto Frutificar, iniciativa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) que deveria estimular a produção de açaí e cacau por cerca de mil famílias no Pará e no Amapá.

Um amigo, historiador, notou que esta deve ser a primeira vez que um país em recessão esnoba dinheiro de outro porque não está lá muito a fim de proteger a floresta.

Algum desnorteado que (ainda) não rasga dinheiro pode dizer que, sem as amarras das nações europeias, o Brasil reafirmou a sua soberania e agora poderá fazer dinheiro como quiser destruindo a própria vegetação –afinal, por que não transformar aquele espaço ocioso em um grande estacionamento de shopping?

A estes é bom relembrar o rastro de destruição de todos os ciclos de exploração de riquezas naturais do país, do pau-brasil à Serra Pelada, passando pelo ciclo da borracha e a mineração a todo custo das grandes siderúrgicas. O que sobrou?

Especialistas já dizem que o ritmo do desmatamento pode levar a floresta amazônica, espécie de reator do equilíbrio ambiental do planeta, a um ponto de inflexão. Será um estrago irreversível, mesmo para quem já calcula com a fita métrica a quantidade de pasto e a área de exploração proporcionada pela destruição – será, em breve, um grande deserto sem os rios voadores que formam massas de ar carregadas de vapor e levam umidade para toda a chamada área produtiva do país.

Com ou sem verba estrangeira, é sabido que a floresta em pé gera muito mais riqueza do que derrubada. Mas seu custo de manutenção exige boa vontade, sensatez e parceria com quem quer ajudar.

O Brasil de Bolsonaro, ao desprezar os milhões das nações europeias, conseguiu uma proeza que nem a ditadura alcançou. Fez Millôr perder a aposta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.