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Aviso aos “sabichões de Facebook”: vocês estão passando vergonha

Matheus Pichonelli

03/04/2019 04h00

Foto: Getty Images

Nazismo é de esquerda. Ditadura é um troço legal – "meu vô viu, viveu e recomenda".

Se você passou os últimos dias sem ler bobagens como estas, parabéns: sua bolha é impecável.

Quem não teve a mesma sorte, e por acaso dedicou anos de estudos para compreender a anatomia das grandes tragédias da humanidade justamente para que elas não se repitam, sinto dizer, mas o cargo de especialista está ocupado por um novo sujeito: o sujeito que transformou a ignorância em virtude.

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Dos mesmos criadores de "vacina causa autismo" e "água quente com limão emagrece", a nova onda agora é demonstrar, em voz e caixa alta, toda ignorância em História.

Para piorar, nada no horizonte aponta que esta moda seja passageira.

A internet, muitos já disseram, é terra de ninguém. Da mesma forma que levou muita gente que não escrevia a começar a escrever, e abriu portas e conexões entre pessoas que não trocariam informações e conhecimento em condições normais de pressão e geografia, ela também "empoderou" doutores nos mais diversos assuntos que jamais chegaram perto de um livro, uma tese, um artigo de jornal.

Há uma característica em comum entre esses sabichões de redes sociais: nenhum parece ter a menor dúvida do que diz. Todos estão transbordados, praticamente naufragados, nas próprias verdades.

Alguns até viraram presidente.

No Brasil de 2019, os sabichões de assuntos aleatórios se tornaram a prova material do teste que os psicólogos Justin Kruger e David Dunning aplicaram 20 anos atrás para mostrar que quem tem a melhor imagem sobre si é exatamente os menos capacitados no assunto que julgam conhecer e opinar. Em outras palavras: quanto menos sabemos, mais achamos que estamos preparados para discutir com qualquer um.

Os especialistas de verdade, por sua vez, duvidam o tempo todo – inclusive das próprias aptidões.

Nada parece explicar melhor o Brasil atual, sobretudo nos dias que exigem reflexão histórica, do que o efeito Dunning-Kruger. É esse fenômeno que nos leva a tomar decisões erradas e produzir resultados bizarros por pura falta de habilidade – inclusive para reconhecer a própria incompetência.

Isso só se tornou possível porque, como diz meu amigo Diogo "Mono" Ramos, a internet democratizou a desinformação. Ela é hoje um atalho tentador para chegar a qualquer lugar sem muito esforço.

O tempo todo somos levados a isso: basta assistir ao vídeo para saber como a menina rica virou milionária. Basta acessar as aulas online do astrólogo para aprender filosofia. Basta clicar na propaganda do curso de estética ou de terapia de flores e cores para posar com jaleco de doutor ou doutora nas fotos de capa.

As referências não são mais quem se dedicou por anos ao mesmo assunto, mas quem vende o melhor atalho, ao menor esforço, com o melhor custo-benefício.

Por ironia, a mesma rede que prometia conexões e expansões criou indivíduos presos a corpos encurvados e às próprias experiências, a partir das quais desfilam todo tipo de conclusões absurdas.

Por má fé ou ignorância, fazem pouco caso do sofrimento de quem passou, e ainda passa, por experiências traumáticas em um mundo mediado pela perversidade, seja hoje ou no tempo dos avós.

O raciocínio limitado à própria experiência é um sintoma da própria incapacidade de ver o mundo fora do próprio corpo: se ele ou algum parente próximo "sobreviveu", não vivenciou nem sentiu os horrores da tortura, da censura e da perseguição, então nada aconteceu.

Se aconteceu, foi merecido – é o que diz a corrente compartilhada pelo nosso amigo ou parente que não gostava de estudar e que, por algum motivo mágico, se tornou a nossa única verdade e referência.

Com ele, todos os embates, conflitos e soluções para o mundo passaram a caber em um alerta de textão – como se pudéssemos queimar todos os livros já escritos sem acender um mísero fósforo.

Não é incrível?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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