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Em Porto Rico, politicamente incorreto tem outro nome e ninguém passa pano

Matheus Pichonelli

29/07/2019 04h00

Alex Wong/Getty Images North America/AFP

Faça o teste em casa: quando alguém faz algum tipo de comentário ofensivo a grupos sociais e minorias, quanto tempo demora para outro alguém correr com um pano gigante dizendo que, veja lá, veja bem, ele não falou por mal, não é de coração, é apenas um sujeito simples, de modo chucro e vocabulário limitado, ainda ligado a um tempo e lugar em que ainda era normal falar assim e é melhor não revidar para não reforçar o preconceito?

A ciência ainda não tem resposta para essa pergunta, mas, em se tratando de Brasil, e se o ofensor for figura pública, dessas que "falam o que pensam" e atribuem ao "politicamente correto" todos os males corretivos da nação, a proporção entre o tempo e o tamanho do pano é calculada em quilômetros por segundos.

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Pois em Porto Rico, terra de Rick Martin, essa postura rendeu demissão por justa causa – não de um gerente de loja, mas de um GOVERNADOR e toda sua rede de assessores.

Tudo começou quando o mandatário, Ricardo Rosselló, decidiu se reunir com outros 11 marmanjos em um grupo de mensagens privadas de celular. No chat, eles ridicularizavam celebridades, políticos e jornalistas locais com comentários sexistas e homofóbicos.

Adversários eram chamados de "mama-pica", homossexuais, de "veadinhos", participantes de Miss Universo, de adeptas de "softporn" e adversárias, de "vadias" que mereciam apanhar ou morrerem baleadas.

Sobrou até para Rick Martin, maior ídolo pop da nação, gay assumido e que, segundo um dos participantes, "é tão machista que fode com homens porque mulheres não estão à altura. Puro patriarcado."

As ofensas não pouparam sequer as vítimas do furacão Maria, que devastou a ilha em 2017, chamadas de "cadáveres para alimentar os corvos" – os corvos, no caso, eram os adversários.

A revelação das mensagens de ódio levou uma multidão às ruas para pedir a renúncia do governador e sua equipe. Isso se confirmou na quinta-feira, 25/07.

Além de Ricky Martin, os protestos reuniram outros porto-riquenhos famosos, como o ator Benício Del Toro, o rapper Residente e o ícone do reggaeton Bad Bunny.

As revelações foram feitas pelo Centro de Jornalismo Investigativo de Porto Rico, que teve acesso a quase 900 páginas de comentários feitos por Rosselló e seus assessores mais próximos em um grupo privado do Telegram.

Foi o estopim para que as pessoas fossem às ruas, numa mobilização que durou 12 dias – e prometem se prorrogar devido à insatisfação também com os substitutos de Rosselló.

Impossível não pensar e comparar com o caso brasileiro, onde a divulgação de conversas inadequadas entre juiz e acusadores na Lava Jato se transformou numa brecha para atacar e demonizar a essência da atividade jornalística, e não o conteúdo das mensagens.

Pudera: nada do que foi dito no chat privado em Porto Rico já não foi dito diversas vezes por aqui em conversas abertas, sem qualquer intermediação de hackers.

No Brasil é diferente…

Quando deputado, Jair Bolsonaro já chamou os colegas Jean Wyllys de "veado" e "queima-rosca" e Maria do Rosário, de "vagabunda". Uma jornalista foi chamada de idiota. (Para não ser injusto, Lula também já se referiu à cidade de Pelotas como "polo exportador de veado").

Em vez de escândalo, a ofensa, por aqui, é símbolo da sinceridade em um ambiente tomado pela artificialidade das gravatas e discurso treinado dos políticos mais empolados. Nos ambientes privados, é só "brincadeira".

Bolsonaro tanto sapateou sobre tantos que ganhou, de presente, a cadeira de presidente, de onde agora acusa gratuitamente atrizes e realizadores do cinema de usarem dinheiro público pra fazer filme pornô e chama conterrâneos nordestinos de "paraíba".

No auge da eleição, houve quem imaginasse que a cadeira presidencial fosse uma espécie de traje civilizatório que moderaria as inclinações ofensivas do deputado sincerão. Quem acreditou pensou viver em Porto Rico. Lá o politicamente incorreto tem outro nome.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Sobre o blog

Este blog é um espaço de compartilhamento de dúvidas, angústias e ansiedades vivenciadas em um mundo cada vez mais conectado, veloz e impessoal.