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Além de falsa, notícia da menina que "esnobou" Bolsonaro só expõe criança

Matheus Pichonelli

22/04/2019 16h39

Bolsonaro cumprimenta alunos de escola estadual no DF (Reprodução – Twitter

Uma menina se negou a cumprimentar Jair Bolsonaro? Essa foi a notícia que correu a internet a partir do fragmento de um vídeo curto publicado pelo próprio presidente no Twitter. A recusa teria acontecido durante uma cerimônia com crianças da rede pública do Distrito Federal na quinta-feira, dia 18, e logo se tornou em símbolo de resistência.

Não faltou quem comparasse a cena com o que aconteceu no fim da ditadura, quando uma criança de sete anos deixou o ditador João Batista Figueiredo no vácuo durante um evento cívico-militar em Belo Horizonte, em 1979 – como se anunciasse a queda de prestigio de um regime em ruína.

Num caso clássico de wishful thinking, traduzido aqui como pensamento desejoso, o ato da garota de Brasília ganhou precedente histórico e logo correu as redes — turbinadas pela leitura labial de outros garotos que teriam reclamado do governo ao próprio presidente e dando margem para uma multidão ver ali exemplos notórios de coragem dos quem não se curvam ao poder. Não era um ato infantil, mas uma criança apontando que o rei estava nu.

Certo?

Errado. Muito errado. Uma sucessão de erros, na verdade.

O primeiro e mais grave erro é o fato de uma criança ser exposta dessa forma em um contexto de alta polarização e hostilidade política. Alguém pensou o que ela poderia ouvir quando voltasse à aula na segunda-feira? Alguém imaginou o que seus pais poderiam sofrer? Alguém, de fato, se preocupou em saber o que de fato aconteceu antes de usar uma criança para confirmar uma opinião prévia?

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Se isso tivesse acontecido, talvez os mensageiros da revolução entendessem que, no vídeo como na vida, nem tudo é o que parece – e isso apesar de vivermos num tempo em que a imagem supostamente vale mais do que mil palavras. Spoiler: não vale.

A realidade pode ser mais dura, decepcionante e até menos complexa do que supõe a nossa sede de validação.

Segundo o site "Metrópoles, que entrevistou a família da criança, a estudante só balançou a cabeça diante de Bolsonaro após o presidente perguntar à turma quem ali era palmeirense. A garota é flamenguista.

Em tempos de fake news e interpretações pela metade, das quais Bolsonaro (vale lembrar) é adepto notório, o estrago estava feito. "Fico muito triste porque as pessoas estão falando mal de mim, que sou mal-educada", disse a estudante de oito anos ao repórter Mike Sena.

Segundo a mãe, a garota passou o feriado chorando, triste e transtornada. Ela teme as consequências psicológicas da exposição – um "crime" nas palavras do pai, um pedreiro de 48 anos que é eleitor de Bolsonaro.

Preocupada com possíveis retaliações, a família disse à reportagem que desmarcou os planos de ir ao shopping comprar os ovos de chocolate no feriado – quando, apesar de a notícia já ter sido desmentida, vídeos e postagens sobre o suposto ato de resistência ainda eram compartilhados.

Se o caso é uma sucessão de erros, é também didático sobre nosso embrutecimento em uma época de análises, acusações, julgamentos e condenações precipitadas a partir de fragmentos, e não de fatos.

Se essa for a estratégia para combater quem lança mão desses mesmos instrumentos para obter votos e prestígios, estamos todos perdidos.

Ainda que a garota de fato tivesse se negado a estender a mão para o presidente, ninguém tinha o direito de usar sua imagem para expressar e confirmar a própria opinião – por essas e outras evito levar meu filho a manifestações políticas, seja por uma questão de segurança, seja porque ele não entende bulhufas do que está acontecendo. Ele vai ter tempo, afinal, para desenvolver a própria consciência política e discordar do que dizem os pais, o presidente e até o papa.

O alerta sobre a exposição indevida deveria valer também para quem usa criança como plataforma política para mostrar prestígio e humanidade entre beijos e abraços forçados, uma marca de políticos de todas as colorações desde que o mundo é mundo. Nisso Bolsonaro não é pioneiro – mas em nada se distingue dos antecessores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.

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